A arqueóloga e o balneário

Alícia veio me contar sobre os objetos que ela encontra na rua, recolhe em imagens e fotografa em palavras. Uma luva de boxe que servia de travesseiro. Um cigarro mais pra fogo do que pra palha. Uma cd arranhado cujo escrito ainda resiste: revelação. Curiosidades que servem de ferramenta para as narrativas que Alícia escreve sobre esses objetos descartados. Reencontram significado na poesia e ganham nova vida em lambe-lambes pela cidade. Da rua, de volta à rua.

Em sua última expedição, a fotógrafa e artista nos levou junto. Águas da Prata fica há 3 horas de São Paulo, quase na divisa com Minas. Leia-se: o melhor queijo (canastra) que já comprei por bandas paulistanas. Macacos nos galhos da rua. Cheiro de Mato. Água de uma fonte natural para preencher galões. E um incrível balneário abandonado. Sim. Uma piscina pública enorme e sem água que eu não via igual desde a minha última visita ao clube da família em 1994.

Esse é o mais recente objeto encontrado por Alícia e é ele quem recebe seus lambes no FestImagem, primeiro Festival de Imagem e Fotografia da cidade. Acompanhamos da luz do entardecer à lua cheia que cresceu e conversamos com Alícia sobre suas viagens com esse projeto: “Arqueologia do Desejo”. Índia. Nepal. Berlim. Alguns muros nesses locais ainda guardam alguns dos lambes que a artista colou em viagem. E a intervenção do ambiente em cada um deles viraram novas histórias que ela se delicia em contar.

Depois de passar uma noite de muito frio colando um dos lambes, Alícia passou em frente ao muro em que pregou o cartaz para ver como havia ficado. Para sua surpresa, havia uma camada de gelo em cima do papel. Um moça passou para olhar, disse à Alícia “justamente por que estava congelado”. E assim se dá seu trabalho, à intervenção do espaço urbano, cria-se, recria-se. E eu voltei para casa me perguntando: “como estarão hoje seus lambes mergulhados no balneário de Águas?”. A chuva agiu ali. A poeira. As pessoas. O vento. Vai que um dia esse mesmo vento vem me trazer ao pé do chão um pedaço desses lambes de Alícia. Vou ficar de olho.

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ALICE NO PAÍS DE YAYOI KUSAMA

Quando eu soube que uma exposição sobre o maior nome da arte contemporânea japonesa viria ao Brasil, enlouqueci – que nem criança! Acompanhei a trajetória das longas filas até chegar aqui, em São Paulo. E tive de cobrí-la, mas de que forma? Pensamos na velha entrevista com curadores, tentamos uma aproximação com a galeria que a representa no Japão, mas foi me lembrando de onde eu me apaixonei por Yayoi pela primeira vez, que surgiu a ideia!

“Eu, Kusama, sou uma Alice no País das Maravilhas moderna” escreveu a artista no final do livro Alice no País das Maravilhas ilustrado por ela e editado pela Penguin (relançado pela Editora Globo). Um livro que se engole. E te devora. Foi pensando nessa leitura de Kusama, como a Alice de seu país fantástico de bolinhas, que convidei uma pequena e espevitada Alice para nos acompanhar pela exposição para vê-la pelos seus olhos – de criança.

Eu já tinha lido alguns casos de Alice, através dos olhos do pai. Então, fomos munidas de fitas coloridas para ela escolher sua cor favorita e colar a camera no seu capacete. O gravador ficou sob a responsabilidade do Yoda, seu companheiro-mochila. Fui logo coroada a rainha das cores com rolos coloridos na minha cabeça. E depois de alguns minutos, sua mãozinha já agarrou à minha e fomos juntas, ver a exposição.

Criança se entedia rápido e capacete com uma câmera na cabeça enche o saco. Mas Alice não queria nem pensar em sair de algumas salas. “Eu estou dentro de uma obra de arte?” interrogou à mãe. E confessou que quer ser artista para poder fazer um quarto cheio de luzinhas e um chão de água. Perguntou se é de verdade o cenário, se o papel laminado são de ovos de páscoa e se o quarto branco com bolinhas adesivas é uma festa!

