O desenho, enfim, com todos e para todos

Em 2013 eu tive a oportunidade de sair um pouco do circuito de design pelas agências. Fui resgatar minha paixão pela arte, entrevistei artistas e curadores, flertei com a antropologia, vi vários documentários e me apaixonei novamente pela fotografia e pelo cinema brasileiro. O design virou minha ferramenta de trabalho e não mais a principal fonte de estudo e pesquisa.

Até que recebi um convite: trabalhar para a Bienal Brasileira de Design. Volto a olhar a palavra, que já começava a soar estrangeira – o design, ou também, o desenho. Para minha surpresa, muda-se um pouco o ângulo, não basta apenas inclinar a cabeça, é necessário mesmo girar o corpo todo.

É um convite para se sentar não apenas na cadeira assinada, mas no banco comunitário da praça. Vamos compartilhar lugares públicos com todos, do idoso à criança, do gordo magro, do baixo ao alto. Um convite a olhar uma outra etiqueta das peças: a do preço. Vamos investigar a acessibilidade também econômica de um bem de consumo. Não só. Convidemos a todos a pensar o uso cotidiano de cada produto criado para melhorar a qualidade de vida de quem os consome.

“Design for Social Change”, “Inclusive Design”, “Open Design”, “Accessible Design”, “Design for the Other 90 per Cent”, “Design for All”. Tantos conceitos para tentar tatear o que parece importante: o desenho para ser inclusivo e não exclusivo; o desenho que é acessível e não inatingível; o desenho que é para todos e com todos – para melhorar nossas vidas.

Observo atentamente as bicicletas compartilhadas, os parklets nas ruas movimentadas, os livros para crianças em fase de alfabetização também em braille e a sinalização de espaços públicos, por exemplo. E sorrio a cada projeto, feito por estudantes pelo Brasil, que ainda vai encontrar a industria para sugerir essa mudança de olhar.

Se você participou/conhece projetos de design implementados dentro dessa proposta curatorial, envie-o para o bbd.curadoria@gmail.com. Não esqueça de falar o nome do projeto e o estado onde foi criado e produzido.

As fotos que ilustram esse post são do projeto Sinalização Noite Branca do Parque, de Ricardo Portilho e Fernando Maculan para a Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, em 2012.

TOP5: exposições em São Paulo

1. Histórias Mestiças – Tomie Ohtake

“Quem mestiçou quem? Como se mistura inclusão com exclusão social? Como se combinam prazer e dominação? Quais são as diferentes histórias escondidas nesses processos de mestiçagem?” – perguntam os curadores Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz.

Histórias Mestiças, no instituto Tomie Ohtake, é imperdível pelo exercício de olhar novamente para a história do Brasil sem sobrepor nenhuma cultura. Das obras destacadas pelos críticos, vale o atual “Nego bom” de Jonathas de Andrade;  mergulhar no ” Em Busca do Sagrado Jiboia Nixi Pae”, de Ernesto Neto; e não perder a sala “Encontros e Desencontros” com a série Marcados, de Claudia Andujar.

Por aqui vou chamar atenção para o trabalho de Ibã Sales Kaxinawa (foto acima), os grafismos indígenas de Lux Vidal e  as cores dos desenhos de Joseca Yanomami.

Instituto Tomie Ohtake – Rua dos Coropés, 88 Pinheiros
De 16/08 a 05/10  - Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 11:00 às 20:00
Entrada gratuita

2. Maneiras de expor: arquitetura expositiva de Lina Bo Bardi – Museu da Casa Brasileira

Quem estuda curadoria, vai sempre adorar a contribuição de Lina Bo Bardi para os estudos de diferentes maneiras de expor. Mas essa exposição me surpreendeu pelas falas, Lina possui uma visão do “popular” e do “povo” questionadora e inspiradora. Sai de lá comprando vários livros sobre ela, em especial “Lina por escrito”, da Cosac Naif, com diversos textos de apresentação da arquiteta sobre seus projetos públicos. Destaque para a série de vídeo-entrevistas com grandes nomes da cultura brasileira prestando homenagem à ela. Um presente essa exposição, obrigada Museu da Casa Brasileira.

