Criança, pise a grama!

O Piseagrama faz reflexões sobre o espaço público e é conhecido por, na época das campanhas eleitorais em Belo Horizonte, criar tapumes com dizeres como “ônibus sem catraca”, “uma praça por bairro” sugestões de possíveis propostas de candidatos para a cidade, colocando-os ao lado dos cavaletes com fotos e números dos políticos. Uma crítica à forma como escolhemos nossos governantes que virou moda em sacolinhas que perambulam pela cidade e incitam diálogos para quem passa e vê. “Como assim carros fora do centro?” já ouvi de uma senhora que perguntou à uma amiga que andava com uma sacola pendurada no braço.

Para um projeto de financiamento coletivo, o Piseagrama decidiu incluir as crianças nestas propostas. E criou camisetas com os dizeres “Goiaba e Pitanga na calçada”, “Velotrol na Avenida”, “Roda gigante sem catraca” e “um balanço por árvore”. Eu ainda sugeriria mais uma camiseta: “criança, pise a grama”!

Marcelo Zocchio – Marcenaria quiari

 

Marcelo Zocchio constrói com madeira casa de passarinho, mesa de estudar, tábua de cortar, carrinho de empurrar, banquinhos de sentar. Com as pontas do que sobra da madeira, ele cria carrinhos para brincar. Estou apaixonada pelo que sobra. E pelo brincar.

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#VOVOMEINSPIRA por Paula Sacchetta

Era para eu e Paula compartilharmos o mesmo teto, quando eu buscava casa para morar no começo do ano, ela me ofereceu um puxadinho. Imagine as conversas que teríamos nas mesas de café. Mas a vida me apresentou algumas surpresas e compartilhamos, então, de uma paixão maior, a pela nossas avós. Conto sobre esse resgate importante que está sendo me lembrar do projeto #vovomeinspira e retomo ele com esse texto lindo da Paula, obrigada.

Ela era do tipo que estragava os netos e que fazia tudo tudo que a gente queria. Tenho tido uma saudade esses dias… Saudade de ver Planeta Terra domingo à noite na TV Cultura com ela e nem saber que a música era do Caetano.

Saudade de ir dormir na casa dela e no dia seguinte fazer tudo que eu queria, do café da manhã na padaria ao cinema no fim da tarde. Quando ela mudou pra minha casa, era pra cama dela que eu corria com medo quando os móveis começavam a ranger no meio da madrugada. Ainda acordava ela umas doze vezes incomodada “vó, você tá roncando muito, será que dá pra parar?” e nós duas espremidas na cama tamanho “de viúva”. No dia seguinte meu pai já sabia, era lá que ia me acordar na hora de ir pra aula. Toda noite ela vinha e me dava moeda, que era pra gastar em bala no dia seguinte, na cantina da escola.

Saudade do bolo de café com chocolate dela, que eu sigo a receita mas que nunca fica gostoso igual. E do patê de atum, que ela me ensinou a fazer pequena e que eu achava que era um grande prato e mega elaborado, e portanto, eu uma super cozinheira. Saudade das calças de prega dela, que tinham que estar sempre bem passadas, dos casaquinhos de lã, das mãos que estavam sempre geladas, até no alto verão, e do chá que sempre era o mais quente do mundo e que eu não entendia como ela não queimava a língua.

Saudade de quando ela me trazia língua de gato da Kopenhagen ou chocolate de chumbinho. Saudade da coleção de postais, de moedas e de arrumar os colares dela quando todos tinham virado um nó só. Saudade de ir almoçar na casa dela, que tinha cheiro de casa de vó e sempre música clássica no rádio.

Saudade até de escutar as histórias do Shakespeare, lidas, num cd que ela trouxe da Inglaterra e que eu achava um saco, mas que escutava igual só pra fazer companhia pra ela. Saudade dela na cabeceira da minha cama lendo “Um conto por dia” pra mim, de histórias com os personagens da Disney, e mais tarde me dando a Divina Comédia do Dante pra ler sozinha ou sua linda coleção do Machado de Assis, de páginas já amareladas pelo tempo. Saudade de folhear as páginas da Enciclopédia Britânica quando eu nem sabia ler, mas sabia exatamente o volume e a página pra encontrar as fotos das raças de cachorros: era sempre igual, fazíamos os mesmos comentários sobre cada foto, num ritual ensaiado. Saudade até dos papos malucos que a gente tinha quando ela já estava com o Alzheimer avançado, eu ficava aflita e meu pai dizia pra “entrar na viagem dela”.