Ver uma exposição pelos olhos do outro é uma viagem. Ver a obra de Yayoi é viajar. “Foi aberta a toca do Coelho”, disse Cecilia, nossa escrevedora do Espaço Húmus, e pulamos de cabeça. O tempo nos leva para outra dimensão, outro lugar. “Somos todos loucos aqui!”.

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Mariana e seus óculos de gatinho

Sempre observei com cuidado a paixão entre pai e filha. Aquela admiração de fazer brilhar os olhos. Foi o que encontrei quando conheci a Mariana. Filha de cearense. Filha de artista. Filha de um homem inspirador. É com gosto que ela abre um dos livros da sua biblioteca e me mostra um dos títulos herdados do pai sobre a cultura africana.É para ele que Mariana cria seus diplomas. Não precisava de todos aqueles certificados – pensava ela sobre a não educação formal do pai; poderia inventar vários, se assim desejava Aldemir Martins (sim, o artista conhecido popularmente por suas famosas pinturas de gatinhos).

Seu pai era mestre, doutor, phd em sabedoria. De vida. Ao me falar do pai artista, ela ajusta seus óculos de gatinho e me relata que vivia a tomar café da manhã brasileiro, almoçar japonês e jantar mexicano. Do banquete ao pão na chapa. Das mais diferentes comidas às mais interessantes companhias. Vejo, como um filme, um entra e sai de pessoas de todo mundo, reunidas em sua casa, pela arte e para a arte.

E assim nasceu todo seu trabalho artístico. De um quadro se comprou uma casa. Da casa se fez uma galeria. Da galeria se fizeram muitos quadros. Dos quadros se fizeram artistas. Da arte se fez sustento. Do sustento se fez vida. Assim nasceu a Choque Cultural, da qual Mariana Martins é fundadora junto ao marido, Baixo Ribeiro. Não poderia ter outro nome. Do Cariri à São Paulo. De São Paulo ao mundo. Da rua à casa. Da parede branca à arte urbana. A Choque ocupa a cultura como lugar de todos. Convida a ver com outros olhos o grafite, o gráfico, a grafia. Colore o cubo branco. Enche a parede de diplomas. E se arrisca a reinventar o mercado de arte.

Posso conversar horas a fio com Mariana, sobre seus projetos educativos na nova habitação da Choque no centro de São Paulo, sobre sua coleção de óculos de gatinho, sobre sua vontade de mudar o mundo em torno da arte e agregar pessoas, sobre sua relação com a música e seu papel como mãe de artista. Encontro ali uma voz, feminina, muito forte. De quem vive do que e para quem ama. Apaixonada. Apaixonante. Acabo a encontrando num bar esses dias e ela me recebe com uma piada sobre minha mineirice. Abraça, observa, ri. Conto do seu vídeo e ela se confessa curiosa. Espie Mari, você fala coisas importantes. E eu fico muito feliz em poder captar sua voz, que ela ecoe:

 

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Ao tom de Marcelo Amorim

No começo das minhas pesquisas de artistas brasileiros, encontrei o trabalho do goiâno Marcelo Amorim chamado “Educação para o Amor”, uma série de pinturas feitas de um material encontrado em  sebo. Um slideshow sobre educação sexual da década de setenta, um manual do que seria uma relação afetiva e de amor através de imagens de mães abraçando carinhosamente seus filhos e casais namorando nos cenários mais estereotipados possíveis.

Retiradas do livro empoeirado, as fotos foram projetadas em sua sala escura e pintadas com a tinta a óleo (presente de sua mãe quando ainda era pequeno). Marcelo assim fez, apagou a nitidez da imagem e realçou suas nuances.

Já no início ele declara: “a arte que mais me interessa, é aquela em que as questões políticas não ficam pronunciadas”. Marcelo apenas as sugere. Com seus tons pasteis, quase desaparecidos na tela, revela muito: os papeis que a mulher e o homem representam em cada imagem montada, o ideal da família perfeita na composição e nos sorrisos de cada slide.

