Em Andarilha

Há alguns anos, eu tomei uma nova direção profissional: trabalhar com pesquisa. Depois de vários cursos, fiz uma viagem a São Paulo em visita à algumas empresas do ramo. E decidi começar um projeto autoral de pesquisa. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Talvez, a mais importante delas, vale a pena compartilhar onde tudo começou: aqui.

Desde que criei o A Pattern, olhar para fora virou um exercício diário. O que acontecia em Berlim. O que acontecia no Japão. O que acontecia em Austin. Treinei um olhar bem atento. Fiz uma rede fiel de pessoas em sintonia com esse jeito de ver. Pessoas que viraram amigos e próximos.

Mas, vira e mexe, a vida vem e te sacode. Eu fui levada a fazer o exercício oposto. Foi preciso olhar para dentro, para o que acontecia aqui mesmo, em minha volta. Momento de olhar para a história de vida de minha família: das andanças da minha avó pelo Brasil até onde eu me encontro hoje, caminhando pelo país. Esse trabalho de voltar para o que é interno me ensinou a ver preciosidades esquecidas. Percebi, então, que me construí uma pesquisadora ao avesso.

Enquanto os grandes bureaus estão digerindo uma avalanche de informações em busca da nova tendência por aí; volto meu trabalho para a matéria prima de tudo, o nosso cotidiano e a nossa trajetória de vida e família, em busca do que sempre foi naturalmente inspirador mas estava no fundo da gaveta.

Fui convidada a fazer trabalhos de consultoria nessa direção. Pesquisar o que é a nossa identidade e investigar como pessoas criativas traduzem suas origens e seu cotidiano. Tudo isso me levou a aplicar esse exercício à identidade de projetos, empresas, organizações.

Uma marca que se volta para o autoconhecimento é, no mínimo, corajosa. Em tempos de crise, eu diria, é ser esperta. Fico feliz em me encontrar com profissionais que são atentos para o que um momento de reformulação interna pode construir de positivo para a própria empresa. Ufa, o olhar se volta, finalmente, para o cotidiano. E o melhor de tudo é poder fazer parte desse movimento.

Propor uma série de oficinas, imersões e exercícios feitos à várias mãos em busca de traduzir como aquela marca vê o mundo e a língua que ela fala. Mas não mais a partir do que as tendências lá foram apontam como caminho. Não mais a partir do que os consumidores dizem que querem. Mas sim, a partir dos próprios rumos tomados, dos próprios passos, de onde surgiu aquela primeira vontade de se criar um novo negócio.

Avalanches de referências externas nos levaram a uma espécie de pasteurização do novo. Agora nos resta olhar para o que nos parecia velho conhecido e ver, então, o que ainda parece fresco, quase intocado pelo esquecimento e para o que é, finalmente, inspirador: nossa própria história de vida e nosso cotidiano.

Nesse rumo, construo uma nova casa, ou talvez seja melhor chamar de estrada. Andarilha é meio. É onde eu entrevisto pessoas criativas em busca do que, em sua trajetória e em seu dia a dia, as inspirou a fazerem um filme, uma música, uma escultura, um livro. É onde eu busco estimular: o vasculhar de gavetas e o reencontrar de fotos de família. É onde eu percebo que essa referência para a criação de qualquer projeto, nunca é saturada, pois está sempre em construção. Em andarilha.

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“A arte da lembrança”: Luiz Braga

A imagem dela era minha visão do trabalho do fotógrafo Luiz Braga. Cores do Pará, pelos olhos de Luiz, na exposição “A arte da lembrança”, no Itaú Cultural, em São Paulo.

 

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“Largou as Botas e Mergulhou no Céu”

Antes de embarcarem na viagem de alguns meses pelo nordeste filmando o documentário “Largou as Botas e Mergulhou no Céu”, Bruno Graziano, Paulo Silva Jr., Raoni Gruber e Cauê Gruber fizeram uma série de entrevistas em busca de compreender um pouco mais sobre a tal “identidade brasileira” – ou seria, “entidade brasileira”?

A websérie “Tão Longe, Tão Perto” conta com 10 episódios interessantes sobre a construção do pensamento do que é ser brasileiro para profissionais como cineastas, poetas, fotógrafos, historiadores e até uma cozinheira de mão cheia! Cinco entrevistas por aqui e muito mais lá no youtube do Espaço Húmus. E ainda tem muita estrada pela frente nos próximos meses, só seguir lá no facebook do “Largou as Botas e Mergulhou no Céu”.

Crescida naquelas fazendas onde as coisas brotam e já são colocadas no prato, Mara Salles abriu seu primeiro restaurante com sua mãe, servindo almoço em Perdizes. Depois, nascia o Tordesilhas, seu restaurante e projeto de intervenção e investigação da culinária brasileira. Trabalhar com nossa culinária só poderia ser uma investigação bastante afetiva, que exige pés com a pele bem firme para cruzar as enormes distâncias, para viajar as fronteiras não geográficas mas, também, as de sabor que enchem as panelas Brasil afora.