Saudade de ir com ela ao shopping, comprar um all star rosa de cano alto ou o new ballance da moda que meus pais tinham dito que “só no aniversário”. Saudade de ir no clube, ficar no parquinho, tomar sorvete, ver as araras e passar o dia com o pé na areia, entre aqueles eucaliptos gigantes. Saudade de colocar aquele óculos de mil graus e lente grossa que me deixavam até tonta, de sair pela casa com os sapatos de salto alto dela ou com os tamancos de madeira Dr. Scholl, que faziam barulho no azulejo da cozinha.

Saudade do perfume dela de lavanda ou “água de colônia”, do cheiro de sabonete phebo que ficava no banheiro úmido depois do banho e do relóginho de couro de pulso, que sempre estourava a pulseira ou acabava a bateria e que a gente ia trocar no japonês relojoeiro da rua dos pinheiros.

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Priti Baiks por José Castrellón

Comente | Categoria(s): arte, fotografia

Greetings From Tim Buckley

Você nasce com um talento herdado de um pai que nunca foi presente em sua vida. Até que você é convidado para cantar suas músicas em um tributo. Filme sensível, triste e belo – como as músicas de Tim Buckley <3

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Francis Alÿs Ghetto Collector, 2003

Os carrinhos que as crianças arrastam pelas ruas do México. Ghetto Collector, por Francis Alÿs.

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Da Bahia a Espanha, um castelo em Paraisópolis

Eu ouvi histórias sobre um “graudí brasileiro” há tempos. Eu só não me lembrava que ele morava aqui, em São Paulo mesmo. Talvez tenha sido o resquício do seu sotaque baiano ou a recepção extremamente calorosa de sua esposa, da mesma terra, que me deixaram a impressão que alí não era mesmo Paraisópolis.

Estevão Silva trabalha em um condomínio em Pinheiros. Troca lâmpadas, faz reparos na parte elétrica do prédio e cuida do que mais gosta, o jardim. Quem pede para ele fazer um reparo aqui e ali, não deve imaginar o que ele cria em casa.

É preciso atravessar a marginal, passar pelas mansões de quarteirões inteiros no Morumbi, até chegar ao seu real palácio. A porta de sua casa é pesada, cheia de pedrinhas. Gostoso mesmo é sentar-se à sua mesa da sala de estar. Os pires de diferentes tamanhos, colados no cimento de maneira despreocupada são perfeitos para a ocasional cervejinha com os amigos. “Cabe certinho, veja”, diz Estevão completando “é minha peça favorita da casa”.

Talvez os olhos dos visitantes brilhem pela similaridade de seu trabalho com o do arquiteto Gaudí. Mas eu confesso que os meus ficaram encantados foi com o quarto do casal, repleto de ornamentos coloridos de madeira, recortados e colados na parede verde. Fico pensando, como é possível fechar os olhos e dormir. Mas para que fechá-los se você pode sonhar alto com cada uma das formas em cada canto do quarto?

Pois são as crianças, elas sim, que ficam enlouquecidas nas visitas. Não é para menos, se os ingressos se esgotaram para ver Castelo Ratim Bum no MIS, que façam fila para ver o de Estevão em Paraisópolis!

 

Comente | Categoria(s): arquitetura, arte

O desenho, enfim, com todos e para todos

Em 2013 eu tive a oportunidade de sair um pouco do circuito de design pelas agências. Fui resgatar minha paixão pela arte, entrevistei artistas e curadores, flertei com a antropologia, vi vários documentários e me apaixonei novamente pela fotografia e pelo cinema brasileiro. O design virou minha ferramenta de trabalho e não mais a principal fonte de estudo e pesquisa.