É assim seu processo criativo: garimpando no passado o que é tão presente, tão relevante, mas que já está pré-estabelecido e, portanto, quase esquecido. Para isso o artista desloca. O que era um material para ensinar ao aluno a como se portar na escola, virou a série de pinturas “Iniciação”; o que é um manual de como desenhar figuras humanas infantis, se transformou em traços da série “Como desenhar crianças”; o que eram fotos de aniversários de sua família quando pequeno, com todas as crianças em volta do bolo e vários sonhos de valsa na mesa, são os detalhes recortados da série “Sonho de Valsa”.

Marcelo pinta, desenha, fotografa, mas, para ele, técnicas não são para se dominar e sim questionar. “Se o fotógrafo vai a guerra, a culpa é da guerra. Mas se um pintor faz uma imagem horrível, a culpa é do pintor. A impressão é que a pintura é criada, inventada, enquanto a fotografia se detém a realidade” indaga o artista enquanto pendura os quadros quase brancos por cima da parede branca e nos ensina a olhar, de perto, o que ali era apenas imagem, mas agora é arte.

Passar a tarde na casa FONTE, ateliê que Marcelo divive com artistas como Nino Cais na Vila Madalena é ouvir o latido da cadela Cintura, esquentar as mãos num café em xícara esmaltada e beliscar um bolo-pudim delicioso que alguém trouxe para a mesa. É navegar por todos os garimpos que eles fazem, tanto dos móveis, quanto dos livros. É compartilhar as risadas e trocar críticas dos trabalhos.

“Marcelo, muda de foto” disse o Nino para um de seus trabalhos. Marcelo muda de foto, mas continua seus auto retratos. Foi assim que ele começou. Com as fotos da família. Com as suas fotos de criança. A repensar sua própria memória, na tentativa de buscar quando ele próprio começou a internalizar todos os preconceitos, todas as regras institucionalizadas. A questionar a sua auto vigilância. A ser menos imagem e mais nuance. A ser.

Imagens:

Série “Educação para o Amor”, 2009
Série “Sonho de Valsa”, 2008
Série “Como desenhar Crianças”, 2013
Série “Iniciação”, 2010
Marcelo Amorim, por Amália Coccia
Marcelo Amorim, por Amália Coccia

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BIBLIOTECA ITINERANTE O BRASIL COM S

“Biblioteca é mais que coleção de livros, senhor dicionário. É porta, é janela, é por onde a luz bate e não parte mais. Abre-se um livro e o nariz queima com a poeira do sertão, afoga com a ressaca do mar. Ressaca pode ser nos olhos, Capitu, mas pode também ser a da costura, do fio que toca no pano de Leonilson. Biblioteca é terra quase mística, terra de ninguém e todos. Haroldo de Campos e suas palavras de galáxia ombro a ombro com os malandros de Roberto DaMatta.

E biblioteca, senhor dicionário, não precisar ficar parada não. Ela pode andar e voar por aí. O Brasil com S costura pezinhos e asas nos livros de seu acervo de pesquisa e os leva para passear com o projeto Biblioteca Itinerante.

Ana Luiza Gomes e a Mayra Fonseca tiveram uma brilhante ideia: Se folhear os livros em suas pesquisas dava tanto prazer e conhecimento, porque não levar o acervo para lugares onde as pessoas também pudessem desfrutar deles?

E a primeira parada da Biblioteca Itinerante não podia ser mais brasileira. Roda cadeira pra lá, ao som da tesoura, chuva de cabelo no chão do salão Retrozaria. O dono, Charles, já é ele próprio um pesquisador desse Brasil imensidão. Conhece lugar que não está livro, podia ser ele um livros de lugares. Então, como é dele, como é do brasileiro, abriga. Nas prateleiras brancas de seu salão a Biblioteca Itinerante aporta.

Para consultar os livros, é só ligar e marcar uma visita. Sente-se, leia, corte o cabelo. Guardando os livros e fazendo com que eles sosseguem um pouco, 4 vasinhos de barro suculentas brasileiras, criações de Marina Coutinho em seu projeto DaHorta. Que gostoso, é Brasil em toda parte, é Brasil de toda a natureza.

