Priti Baiks por José Castrellón

Comente | Categoria(s): arte, fotografia

Greetings From Tim Buckley

Você nasce com um talento herdado de um pai que nunca foi presente em sua vida. Até que você é convidado para cantar suas músicas em um tributo. Filme sensível, triste e belo – como as músicas de Tim Buckley <3

Comente | Categoria(s): cinema, música

Francis Alÿs Ghetto Collector, 2003

Os carrinhos que as crianças arrastam pelas ruas do México. Ghetto Collector, por Francis Alÿs.

Comente | Categoria(s): arte, Sem categoria

Da Bahia a Espanha, um castelo em Paraisópolis

Eu ouvi histórias sobre um “graudí brasileiro” há tempos. Eu só não me lembrava que ele morava aqui, em São Paulo mesmo. Talvez tenha sido o resquício do seu sotaque baiano ou a recepção extremamente calorosa de sua esposa, da mesma terra, que me deixaram a impressão que alí não era mesmo Paraisópolis.

Estevão Silva trabalha em um condomínio em Pinheiros. Troca lâmpadas, faz reparos na parte elétrica do prédio e cuida do que mais gosta, o jardim. Quem pede para ele fazer um reparo aqui e ali, não deve imaginar o que ele cria em casa.

É preciso atravessar a marginal, passar pelas mansões de quarteirões inteiros no Morumbi, até chegar ao seu real palácio. A porta de sua casa é pesada, cheia de pedrinhas. Gostoso mesmo é sentar-se à sua mesa da sala de estar. Os pires de diferentes tamanhos, colados no cimento de maneira despreocupada são perfeitos para a ocasional cervejinha com os amigos. “Cabe certinho, veja”, diz Estevão completando “é minha peça favorita da casa”.

Talvez os olhos dos visitantes brilhem pela similaridade de seu trabalho com o do arquiteto Gaudí. Mas eu confesso que os meus ficaram encantados foi com o quarto do casal, repleto de ornamentos coloridos de madeira, recortados e colados na parede verde. Fico pensando, como é possível fechar os olhos e dormir. Mas para que fechá-los se você pode sonhar alto com cada uma das formas em cada canto do quarto?

Pois são as crianças, elas sim, que ficam enlouquecidas nas visitas. Não é para menos, se os ingressos se esgotaram para ver Castelo Ratim Bum no MIS, que façam fila para ver o de Estevão em Paraisópolis!

 

Comente | Categoria(s): arquitetura, arte

O desenho, enfim, com todos e para todos

Em 2013 eu tive a oportunidade de sair um pouco do circuito de design pelas agências. Fui resgatar minha paixão pela arte, entrevistei artistas e curadores, flertei com a antropologia, vi vários documentários e me apaixonei novamente pela fotografia e pelo cinema brasileiro. O design virou minha ferramenta de trabalho e não mais a principal fonte de estudo e pesquisa.

Até que recebi um convite: trabalhar para a Bienal Brasileira de Design. Volto a olhar a palavra, que já começava a soar estrangeira – o design, ou também, o desenho. Para minha surpresa, muda-se um pouco o ângulo, não basta apenas inclinar a cabeça, é necessário mesmo girar o corpo todo.

É um convite para se sentar não apenas na cadeira assinada, mas no banco comunitário da praça. Vamos compartilhar lugares públicos com todos, do idoso à criança, do gordo magro, do baixo ao alto. Um convite a olhar uma outra etiqueta das peças: a do preço. Vamos investigar a acessibilidade também econômica de um bem de consumo. Não só. Convidemos a todos a pensar o uso cotidiano de cada produto criado para melhorar a qualidade de vida de quem os consome.

“Design for Social Change”, “Inclusive Design”, “Open Design”, “Accessible Design”, “Design for the Other 90 per Cent”, “Design for All”. Tantos conceitos para tentar tatear o que parece importante: o desenho para ser inclusivo e não exclusivo; o desenho que é acessível e não inatingível; o desenho que é para todos e com todos – para melhorar nossas vidas.