Museu da Casa Brasileira (MCB) – Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705
Até 09 de novembro; de terça a domingo das 10h às 18h
R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada); entrada gratuita aos sábados, domingos e feriados

3. Rivane Neuenschwander: mal-entendidos – MAM

Sou suspeita. Eu sou fã da Rivane desde suas parcerias com Cao Guimarães. Feliz com a curadoria de Adriano Pedrosa no MAM que reune trabalhos mais recentes da artista mineira, um desenho de seu filho com o curador alemão Jochen Volz e até uma obra interativa chamada “Monstros Marinhos”, em que o visitante sai presenteado com uma moeda de sal.

Fico feliz ao ver que Rivane não perde sua importante referência brasileira, apesar da estética expositiva quase alemã. As “esculturas involuntárias” (foto acima) que fazemos à mesa do bar estão lá, junto aos banquinhos inspirados no “mobiliário urbano” e popular brasileiro (foto a baixo).

Imperdível é tirar os sapatos e pisar sobre as tábuas da obra “Quem vem lá sou eu / Alarm-Floor “, inspirada nos pisos de madeira que funcionavam como sistema de alarde em antigos templos e palácios japoneses. Ao caminhar pelo piso, acionamos um som de atrito entre latas, copos de plásticos e varas de metal armazenados sob ele. Uma parceria entre o duo de músicos O Grivo e Rivane.

Museu de Arte Moderna de São Paulo - Parque Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3)

De 2 de setembro a 14 de dezembro - Terça a domingo, das 10h às 17h30
Entrada gratuita.

4. Leonilson: Truth, Fiction – Estação Pinacoteca

Há ironia na série de desenhos de Leonilson para o jornal “Folha de S. Paulo” entre 1991 e 1993. O patinho feio diz “eu preciso, eu quero, eu tenho”. Uma fronha aninha a palavra bordada “sozinho”. Seus desenhos miúdos são alta voz para seus pensamentos. Seus delicados bordados aveludam o conflito com a homossexualidade. Na última sala, cadeiras dão corpo às camisas bordadas, minha fase preferida do trabalho de Leonilson. Fica a dica para quem gosta de sua obra, apesar da dificuldade de se expor um trabalho tão minuncioso em pés direitos tão altos como da Estação Pinacoteca.

Estação Pinacoteca – Largo General Osório, 66, Centro, São Paulo
De 09/08 a 09/11 De terça-feira a domingo, das 10 horas às 17h30.
Às quintas-feiras, até 22 horas R$ 6,00, gratuita aos sábados (11) 3335-4990

5. Éder Oliveira na Bienal de São Paulo

Eu não tenho muito à recomendar da Trigésima Primeira Bienal de São Paulo, é verdade. Mas tive o prazer de entrevistar e conhecer o trabalho do artista paraense Éder Oliveira para um Especial Bienal do Espaço Húmus. Em Belém do Pará, ele pinta os muros da cidade com seus homens retirados dos jornais locais. Olhar daltônico e certeiro, Éder denuncia em tons alaranjados o que parece preto no branco. Obrigada por nos mostrar as nunces Éder, sempre fã.

Pavilhão da Bienal Avenida Pedro Álvares Cabral, s/ nº
Portão 3, Parque do Ibirapuera
De 06/09 a 07/12
Terças, Quintas, Sábados e Domingos das 09:00 às 19:00
Quartas e Sextas das 09:00 às 22:00

 

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Um ser tão inverso, o Agreste fértil

Quem disse que os irmãos Grimm foram os primeiros a passar histórias orais para a escrita, só mesmo o eurocentrismo. Do lado de cá, ainda batemos o pé em pensar mais sobre as lendas brasileiras, como a do Boi-Bumba. Então, por que filmar uma exposição sobre os famosos contos dos irmãos Grimm?