São Paulo – e logo menos outros lugares – ganha uma biblioteca voadora, itinerante, migratória. Como pássaros os livros vão fazer ninho onde possam ser vistos, manuseados, lidos, queridos. Como todos os livros devem ser.”

Charles Motta, Ana Luiza Gomes, Mayra Fonseca e Marina Coutinho.

O Brasil Com S, meu projeto com Mayra Fonseca, busca estimular o autoconhecimento do Brasil. Por isso, um dos nossos objetivos é levar nossas pesquisas para além do nosso site, para ações como a que inauguramos hoje: nossa Biblioteca Itinerante. São cerca de 40 títulos que garimpamos em nossas pesquisas disponíveis para leitura em cafés, espaços culturais, galerias, espaços de trabalho compartilhados, etc. O primeiro local a nos receber é o salão de Charles Motta, na Al. Itu, 1079. Até junho você poderá ir lá e consultar os livros e aproveitar para ouvir os vinis deliciosos de música brasileira do Charles e puxá-lo para uma prosa sobre lugares que você desconhece no Brasil. Para saber mais, clica lá: obrasilcoms.com.br/biblioteca-itinerante

Quem escreve esse belo texto-presente para nosso projeto é a escritora Cecília Garcia. Obrigado Ceci, por todo carinho. Obrigado a todos que abraçam e abrigam O Brasil Com S <3

 

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Rumo ao décimo endereço

Pequenas notas sobre a busca de um lugar para chamar de meu.

- Oi, desculpe incomodar a Senhora, mas estou procurando apto para alugar e eu amo esse prédio. Amo justamente pelas flores da escada. Passo aqui e sorrio sempre!
- Menina, não é aquela árvore ali nunca tinha dado flores. Anos sem flores. Mas ai essa semana surgiu. Eu já ia desistir porque a prefeitura fica no meu pé com essa árvore…mas olha só que lindeza.
- De fato. Linda. Mas se a senhora cuida com carinho, uma hora dá flores.
- Flores atraem meninas lindas como você, por aqui, procurando apto. Adoraria que você morasse aqui com a gente.

Ruborizo. Eu também Dona Mirra, a síndica mais doce num amargo mundo imobiliário. Uma hora dá flores.

- Olá, estou procurando aptos para alugar na região e adorei esse prédio, você sabe se existe algum para alugar?
- Olá! Entre, fique a vontade. Aqui eu moro em dois, que comprei e fiz um duplex. Do outro lado já tem donos também que moram lá. O que você busca? Tenho uma amiga que mora num vila e sabe de uma casa, deixa eu pegar o contato dela. Entrem, vejam o apto, sentem-se aqui.
- Poxa, que apto lindo o seu e não se escuta um barulho de carros na rua. Quantos quadros incríveis, quantas obras, são de amigos seus?
- Sim, dou aula de inglês para vários artistas. Você conhece a Cinthia Marcelle?
- Sim, eu trabalho num site que faz perfil de jovens artistas brasileiros, conheço bem o trabalho dela.
- Pois é, tem vários artistas como ela aqui.
- Acho que não encontrei meu apto ainda, mas já fiz um amigo, ehm? Vamos trocar figurinhas.
- Sim, me ache no facebook, vou ver com minha amiga sobre aptos para você!

Na saída, notei, nasciam rosas brancas na porta de entrada.

Era uma vez uma mulher que morava em Paris com o marido e dois filhos. Todo dia ela passava na frente de uma casa linda e se perguntava quem morava ali. Um belo dia, decidiu deixar um recado. “olá, passo aqui todo dia e gostaria de saber se alguém mora aqui. Gosto muito dessa casa e gostaria de alugar”. No mesmo dia recebeu uma ligação. Uma velhinha morava ali, estava com câncer e se arriscou a fazer uma proposta à mulher. “Cuide de mim que eu passo essa casa para o seu nome quando eu morrer”. Se mudou com os maridos e filhos e cuidou da velhinha dois anos. Herdou sua casa em Paris.