Observo atentamente as bicicletas compartilhadas, os parklets nas ruas movimentadas, os livros para crianças em fase de alfabetização também em braille e a sinalização de espaços públicos, por exemplo. E sorrio a cada projeto, feito por estudantes pelo Brasil, que ainda vai encontrar a industria para sugerir essa mudança de olhar.

Se você participou/conhece projetos de design implementados dentro dessa proposta curatorial, envie-o para o bbd.curadoria@gmail.com. Não esqueça de falar o nome do projeto e o estado onde foi criado e produzido.

As fotos que ilustram esse post são do projeto Sinalização Noite Branca do Parque, de Ricardo Portilho e Fernando Maculan para a Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, em 2012.

TOP5: exposições em São Paulo

1. Histórias Mestiças – Tomie Ohtake

“Quem mestiçou quem? Como se mistura inclusão com exclusão social? Como se combinam prazer e dominação? Quais são as diferentes histórias escondidas nesses processos de mestiçagem?” – perguntam os curadores Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz.

Histórias Mestiças, no instituto Tomie Ohtake, é imperdível pelo exercício de olhar novamente para a história do Brasil sem sobrepor nenhuma cultura. Das obras destacadas pelos críticos, vale o atual “Nego bom” de Jonathas de Andrade;  mergulhar no ” Em Busca do Sagrado Jiboia Nixi Pae”, de Ernesto Neto; e não perder a sala “Encontros e Desencontros” com a série Marcados, de Claudia Andujar.

Por aqui vou chamar atenção para o trabalho de Ibã Sales Kaxinawa (foto acima), os grafismos indígenas de Lux Vidal e  as cores dos desenhos de Joseca Yanomami.

Instituto Tomie Ohtake – Rua dos Coropés, 88 Pinheiros
De 16/08 a 05/10  - Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 11:00 às 20:00
Entrada gratuita

2. Maneiras de expor: arquitetura expositiva de Lina Bo Bardi – Museu da Casa Brasileira

Quem estuda curadoria, vai sempre adorar a contribuição de Lina Bo Bardi para os estudos de diferentes maneiras de expor. Mas essa exposição me surpreendeu pelas falas, Lina possui uma visão do “popular” e do “povo” questionadora e inspiradora. Sai de lá comprando vários livros sobre ela, em especial “Lina por escrito”, da Cosac Naif, com diversos textos de apresentação da arquiteta sobre seus projetos públicos. Destaque para a série de vídeo-entrevistas com grandes nomes da cultura brasileira prestando homenagem à ela. Um presente essa exposição, obrigada Museu da Casa Brasileira.

Museu da Casa Brasileira (MCB) – Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705
Até 09 de novembro; de terça a domingo das 10h às 18h
R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada); entrada gratuita aos sábados, domingos e feriados

3. Rivane Neuenschwander: mal-entendidos – MAM

Sou suspeita. Eu sou fã da Rivane desde suas parcerias com Cao Guimarães. Feliz com a curadoria de Adriano Pedrosa no MAM que reune trabalhos mais recentes da artista mineira, um desenho de seu filho com o curador alemão Jochen Volz e até uma obra interativa chamada “Monstros Marinhos”, em que o visitante sai presenteado com uma moeda de sal.

Fico feliz ao ver que Rivane não perde sua importante referência brasileira, apesar da estética expositiva quase alemã. As “esculturas involuntárias” (foto acima) que fazemos à mesa do bar estão lá, junto aos banquinhos inspirados no “mobiliário urbano” e popular brasileiro (foto a baixo).

Imperdível é tirar os sapatos e pisar sobre as tábuas da obra “Quem vem lá sou eu / Alarm-Floor “, inspirada nos pisos de madeira que funcionavam como sistema de alarde em antigos templos e palácios japoneses. Ao caminhar pelo piso, acionamos um som de atrito entre latas, copos de plásticos e varas de metal armazenados sob ele. Uma parceria entre o duo de músicos O Grivo e Rivane.

Museu de Arte Moderna de São Paulo - Parque Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3)

De 2 de setembro a 14 de dezembro - Terça a domingo, das 10h às 17h30
Entrada gratuita.