Por conta de uma palavrinha atrelada à ele. Agreste. Grimm Agreste é o nome da exposição no Sesc Interlagos que une as matrizes de J Borges às histórias dos Grimm e suas versões e releituras pelo Brasil. Faz de conta que a casa de João e Maria tivesse um filtro de barro. Que Branca de Neve encontrasse uma casa com 7 anões e um burrinho na porta. Que rapunzel vivesse numa torre alta e no meio do sertão. São esses os contrastes que incitam os visitantes da exposição a contar suas próprias histórias, explica o curador Alvise Camozzi.

Contraste entre dois mundos. O Brasil e a Alemanha. A floresta e o semi árido. O medieval e o sertanejo. Foi assim que Alvise nos explicou sua inspiração para incitar nos visitantes a vontade de contar histórias. Se você busca dois elementos de universos bem diversos e pede para alguém narrar a trajetória entre eles, eis aí o mais belo conto!

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Prosas: O Brasil com S no Estúdio do Morro

Peço licença. Abro espaço aqui para contar um caso e te fazer um convite. Há quase 2 anos realizo junto à Mayra Fonseca um projeto de pesquisa e curadoria chamado O Brasil Com S.

Desses trabalhos autorais que resolvemos tirar da gaveta geralmente num momento de questionamento, sabe? Pois em 2012 minha vida virou do avesso. Sentei para um café com a May e, como brincamos, estamos até hoje a tomar. Com pessoas incríveis. Com histórias. Com afeto.

Nossa missão é estimular o auto conhecimento do Brasil de forma contemporânea. Em outras palavras, a gente quer muito que aquele papo do buteco com os amigos seja sobre, sim, o Brasil. E não só sobre o que falta no país, mas o que te inspira e encanta que não está só nas capas de revistas ou nos livros didáticos. Aquela história de vida da sua avó que você enche o peito de amor pra contar. Aquela comida que só mesmo na feirinha do lado da casa dos seus pais que você encontra os ingredientes e cheiros para cozinhar. Aquela engenhoca incrível que seu primo criava para fazer um brinquedo para correr contigo na rua brincar. Aquele Brasil que está em você, você nem percebe e ele se escreve com S mesmo.

Pois bem. É por aí que eu e Mayra caminhamos. E construímos no endereçowww.obrasilcoms.com.br um arquivo investigativo em imagens, entrevistas, músicas e palavras sobre temas como “Cafuné“, “Gambiarra“, “Cariri“, “Belém do Pará“. Um dos mais recentes lugares pesquisados foi o Morro do Querosene, aqui em São Paulo mesmo, na região do Butantã.

Pesquisando a história do Morro, descobrimos que ali está a história de São Paulo: de encontros. Foi alí que ameríndios e viajantes se encontraram, onde até hoje o Maranhão faz a criança brincar com o boi, a Olinda se faz inspiração para os muros das casas, a Bahia oferece o Caruru para a cozinheira potiguar, o berimbau toca o frevo para os pés se encontrarem. E foi no Morro também que o artista Roni Hirsch encontrou o espaço ideal para sua produção, na casa de um serralheiro e que, hoje, abre a casa-oficina para artistas, designers e criadores que querem fazer o encontro entre a arte e a sociedade: o Estúdio do Morro.

Num papo sobre O Brasil Com S, apresentamos ao Roni nossa Biblioteca Itinerante, composta de 50 títulos sobre cultura e arte brasileira e, comentamos que gostaríamos de deixá-los ali, para a comunidade do Morro. Para nossa surpresa, conseguimos não só um cantinho para abrigar nossos livros de agosto à outubro, mas também encontramos motivo para celebrar!

Dia 03 de agosto, este domingo, convidamos você para uma tarde deliciosa com diversas atividades que inspiram a leitura dos livros. Para conhecer as pessoas e artes do Estúdio. Para se encantar com o ritmo do Morro.

Escolha o trecho de um livro para ler e conversar. Leve uma criança (pode ser a que mora dentro de você) pra soltar pipa. Envie um desejo num lambe-lambe. Descubra o Parque da Fonte. Prove os temperos da comunidade do Morro. Bata o pé na laje, dance ao lado de um sorriso.

Lembre, você só precisa de Tarja Branca!