Das coisas que escuto na minha busca por uma casa.

- ei mãe, conseguiu descansar?
- filha, andei a tarde toda olhando apartamentos para você!
- nossa mãe, nesse calor?!
- menina, conheci uma senhorinha, tipo Dona Elda (melhor vizinha que ja tive na vida, doceira tocava piano todos os sabados e me levava pastel frito no meio da tarde de domingo). Ela tava alugando um apto enorme, disse que faz desconto pra gente!
- uau mãe! Mas deve ser caro entao ne? Enorme…
- tô de olho em um predinho, que não tinha porteiro, mas eu vi um pedreiro saindo e logo percebi que ele devia ta fazendo uma reforma ali, fiquei conversando com ele…me passou o nome da proprietaria! Vamos ligar amanha?

(filha de peixe, peixinho é)

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“Sentimo-nos cegos”

Eu acreditava que o Brasil existia. Ele foi lá ver se era só lenda.

Conheci o trabalho do artista Ivan Grilo nas minhas primeiras pesquisas para O Brasil Com S. Jamais imaginava que um ano depois estaria a caminho de Itatiba, visitando seu atelier. Ivan é leitor do A Pattern. Não me perguntem como ele chegou aqui. Ele me disse no dia que postei algumas imagens do seu site: “Opa! Meu trabalho entre as referências visuais que pesquiso diariamente”. Surpresa, tratei de acompanhar a sua carreira deslanchar.


Ivan é filho de Ivan – ele vai me pedir pra cortar essa parte. Mas eu peguei a mania dele. Enquanto ele redescobre acervos de museus, eu descubro suas histórias em uma parede cheia de fotos de família. Que ele guarda com cuidado, como o território que de poucos deve ser.

A estrada até Itatiba é importante. Sair de São Paulo é essencial para conhecer seu trabalho. Abrir a porta de seu atelier é saber que Ivan, o pai, frequentou aquela casa muito antes de Ivan, o filho, alugá-la para visitar memórias. Senti como se entrasse em sua obra.

Por entre fotos e trabalhos, em frente a parede repleta de folhas de livros amareladas pelo tempo, frases soltas coladas. Ivan se arrisca a recortar frases de músicas e de leituras para montar os títulos de suas obras. Na mesa de cabeceira, Walter Hugo Mãe. “Nunca termino de ler um livro”, inacaba a frase.

É da palavra que surge um desafio para desenvolver seus trabalhos mais recentes. A oralidade.

Dessa vez, Ivan não foi atrás de um objeto físico, como os preciosos cavaletes de Lina Bo Bardi que utilizou na exposição Bienal Internacional de Fotografia no MASP em 2013. Foi tatear uma lenda sobre o desaparecimento do Rei D. Sebastião.

Em suas pesquisas, soube de uma ilha, chamada Lençois, no Maranhão, em que as pessoas acreditam que o rei reapareceria em uma neblina por lá, em forma de um touro negro, em noite de lua cheia. Desafio aceito e duplicado. Ivan, que morre (ou melhor, morria) de medo de água, embarcou numa viagem de poucos dias ao local. Voltou cheio de histórias e uma exposição para se admirar: “Sentimo-nos cegos”.

Entre causos, almoçamos um peixe. Mesmo longe do mar. Vai ver a água salgada estava logo ali, navegando em nossas conversas. “O melhor peixe que já comi” conta Ivan a respeito de sua viagem de barco de volta à terra firme. Demorou alguns dias para voltar ao seu estado sólido. E prometeu: “Não se pode tirar nada da ilha. Então, um dia, eu vou retornar e devolver a ela uma biblioteca que existia sobre a lenda de D. Sebastião”. Tirou as medidas do lugar, calculou o material para a reforma e disse que vai ajudar na reconstrução.

De menino, Ivan queria ser pedreiro, desmanchava os brinquedos da irmã para entender como funcionava e nunca remontava da mesma forma. Desconstrução. Por que? “Porque preciso” – coça a barba. É hora de retornar.