4. Leonilson: Truth, Fiction – Estação Pinacoteca

Há ironia na série de desenhos de Leonilson para o jornal “Folha de S. Paulo” entre 1991 e 1993. O patinho feio diz “eu preciso, eu quero, eu tenho”. Uma fronha aninha a palavra bordada “sozinho”. Seus desenhos miúdos são alta voz para seus pensamentos. Seus delicados bordados aveludam o conflito com a homossexualidade. Na última sala, cadeiras dão corpo às camisas bordadas, minha fase preferida do trabalho de Leonilson. Fica a dica para quem gosta de sua obra, apesar da dificuldade de se expor um trabalho tão minuncioso em pés direitos tão altos como da Estação Pinacoteca.

Estação Pinacoteca – Largo General Osório, 66, Centro, São Paulo
De 09/08 a 09/11 De terça-feira a domingo, das 10 horas às 17h30.
Às quintas-feiras, até 22 horas R$ 6,00, gratuita aos sábados (11) 3335-4990

5. Éder Oliveira na Bienal de São Paulo

Eu não tenho muito à recomendar da Trigésima Primeira Bienal de São Paulo, é verdade. Mas tive o prazer de entrevistar e conhecer o trabalho do artista paraense Éder Oliveira para um Especial Bienal do Espaço Húmus. Em Belém do Pará, ele pinta os muros da cidade com seus homens retirados dos jornais locais. Olhar daltônico e certeiro, Éder denuncia em tons alaranjados o que parece preto no branco. Obrigada por nos mostrar as nunces Éder, sempre fã.

Pavilhão da Bienal Avenida Pedro Álvares Cabral, s/ nº
Portão 3, Parque do Ibirapuera
De 06/09 a 07/12
Terças, Quintas, Sábados e Domingos das 09:00 às 19:00
Quartas e Sextas das 09:00 às 22:00

 

Comente | Categoria(s): arte

Um ser tão inverso, o Agreste fértil

Quem disse que os irmãos Grimm foram os primeiros a passar histórias orais para a escrita, só mesmo o eurocentrismo. Do lado de cá, ainda batemos o pé em pensar mais sobre as lendas brasileiras, como a do Boi-Bumba. Então, por que filmar uma exposição sobre os famosos contos dos irmãos Grimm?

Por conta de uma palavrinha atrelada à ele. Agreste. Grimm Agreste é o nome da exposição no Sesc Interlagos que une as matrizes de J Borges às histórias dos Grimm e suas versões e releituras pelo Brasil. Faz de conta que a casa de João e Maria tivesse um filtro de barro. Que Branca de Neve encontrasse uma casa com 7 anões e um burrinho na porta. Que rapunzel vivesse numa torre alta e no meio do sertão. São esses os contrastes que incitam os visitantes da exposição a contar suas próprias histórias, explica o curador Alvise Camozzi.

Contraste entre dois mundos. O Brasil e a Alemanha. A floresta e o semi árido. O medieval e o sertanejo. Foi assim que Alvise nos explicou sua inspiração para incitar nos visitantes a vontade de contar histórias. Se você busca dois elementos de universos bem diversos e pede para alguém narrar a trajetória entre eles, eis aí o mais belo conto!

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Prosas: O Brasil com S no Estúdio do Morro

Peço licença. Abro espaço aqui para contar um caso e te fazer um convite. Há quase 2 anos realizo junto à Mayra Fonseca um projeto de pesquisa e curadoria chamado O Brasil Com S.

Desses trabalhos autorais que resolvemos tirar da gaveta geralmente num momento de questionamento, sabe? Pois em 2012 minha vida virou do avesso. Sentei para um café com a May e, como brincamos, estamos até hoje a tomar. Com pessoas incríveis. Com histórias. Com afeto.

Nossa missão é estimular o auto conhecimento do Brasil de forma contemporânea. Em outras palavras, a gente quer muito que aquele papo do buteco com os amigos seja sobre, sim, o Brasil. E não só sobre o que falta no país, mas o que te inspira e encanta que não está só nas capas de revistas ou nos livros didáticos. Aquela história de vida da sua avó que você enche o peito de amor pra contar. Aquela comida que só mesmo na feirinha do lado da casa dos seus pais que você encontra os ingredientes e cheiros para cozinhar. Aquela engenhoca incrível que seu primo criava para fazer um brinquedo para correr contigo na rua brincar. Aquele Brasil que está em você, você nem percebe e ele se escreve com S mesmo.