Prosas – O Brasil Com S no Estúdio do Morro

Quando: Domingo, 03 de agosto / das 13h às 22h
Onde: Estúdio do Morro. Rua Padre Justino, 593, Morro do Querosene - estudiodomorro.com.br
Realização: Estúdio do Morro e O Brasil Com S.

Programação:
13h às 17h - Oficina de pipas para crianças com PipariaDenis Diosanto.
13 às 17h - Oficina de lambe lambes para todos com Roni HirschDerlon AlmeidaDyOlinda.
15h às 17h - Leituras e Conversas com Cecília Pelligrini, Julio Abe e convidados.
13h às 20h - Música brasileira por Fábio Abreu e Juliano Augusto (Birosca)Show de Dinho Nascimento e Convidados.
13h às 22h - Quitutes de Dona Ieda, Fabio Luis Schaberle, Piparia, Dona Marli. Bebes, Cerveja Artesanal Jupiter e Cachaça Yaguara.
13h às 22h - Intervenções artísticas de Paula CondiniPat LoboDerlon AlmeidaIvan Grilo e Roni Hirsch.
20h – Projeção do Filme Documentário Tarja Branca

TARJA BRANCA – trailer from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

Importante: O evento é gratuito. Para comes e bebes, aceitamos apenas dinheiro.
Confirme sua presença pelo email: contato@obrasilcoms.com.br

Legendas:
1. Foto de Ana Luiza Gomes e Mayra Fonseca por Pedro Fonseca.
2. Cantina Benta, projeto do RS.
3. Muro dos Morros do Querosene, por DyOlinda.
4. Biblioteca Itinerante O Brasil Com S, por Ana Luiza Gomes.
5. Convite por Roni Hirsch.

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A arqueóloga e o balneário

Alícia veio me contar sobre os objetos que ela encontra na rua, recolhe em imagens e fotografa em palavras. Uma luva de boxe que servia de travesseiro. Um cigarro mais pra fogo do que pra palha. Uma cd arranhado cujo escrito ainda resiste: revelação. Curiosidades que servem de ferramenta para as narrativas que Alícia escreve sobre esses objetos descartados. Reencontram significado na poesia e ganham nova vida em lambe-lambes pela cidade. Da rua, de volta à rua.

Em sua última expedição, a fotógrafa e artista nos levou junto. Águas da Prata fica há 3 horas de São Paulo, quase na divisa com Minas. Leia-se: o melhor queijo (canastra) que já comprei por bandas paulistanas. Macacos nos galhos da rua. Cheiro de Mato. Água de uma fonte natural para preencher galões. E um incrível balneário abandonado. Sim. Uma piscina pública enorme e sem água que eu não via igual desde a minha última visita ao clube da família em 1994.

Esse é o mais recente objeto encontrado por Alícia e é ele quem recebe seus lambes no FestImagem, primeiro Festival de Imagem e Fotografia da cidade. Acompanhamos da luz do entardecer à lua cheia que cresceu e conversamos com Alícia sobre suas viagens com esse projeto: “Arqueologia do Desejo”. Índia. Nepal. Berlim. Alguns muros nesses locais ainda guardam alguns dos lambes que a artista colou em viagem. E a intervenção do ambiente em cada um deles viraram novas histórias que ela se delicia em contar.

Depois de passar uma noite de muito frio colando um dos lambes, Alícia passou em frente ao muro em que pregou o cartaz para ver como havia ficado. Para sua surpresa, havia uma camada de gelo em cima do papel. Um moça passou para olhar, disse à Alícia “justamente por que estava congelado”. E assim se dá seu trabalho, à intervenção do espaço urbano, cria-se, recria-se. E eu voltei para casa me perguntando: “como estarão hoje seus lambes mergulhados no balneário de Águas?”. A chuva agiu ali. A poeira. As pessoas. O vento. Vai que um dia esse mesmo vento vem me trazer ao pé do chão um pedaço desses lambes de Alícia. Vou ficar de olho.