Confira o vídeo que produzimos sobre o Ivan aqui.  
E conheça mais obras no site: www.ivangrilo.art.br

1 Comentário | Categoria(s): arte

Da Coragem ao Amor: Sinestesia

Quando se passa por um período muito difícil, desses que vêm como uma grande avalanche que remexe todos os ossos do nosso corpo e que, às vezes, parece levar a alma junto: reinventa-se.

Tudo começou em 2011 quando, entre muitas noites de insônia, ouvi de uma amiga: “desenhe Ana, volte a rabiscar, coloque no papel os sentimentos”. Coloquei. Achei que seria assim, traço. Mas veio em forma de outras linhas. Tudo misturado. Sentimentos com cores. Palavras com imagens. Sentidos atravessados. Sinestesia. Foi assim que chamei essa primeira série de textos que comecei ali e termino dia 14 de fevereiro, num último texto publicado no livro chamado AMOR, a convite da querida Fabi, editora do Confeitaria.

 

Como deveria de ser, faltou o rabisco que minha amiga sugeriu para completar a história. E minhas palavras ganharam o melhor traço, o dele. Fica aqui o meu, o nosso convite, para o lançamento do livro AMOR Pequenas Estórias, na Casa Prólogo, na rua Bahia, 1282,  em higienópolis, SP, no dia 14/02/2014, a partir das 19h. E uma lista de todos os textos da série, para quem ainda não leu <3

CEGUEIRA
LEVEZA
UTOPIA
DESPEDIDA
MEMÓRIA
ENAMORAR
SEGREDO
DOR
CONTROLE
CORAGEM

A QUATRO PÉS

Por Ana Luiza Pereira.

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O segredo de M.

“Ele é o cara” começa M.
“Ele é seu irmão?”
“Não”.
“Como você conhece ele?”
“Ele toca aqui no restaurante todo sábado”.
“E você vem todo sábado jantar aqui e vê-lo tocar?”
“Ahan. Posso te contar um segredo? Eu tô apaixonada com ele. As últimas 10 páginas do meu diário são sobre ele. Eu só penso nele. O tempo inteiro” escorrega o corpo na parede enquanto derrete as palavras.
“Eu acho que você vai ser atriz!” rio.
“Eu sonho que estou na varanda de uma casa e ele faz uma serenata para mim. Ele toca violino só para mim” diz a Disney com voz de M.
“Como é essa casa ai que você imagina?” dou corda.
“Ela é toda branca. Tem 5 quartos. Tem quarto para velho, adulto e criança”
“Quem mora nesse quarto de velhinhos?”
“Meu papai e minha mamãe ué!” e aprendo que M. tem 8 anos.
“Quem é sua mamãe? Ela está naquela mesa aqui?” tento voltar para o prato de macarrão que esfria a minha frente.
“É uma loira que tá do outro lado do restaurante”
“Como é o seu quarto nessa casa?” desisto.
“É cheiooooo de violinos na parede. Tem até uma pintura de um violino!”
“Como ele se chama? O violinista?”
“D.”
“E ele tem quantos anos?”
“15. É injusto, minha prima tem 13 anos e tem mais chance com ele do que eu!” e bate o pé no chão.
“Vocês não frequentam a mesma escola?”
“Não. Minha escola fica em João Del Rey, a dele em Tiradentes”
“Mas você mora aqui?”
“Ahan. Mas a gente deve mudar em breve. Meu papai quem fez esse macarrão aí”
“Então seu pai é o chef?”
“É ele e um monte de cozinheiro”
“Que delícia! E você gosta?”
“Todo dia eu como macarrão, macarrão, macarrão. Mas eu gosto mesmo é de frango com quiabo” encerra nossa conversa.

Naquela noite, eu fugia da música ao vivo nos inúmeros bares e restaurantes de Tiradentes. Acabei escutando D. tocar o violino e o coração de M.

Seu segredo é simples: como uma boa mineira, M. se apaixona “com”.

Spaghetti Cantina Italiana em Tiradentes, MG

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