Pois bem. É por aí que eu e Mayra caminhamos. E construímos no endereçowww.obrasilcoms.com.br um arquivo investigativo em imagens, entrevistas, músicas e palavras sobre temas como “Cafuné“, “Gambiarra“, “Cariri“, “Belém do Pará“. Um dos mais recentes lugares pesquisados foi o Morro do Querosene, aqui em São Paulo mesmo, na região do Butantã.

Pesquisando a história do Morro, descobrimos que ali está a história de São Paulo: de encontros. Foi alí que ameríndios e viajantes se encontraram, onde até hoje o Maranhão faz a criança brincar com o boi, a Olinda se faz inspiração para os muros das casas, a Bahia oferece o Caruru para a cozinheira potiguar, o berimbau toca o frevo para os pés se encontrarem. E foi no Morro também que o artista Roni Hirsch encontrou o espaço ideal para sua produção, na casa de um serralheiro e que, hoje, abre a casa-oficina para artistas, designers e criadores que querem fazer o encontro entre a arte e a sociedade: o Estúdio do Morro.

Num papo sobre O Brasil Com S, apresentamos ao Roni nossa Biblioteca Itinerante, composta de 50 títulos sobre cultura e arte brasileira e, comentamos que gostaríamos de deixá-los ali, para a comunidade do Morro. Para nossa surpresa, conseguimos não só um cantinho para abrigar nossos livros de agosto à outubro, mas também encontramos motivo para celebrar!

Dia 03 de agosto, este domingo, convidamos você para uma tarde deliciosa com diversas atividades que inspiram a leitura dos livros. Para conhecer as pessoas e artes do Estúdio. Para se encantar com o ritmo do Morro.

Escolha o trecho de um livro para ler e conversar. Leve uma criança (pode ser a que mora dentro de você) pra soltar pipa. Envie um desejo num lambe-lambe. Descubra o Parque da Fonte. Prove os temperos da comunidade do Morro. Bata o pé na laje, dance ao lado de um sorriso.

Lembre, você só precisa de Tarja Branca!

Prosas – O Brasil Com S no Estúdio do Morro

Quando: Domingo, 03 de agosto / das 13h às 22h
Onde: Estúdio do Morro. Rua Padre Justino, 593, Morro do Querosene - estudiodomorro.com.br
Realização: Estúdio do Morro e O Brasil Com S.

Programação:
13h às 17h - Oficina de pipas para crianças com PipariaDenis Diosanto.
13 às 17h - Oficina de lambe lambes para todos com Roni HirschDerlon AlmeidaDyOlinda.
15h às 17h - Leituras e Conversas com Cecília Pelligrini, Julio Abe e convidados.
13h às 20h - Música brasileira por Fábio Abreu e Juliano Augusto (Birosca)Show de Dinho Nascimento e Convidados.
13h às 22h - Quitutes de Dona Ieda, Fabio Luis Schaberle, Piparia, Dona Marli. Bebes, Cerveja Artesanal Jupiter e Cachaça Yaguara.
13h às 22h - Intervenções artísticas de Paula CondiniPat LoboDerlon AlmeidaIvan Grilo e Roni Hirsch.
20h – Projeção do Filme Documentário Tarja Branca

TARJA BRANCA – trailer from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

Importante: O evento é gratuito. Para comes e bebes, aceitamos apenas dinheiro.
Confirme sua presença pelo email: contato@obrasilcoms.com.br

Legendas:
1. Foto de Ana Luiza Gomes e Mayra Fonseca por Pedro Fonseca.
2. Cantina Benta, projeto do RS.
3. Muro dos Morros do Querosene, por DyOlinda.
4. Biblioteca Itinerante O Brasil Com S, por Ana Luiza Gomes.
5. Convite por Roni Hirsch.

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A arqueóloga e o balneário

Alícia veio me contar sobre os objetos que ela encontra na rua, recolhe em imagens e fotografa em palavras. Uma luva de boxe que servia de travesseiro. Um cigarro mais pra fogo do que pra palha. Uma cd arranhado cujo escrito ainda resiste: revelação. Curiosidades que servem de ferramenta para as narrativas que Alícia escreve sobre esses objetos descartados. Reencontram significado na poesia e ganham nova vida em lambe-lambes pela cidade. Da rua, de volta à rua.