Até que recebi um convite: trabalhar para a Bienal Brasileira de Design. Volto a olhar a palavra, que já começava a soar estrangeira – o design, ou também, o desenho. Para minha surpresa, muda-se um pouco o ângulo, não basta apenas inclinar a cabeça, é necessário mesmo girar o corpo todo.

É um convite para se sentar não apenas na cadeira assinada, mas no banco comunitário da praça. Vamos compartilhar lugares públicos com todos, do idoso à criança, do gordo magro, do baixo ao alto. Um convite a olhar uma outra etiqueta das peças: a do preço. Vamos investigar a acessibilidade também econômica de um bem de consumo. Não só. Convidemos a todos a pensar o uso cotidiano de cada produto criado para melhorar a qualidade de vida de quem os consome.

“Design for Social Change”, “Inclusive Design”, “Open Design”, “Accessible Design”, “Design for the Other 90 per Cent”, “Design for All”. Tantos conceitos para tentar tatear o que parece importante: o desenho para ser inclusivo e não exclusivo; o desenho que é acessível e não inatingível; o desenho que é para todos e com todos – para melhorar nossas vidas.

Observo atentamente as bicicletas compartilhadas, os parklets nas ruas movimentadas, os livros para crianças em fase de alfabetização também em braille e a sinalização de espaços públicos, por exemplo. E sorrio a cada projeto, feito por estudantes pelo Brasil, que ainda vai encontrar a industria para sugerir essa mudança de olhar.

Se você participou/conhece projetos de design implementados dentro dessa proposta curatorial, envie-o para o bbd.curadoria@gmail.com. Não esqueça de falar o nome do projeto e o estado onde foi criado e produzido.

As fotos que ilustram esse post são do projeto Sinalização Noite Branca do Parque, de Ricardo Portilho e Fernando Maculan para a Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, em 2012.

TOP5: exposições em São Paulo

1. Histórias Mestiças – Tomie Ohtake

“Quem mestiçou quem? Como se mistura inclusão com exclusão social? Como se combinam prazer e dominação? Quais são as diferentes histórias escondidas nesses processos de mestiçagem?” – perguntam os curadores Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz.

Histórias Mestiças, no instituto Tomie Ohtake, é imperdível pelo exercício de olhar novamente para a história do Brasil sem sobrepor nenhuma cultura. Das obras destacadas pelos críticos, vale o atual “Nego bom” de Jonathas de Andrade;  mergulhar no ” Em Busca do Sagrado Jiboia Nixi Pae”, de Ernesto Neto; e não perder a sala “Encontros e Desencontros” com a série Marcados, de Claudia Andujar.

Por aqui vou chamar atenção para o trabalho de Ibã Sales Kaxinawa (foto acima), os grafismos indígenas de Lux Vidal e  as cores dos desenhos de Joseca Yanomami.

Instituto Tomie Ohtake – Rua dos Coropés, 88 Pinheiros
De 16/08 a 05/10  - Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 11:00 às 20:00
Entrada gratuita

2. Maneiras de expor: arquitetura expositiva de Lina Bo Bardi – Museu da Casa Brasileira

Quem estuda curadoria, vai sempre adorar a contribuição de Lina Bo Bardi para os estudos de diferentes maneiras de expor. Mas essa exposição me surpreendeu pelas falas, Lina possui uma visão do “popular” e do “povo” questionadora e inspiradora. Sai de lá comprando vários livros sobre ela, em especial “Lina por escrito”, da Cosac Naif, com diversos textos de apresentação da arquiteta sobre seus projetos públicos. Destaque para a série de vídeo-entrevistas com grandes nomes da cultura brasileira prestando homenagem à ela. Um presente essa exposição, obrigada Museu da Casa Brasileira.

Museu da Casa Brasileira (MCB) – Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705
Até 09 de novembro; de terça a domingo das 10h às 18h
R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada); entrada gratuita aos sábados, domingos e feriados

3. Rivane Neuenschwander: mal-entendidos – MAM

Sou suspeita. Eu sou fã da Rivane desde suas parcerias com Cao Guimarães. Feliz com a curadoria de Adriano Pedrosa no MAM que reune trabalhos mais recentes da artista mineira, um desenho de seu filho com o curador alemão Jochen Volz e até uma obra interativa chamada “Monstros Marinhos”, em que o visitante sai presenteado com uma moeda de sal.