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ALICE NO PAÍS DE YAYOI KUSAMA

Quando eu soube que uma exposição sobre o maior nome da arte contemporânea japonesa viria ao Brasil, enlouqueci – que nem criança! Acompanhei a trajetória das longas filas até chegar aqui, em São Paulo. E tive de cobrí-la, mas de que forma? Pensamos na velha entrevista com curadores, tentamos uma aproximação com a galeria que a representa no Japão, mas foi me lembrando de onde eu me apaixonei por Yayoi pela primeira vez, que surgiu a ideia!

“Eu, Kusama, sou uma Alice no País das Maravilhas moderna” escreveu a artista no final do livro Alice no País das Maravilhas ilustrado por ela e editado pela Penguin (relançado pela Editora Globo). Um livro que se engole. E te devora. Foi pensando nessa leitura de Kusama, como a Alice de seu país fantástico de bolinhas, que convidei uma pequena e espevitada Alice para nos acompanhar pela exposição para vê-la pelos seus olhos – de criança.

Eu já tinha lido alguns casos de Alice, através dos olhos do pai. Então, fomos munidas de fitas coloridas para ela escolher sua cor favorita e colar a camera no seu capacete. O gravador ficou sob a responsabilidade do Yoda, seu companheiro-mochila. Fui logo coroada a rainha das cores com rolos coloridos na minha cabeça. E depois de alguns minutos, sua mãozinha já agarrou à minha e fomos juntas, ver a exposição.

Criança se entedia rápido e capacete com uma câmera na cabeça enche o saco. Mas Alice não queria nem pensar em sair de algumas salas. “Eu estou dentro de uma obra de arte?” interrogou à mãe. E confessou que quer ser artista para poder fazer um quarto cheio de luzinhas e um chão de água. Perguntou se é de verdade o cenário, se o papel laminado são de ovos de páscoa e se o quarto branco com bolinhas adesivas é uma festa!

Ver uma exposição pelos olhos do outro é uma viagem. Ver a obra de Yayoi é viajar. “Foi aberta a toca do Coelho”, disse Cecilia, nossa escrevedora do Espaço Húmus, e pulamos de cabeça. O tempo nos leva para outra dimensão, outro lugar. “Somos todos loucos aqui!”.

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Mariana e seus óculos de gatinho

Sempre observei com cuidado a paixão entre pai e filha. Aquela admiração de fazer brilhar os olhos. Foi o que encontrei quando conheci a Mariana. Filha de cearense. Filha de artista. Filha de um homem inspirador. É com gosto que ela abre um dos livros da sua biblioteca e me mostra um dos títulos herdados do pai sobre a cultura africana.É para ele que Mariana cria seus diplomas. Não precisava de todos aqueles certificados – pensava ela sobre a não educação formal do pai; poderia inventar vários, se assim desejava Aldemir Martins (sim, o artista conhecido popularmente por suas famosas pinturas de gatinhos).

Seu pai era mestre, doutor, phd em sabedoria. De vida. Ao me falar do pai artista, ela ajusta seus óculos de gatinho e me relata que vivia a tomar café da manhã brasileiro, almoçar japonês e jantar mexicano. Do banquete ao pão na chapa. Das mais diferentes comidas às mais interessantes companhias. Vejo, como um filme, um entra e sai de pessoas de todo mundo, reunidas em sua casa, pela arte e para a arte.

E assim nasceu todo seu trabalho artístico. De um quadro se comprou uma casa. Da casa se fez uma galeria. Da galeria se fizeram muitos quadros. Dos quadros se fizeram artistas. Da arte se fez sustento. Do sustento se fez vida. Assim nasceu a Choque Cultural, da qual Mariana Martins é fundadora junto ao marido, Baixo Ribeiro. Não poderia ter outro nome. Do Cariri à São Paulo. De São Paulo ao mundo. Da rua à casa. Da parede branca à arte urbana. A Choque ocupa a cultura como lugar de todos. Convida a ver com outros olhos o grafite, o gráfico, a grafia. Colore o cubo branco. Enche a parede de diplomas. E se arrisca a reinventar o mercado de arte.