Em sua última expedição, a fotógrafa e artista nos levou junto. Águas da Prata fica há 3 horas de São Paulo, quase na divisa com Minas. Leia-se: o melhor queijo (canastra) que já comprei por bandas paulistanas. Macacos nos galhos da rua. Cheiro de Mato. Água de uma fonte natural para preencher galões. E um incrível balneário abandonado. Sim. Uma piscina pública enorme e sem água que eu não via igual desde a minha última visita ao clube da família em 1994.

Esse é o mais recente objeto encontrado por Alícia e é ele quem recebe seus lambes no FestImagem, primeiro Festival de Imagem e Fotografia da cidade. Acompanhamos da luz do entardecer à lua cheia que cresceu e conversamos com Alícia sobre suas viagens com esse projeto: “Arqueologia do Desejo”. Índia. Nepal. Berlim. Alguns muros nesses locais ainda guardam alguns dos lambes que a artista colou em viagem. E a intervenção do ambiente em cada um deles viraram novas histórias que ela se delicia em contar.

Depois de passar uma noite de muito frio colando um dos lambes, Alícia passou em frente ao muro em que pregou o cartaz para ver como havia ficado. Para sua surpresa, havia uma camada de gelo em cima do papel. Um moça passou para olhar, disse à Alícia “justamente por que estava congelado”. E assim se dá seu trabalho, à intervenção do espaço urbano, cria-se, recria-se. E eu voltei para casa me perguntando: “como estarão hoje seus lambes mergulhados no balneário de Águas?”. A chuva agiu ali. A poeira. As pessoas. O vento. Vai que um dia esse mesmo vento vem me trazer ao pé do chão um pedaço desses lambes de Alícia. Vou ficar de olho.

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ALICE NO PAÍS DE YAYOI KUSAMA

Quando eu soube que uma exposição sobre o maior nome da arte contemporânea japonesa viria ao Brasil, enlouqueci – que nem criança! Acompanhei a trajetória das longas filas até chegar aqui, em São Paulo. E tive de cobrí-la, mas de que forma? Pensamos na velha entrevista com curadores, tentamos uma aproximação com a galeria que a representa no Japão, mas foi me lembrando de onde eu me apaixonei por Yayoi pela primeira vez, que surgiu a ideia!

“Eu, Kusama, sou uma Alice no País das Maravilhas moderna” escreveu a artista no final do livro Alice no País das Maravilhas ilustrado por ela e editado pela Penguin (relançado pela Editora Globo). Um livro que se engole. E te devora. Foi pensando nessa leitura de Kusama, como a Alice de seu país fantástico de bolinhas, que convidei uma pequena e espevitada Alice para nos acompanhar pela exposição para vê-la pelos seus olhos – de criança.

Eu já tinha lido alguns casos de Alice, através dos olhos do pai. Então, fomos munidas de fitas coloridas para ela escolher sua cor favorita e colar a camera no seu capacete. O gravador ficou sob a responsabilidade do Yoda, seu companheiro-mochila. Fui logo coroada a rainha das cores com rolos coloridos na minha cabeça. E depois de alguns minutos, sua mãozinha já agarrou à minha e fomos juntas, ver a exposição.

Criança se entedia rápido e capacete com uma câmera na cabeça enche o saco. Mas Alice não queria nem pensar em sair de algumas salas. “Eu estou dentro de uma obra de arte?” interrogou à mãe. E confessou que quer ser artista para poder fazer um quarto cheio de luzinhas e um chão de água. Perguntou se é de verdade o cenário, se o papel laminado são de ovos de páscoa e se o quarto branco com bolinhas adesivas é uma festa!

Ver uma exposição pelos olhos do outro é uma viagem. Ver a obra de Yayoi é viajar. “Foi aberta a toca do Coelho”, disse Cecilia, nossa escrevedora do Espaço Húmus, e pulamos de cabeça. O tempo nos leva para outra dimensão, outro lugar. “Somos todos loucos aqui!”.

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