Fico feliz ao ver que Rivane não perde sua importante referência brasileira, apesar da estética expositiva quase alemã. As “esculturas involuntárias” (foto acima) que fazemos à mesa do bar estão lá, junto aos banquinhos inspirados no “mobiliário urbano” e popular brasileiro (foto a baixo).

Imperdível é tirar os sapatos e pisar sobre as tábuas da obra “Quem vem lá sou eu / Alarm-Floor “, inspirada nos pisos de madeira que funcionavam como sistema de alarde em antigos templos e palácios japoneses. Ao caminhar pelo piso, acionamos um som de atrito entre latas, copos de plásticos e varas de metal armazenados sob ele. Uma parceria entre o duo de músicos O Grivo e Rivane.

Museu de Arte Moderna de São Paulo - Parque Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3)

De 2 de setembro a 14 de dezembro - Terça a domingo, das 10h às 17h30
Entrada gratuita.

4. Leonilson: Truth, Fiction – Estação Pinacoteca

Há ironia na série de desenhos de Leonilson para o jornal “Folha de S. Paulo” entre 1991 e 1993. O patinho feio diz “eu preciso, eu quero, eu tenho”. Uma fronha aninha a palavra bordada “sozinho”. Seus desenhos miúdos são alta voz para seus pensamentos. Seus delicados bordados aveludam o conflito com a homossexualidade. Na última sala, cadeiras dão corpo às camisas bordadas, minha fase preferida do trabalho de Leonilson. Fica a dica para quem gosta de sua obra, apesar da dificuldade de se expor um trabalho tão minuncioso em pés direitos tão altos como da Estação Pinacoteca.

Estação Pinacoteca – Largo General Osório, 66, Centro, São Paulo
De 09/08 a 09/11 De terça-feira a domingo, das 10 horas às 17h30.
Às quintas-feiras, até 22 horas R$ 6,00, gratuita aos sábados (11) 3335-4990

5. Éder Oliveira na Bienal de São Paulo

Eu não tenho muito à recomendar da Trigésima Primeira Bienal de São Paulo, é verdade. Mas tive o prazer de entrevistar e conhecer o trabalho do artista paraense Éder Oliveira para um Especial Bienal do Espaço Húmus. Em Belém do Pará, ele pinta os muros da cidade com seus homens retirados dos jornais locais. Olhar daltônico e certeiro, Éder denuncia em tons alaranjados o que parece preto no branco. Obrigada por nos mostrar as nunces Éder, sempre fã.

Pavilhão da Bienal Avenida Pedro Álvares Cabral, s/ nº
Portão 3, Parque do Ibirapuera
De 06/09 a 07/12
Terças, Quintas, Sábados e Domingos das 09:00 às 19:00
Quartas e Sextas das 09:00 às 22:00

 

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Um ser tão inverso, o Agreste fértil

Quem disse que os irmãos Grimm foram os primeiros a passar histórias orais para a escrita, só mesmo o eurocentrismo. Do lado de cá, ainda batemos o pé em pensar mais sobre as lendas brasileiras, como a do Boi-Bumba. Então, por que filmar uma exposição sobre os famosos contos dos irmãos Grimm?

Por conta de uma palavrinha atrelada à ele. Agreste. Grimm Agreste é o nome da exposição no Sesc Interlagos que une as matrizes de J Borges às histórias dos Grimm e suas versões e releituras pelo Brasil. Faz de conta que a casa de João e Maria tivesse um filtro de barro. Que Branca de Neve encontrasse uma casa com 7 anões e um burrinho na porta. Que rapunzel vivesse numa torre alta e no meio do sertão. São esses os contrastes que incitam os visitantes da exposição a contar suas próprias histórias, explica o curador Alvise Camozzi.

Contraste entre dois mundos. O Brasil e a Alemanha. A floresta e o semi árido. O medieval e o sertanejo. Foi assim que Alvise nos explicou sua inspiração para incitar nos visitantes a vontade de contar histórias. Se você busca dois elementos de universos bem diversos e pede para alguém narrar a trajetória entre eles, eis aí o mais belo conto!

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