De início, o entrevistado o africanista e historiador Salloma Salomão já reitera não acreditar numa noção de identidade brasileira, pelo menos, não como é apresentada, criação fabulosa de uma elite intelectual muito próxima das rodas de poder que massacram e reprimem as comunidades.

Para se falar uma história de identidade, é preciso um resgate profundos nos maiores confins, porque a história foi escrita porque quem tem costume de ocultar. É uma história plenamente aceita, como se tudo fosse terminar no branco, num mundo eurocêntrico que orbita em torno de si mesmo e classifica tudo que está na borda como exótico. Salloma insiste na necessidade de cavucar nas raízes do intelectual negro, das comunidades negras e seus levantes artísticos.

Carlos Ebert é fotógrafo e diretor de cinema. Foi participante ativo do Cinema Marginal e diretor de fotografia do filme “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla. A câmera de Ebert é sobre o deslocamento de um bandido que é idiota mas também brilhante, e acaba também sendo sobre o deslocamento de um novo fazer cinematográfico, que olha determinado para o próprio umbigo.

O segundo vídeo da série Tão Longe, Tão Perto pega sem medo a mão do poeta inquieto. Marcelino fala sobre um Brasil dos improvisos e da ternura, dos gritos que não podem e nem querem ser contidos, e do legado de teimosia e de inconformismo de sua escrita. Porque sem poesia teimosa, a vida é uma rua comprida com todas as luzes queimadas, e um cão com sarna que nela vagueia.

A socióloga, cineasta e curadora Isa Grinspum Ferraz, que serpentou e aprendeu por aí com Darcy Ribeiro, é clara: por trás de toda essa mitologia mestiça do Brasil, existe uma dura e complexa realidade. Ela recosta na cadeira, cita poetas políticos que inserem o povo brasileiro como protagonista da história. Ela própria versou quando contou a história de seu tio, Marighella, no documentário homônimo de 2011.

Criança, pise a grama!

O Piseagrama faz reflexões sobre o espaço público e é conhecido por, na época das campanhas eleitorais em Belo Horizonte, criar tapumes com dizeres como “ônibus sem catraca”, “uma praça por bairro” sugestões de possíveis propostas de candidatos para a cidade, colocando-os ao lado dos cavaletes com fotos e números dos políticos. Uma crítica à forma como escolhemos nossos governantes que virou moda em sacolinhas que perambulam pela cidade e incitam diálogos para quem passa e vê. “Como assim carros fora do centro?” já ouvi de uma senhora que perguntou à uma amiga que andava com uma sacola pendurada no braço.

Para um projeto de financiamento coletivo, o Piseagrama decidiu incluir as crianças nestas propostas. E criou camisetas com os dizeres “Goiaba e Pitanga na calçada”, “Velotrol na Avenida”, “Roda gigante sem catraca” e “um balanço por árvore”. Eu ainda sugeriria mais uma camiseta: “criança, pise a grama”!

Marcelo Zocchio – Marcenaria quiari

 

Marcelo Zocchio constrói com madeira casa de passarinho, mesa de estudar, tábua de cortar, carrinho de empurrar, banquinhos de sentar. Com as pontas do que sobra da madeira, ele cria carrinhos para brincar. Estou apaixonada pelo que sobra. E pelo brincar.

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#VOVOMEINSPIRA por Paula Sacchetta

Era para eu e Paula compartilharmos o mesmo teto, quando eu buscava casa para morar no começo do ano, ela me ofereceu um puxadinho. Imagine as conversas que teríamos nas mesas de café. Mas a vida me apresentou algumas surpresas e compartilhamos, então, de uma paixão maior, a pela nossas avós. Conto sobre esse resgate importante que está sendo me lembrar do projeto #vovomeinspira e retomo ele com esse texto lindo da Paula, obrigada.

Ela era do tipo que estragava os netos e que fazia tudo tudo que a gente queria. Tenho tido uma saudade esses dias… Saudade de ver Planeta Terra domingo à noite na TV Cultura com ela e nem saber que a música era do Caetano.

Saudade de ir dormir na casa dela e no dia seguinte fazer tudo que eu queria, do café da manhã na padaria ao cinema no fim da tarde. Quando ela mudou pra minha casa, era pra cama dela que eu corria com medo quando os móveis começavam a ranger no meio da madrugada. Ainda acordava ela umas doze vezes incomodada “vó, você tá roncando muito, será que dá pra parar?” e nós duas espremidas na cama tamanho “de viúva”. No dia seguinte meu pai já sabia, era lá que ia me acordar na hora de ir pra aula. Toda noite ela vinha e me dava moeda, que era pra gastar em bala no dia seguinte, na cantina da escola.