Posso conversar horas a fio com Mariana, sobre seus projetos educativos na nova habitação da Choque no centro de São Paulo, sobre sua coleção de óculos de gatinho, sobre sua vontade de mudar o mundo em torno da arte e agregar pessoas, sobre sua relação com a música e seu papel como mãe de artista. Encontro ali uma voz, feminina, muito forte. De quem vive do que e para quem ama. Apaixonada. Apaixonante. Acabo a encontrando num bar esses dias e ela me recebe com uma piada sobre minha mineirice. Abraça, observa, ri. Conto do seu vídeo e ela se confessa curiosa. Espie Mari, você fala coisas importantes. E eu fico muito feliz em poder captar sua voz, que ela ecoe:

 

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Ao tom de Marcelo Amorim

No começo das minhas pesquisas de artistas brasileiros, encontrei o trabalho do goiâno Marcelo Amorim chamado “Educação para o Amor”, uma série de pinturas feitas de um material encontrado em  sebo. Um slideshow sobre educação sexual da década de setenta, um manual do que seria uma relação afetiva e de amor através de imagens de mães abraçando carinhosamente seus filhos e casais namorando nos cenários mais estereotipados possíveis.

Retiradas do livro empoeirado, as fotos foram projetadas em sua sala escura e pintadas com a tinta a óleo (presente de sua mãe quando ainda era pequeno). Marcelo assim fez, apagou a nitidez da imagem e realçou suas nuances.

Já no início ele declara: “a arte que mais me interessa, é aquela em que as questões políticas não ficam pronunciadas”. Marcelo apenas as sugere. Com seus tons pasteis, quase desaparecidos na tela, revela muito: os papeis que a mulher e o homem representam em cada imagem montada, o ideal da família perfeita na composição e nos sorrisos de cada slide.

É assim seu processo criativo: garimpando no passado o que é tão presente, tão relevante, mas que já está pré-estabelecido e, portanto, quase esquecido. Para isso o artista desloca. O que era um material para ensinar ao aluno a como se portar na escola, virou a série de pinturas “Iniciação”; o que é um manual de como desenhar figuras humanas infantis, se transformou em traços da série “Como desenhar crianças”; o que eram fotos de aniversários de sua família quando pequeno, com todas as crianças em volta do bolo e vários sonhos de valsa na mesa, são os detalhes recortados da série “Sonho de Valsa”.

Marcelo pinta, desenha, fotografa, mas, para ele, técnicas não são para se dominar e sim questionar. “Se o fotógrafo vai a guerra, a culpa é da guerra. Mas se um pintor faz uma imagem horrível, a culpa é do pintor. A impressão é que a pintura é criada, inventada, enquanto a fotografia se detém a realidade” indaga o artista enquanto pendura os quadros quase brancos por cima da parede branca e nos ensina a olhar, de perto, o que ali era apenas imagem, mas agora é arte.

Passar a tarde na casa FONTE, ateliê que Marcelo divive com artistas como Nino Cais na Vila Madalena é ouvir o latido da cadela Cintura, esquentar as mãos num café em xícara esmaltada e beliscar um bolo-pudim delicioso que alguém trouxe para a mesa. É navegar por todos os garimpos que eles fazem, tanto dos móveis, quanto dos livros. É compartilhar as risadas e trocar críticas dos trabalhos.

“Marcelo, muda de foto” disse o Nino para um de seus trabalhos. Marcelo muda de foto, mas continua seus auto retratos. Foi assim que ele começou. Com as fotos da família. Com as suas fotos de criança. A repensar sua própria memória, na tentativa de buscar quando ele próprio começou a internalizar todos os preconceitos, todas as regras institucionalizadas. A questionar a sua auto vigilância. A ser menos imagem e mais nuance. A ser.