Saudade do bolo de café com chocolate dela, que eu sigo a receita mas que nunca fica gostoso igual. E do patê de atum, que ela me ensinou a fazer pequena e que eu achava que era um grande prato e mega elaborado, e portanto, eu uma super cozinheira. Saudade das calças de prega dela, que tinham que estar sempre bem passadas, dos casaquinhos de lã, das mãos que estavam sempre geladas, até no alto verão, e do chá que sempre era o mais quente do mundo e que eu não entendia como ela não queimava a língua.

Saudade de quando ela me trazia língua de gato da Kopenhagen ou chocolate de chumbinho. Saudade da coleção de postais, de moedas e de arrumar os colares dela quando todos tinham virado um nó só. Saudade de ir almoçar na casa dela, que tinha cheiro de casa de vó e sempre música clássica no rádio.

Saudade até de escutar as histórias do Shakespeare, lidas, num cd que ela trouxe da Inglaterra e que eu achava um saco, mas que escutava igual só pra fazer companhia pra ela. Saudade dela na cabeceira da minha cama lendo “Um conto por dia” pra mim, de histórias com os personagens da Disney, e mais tarde me dando a Divina Comédia do Dante pra ler sozinha ou sua linda coleção do Machado de Assis, de páginas já amareladas pelo tempo. Saudade de folhear as páginas da Enciclopédia Britânica quando eu nem sabia ler, mas sabia exatamente o volume e a página pra encontrar as fotos das raças de cachorros: era sempre igual, fazíamos os mesmos comentários sobre cada foto, num ritual ensaiado. Saudade até dos papos malucos que a gente tinha quando ela já estava com o Alzheimer avançado, eu ficava aflita e meu pai dizia pra “entrar na viagem dela”.

Saudade de ir com ela ao shopping, comprar um all star rosa de cano alto ou o new ballance da moda que meus pais tinham dito que “só no aniversário”. Saudade de ir no clube, ficar no parquinho, tomar sorvete, ver as araras e passar o dia com o pé na areia, entre aqueles eucaliptos gigantes. Saudade de colocar aquele óculos de mil graus e lente grossa que me deixavam até tonta, de sair pela casa com os sapatos de salto alto dela ou com os tamancos de madeira Dr. Scholl, que faziam barulho no azulejo da cozinha.

Saudade do perfume dela de lavanda ou “água de colônia”, do cheiro de sabonete phebo que ficava no banheiro úmido depois do banho e do relóginho de couro de pulso, que sempre estourava a pulseira ou acabava a bateria e que a gente ia trocar no japonês relojoeiro da rua dos pinheiros.

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Priti Baiks por José Castrellón

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Greetings From Tim Buckley

Você nasce com um talento herdado de um pai que nunca foi presente em sua vida. Até que você é convidado para cantar suas músicas em um tributo. Filme sensível, triste e belo – como as músicas de Tim Buckley <3

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Francis Alÿs Ghetto Collector, 2003

Os carrinhos que as crianças arrastam pelas ruas do México. Ghetto Collector, por Francis Alÿs.

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Da Bahia a Espanha, um castelo em Paraisópolis

Eu ouvi histórias sobre um “graudí brasileiro” há tempos. Eu só não me lembrava que ele morava aqui, em São Paulo mesmo. Talvez tenha sido o resquício do seu sotaque baiano ou a recepção extremamente calorosa de sua esposa, da mesma terra, que me deixaram a impressão que alí não era mesmo Paraisópolis.

Estevão Silva trabalha em um condomínio em Pinheiros. Troca lâmpadas, faz reparos na parte elétrica do prédio e cuida do que mais gosta, o jardim. Quem pede para ele fazer um reparo aqui e ali, não deve imaginar o que ele cria em casa.

É preciso atravessar a marginal, passar pelas mansões de quarteirões inteiros no Morumbi, até chegar ao seu real palácio. A porta de sua casa é pesada, cheia de pedrinhas. Gostoso mesmo é sentar-se à sua mesa da sala de estar. Os pires de diferentes tamanhos, colados no cimento de maneira despreocupada são perfeitos para a ocasional cervejinha com os amigos. “Cabe certinho, veja”, diz Estevão completando “é minha peça favorita da casa”.

Talvez os olhos dos visitantes brilhem pela similaridade de seu trabalho com o do arquiteto Gaudí. Mas eu confesso que os meus ficaram encantados foi com o quarto do casal, repleto de ornamentos coloridos de madeira, recortados e colados na parede verde. Fico pensando, como é possível fechar os olhos e dormir. Mas para que fechá-los se você pode sonhar alto com cada uma das formas em cada canto do quarto?

Pois são as crianças, elas sim, que ficam enlouquecidas nas visitas. Não é para menos, se os ingressos se esgotaram para ver Castelo Ratim Bum no MIS, que façam fila para ver o de Estevão em Paraisópolis!

 

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