Imagens:

Série “Educação para o Amor”, 2009
Série “Sonho de Valsa”, 2008
Série “Como desenhar Crianças”, 2013
Série “Iniciação”, 2010
Marcelo Amorim, por Amália Coccia
Marcelo Amorim, por Amália Coccia

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BIBLIOTECA ITINERANTE O BRASIL COM S

“Biblioteca é mais que coleção de livros, senhor dicionário. É porta, é janela, é por onde a luz bate e não parte mais. Abre-se um livro e o nariz queima com a poeira do sertão, afoga com a ressaca do mar. Ressaca pode ser nos olhos, Capitu, mas pode também ser a da costura, do fio que toca no pano de Leonilson. Biblioteca é terra quase mística, terra de ninguém e todos. Haroldo de Campos e suas palavras de galáxia ombro a ombro com os malandros de Roberto DaMatta.

E biblioteca, senhor dicionário, não precisar ficar parada não. Ela pode andar e voar por aí. O Brasil com S costura pezinhos e asas nos livros de seu acervo de pesquisa e os leva para passear com o projeto Biblioteca Itinerante.

Ana Luiza Gomes e a Mayra Fonseca tiveram uma brilhante ideia: Se folhear os livros em suas pesquisas dava tanto prazer e conhecimento, porque não levar o acervo para lugares onde as pessoas também pudessem desfrutar deles?

E a primeira parada da Biblioteca Itinerante não podia ser mais brasileira. Roda cadeira pra lá, ao som da tesoura, chuva de cabelo no chão do salão Retrozaria. O dono, Charles, já é ele próprio um pesquisador desse Brasil imensidão. Conhece lugar que não está livro, podia ser ele um livros de lugares. Então, como é dele, como é do brasileiro, abriga. Nas prateleiras brancas de seu salão a Biblioteca Itinerante aporta.

Para consultar os livros, é só ligar e marcar uma visita. Sente-se, leia, corte o cabelo. Guardando os livros e fazendo com que eles sosseguem um pouco, 4 vasinhos de barro suculentas brasileiras, criações de Marina Coutinho em seu projeto DaHorta. Que gostoso, é Brasil em toda parte, é Brasil de toda a natureza.

São Paulo – e logo menos outros lugares – ganha uma biblioteca voadora, itinerante, migratória. Como pássaros os livros vão fazer ninho onde possam ser vistos, manuseados, lidos, queridos. Como todos os livros devem ser.”

Charles Motta, Ana Luiza Gomes, Mayra Fonseca e Marina Coutinho.

O Brasil Com S, meu projeto com Mayra Fonseca, busca estimular o autoconhecimento do Brasil. Por isso, um dos nossos objetivos é levar nossas pesquisas para além do nosso site, para ações como a que inauguramos hoje: nossa Biblioteca Itinerante. São cerca de 40 títulos que garimpamos em nossas pesquisas disponíveis para leitura em cafés, espaços culturais, galerias, espaços de trabalho compartilhados, etc. O primeiro local a nos receber é o salão de Charles Motta, na Al. Itu, 1079. Até junho você poderá ir lá e consultar os livros e aproveitar para ouvir os vinis deliciosos de música brasileira do Charles e puxá-lo para uma prosa sobre lugares que você desconhece no Brasil. Para saber mais, clica lá: obrasilcoms.com.br/biblioteca-itinerante

Quem escreve esse belo texto-presente para nosso projeto é a escritora Cecília Garcia. Obrigado Ceci, por todo carinho. Obrigado a todos que abraçam e abrigam O Brasil Com S <3

 

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Rumo ao décimo endereço

Pequenas notas sobre a busca de um lugar para chamar de meu.

- Oi, desculpe incomodar a Senhora, mas estou procurando apto para alugar e eu amo esse prédio. Amo justamente pelas flores da escada. Passo aqui e sorrio sempre!
- Menina, não é aquela árvore ali nunca tinha dado flores. Anos sem flores. Mas ai essa semana surgiu. Eu já ia desistir porque a prefeitura fica no meu pé com essa árvore…mas olha só que lindeza.
- De fato. Linda. Mas se a senhora cuida com carinho, uma hora dá flores.
- Flores atraem meninas lindas como você, por aqui, procurando apto. Adoraria que você morasse aqui com a gente.

Ruborizo. Eu também Dona Mirra, a síndica mais doce num amargo mundo imobiliário. Uma hora dá flores.

- Olá, estou procurando aptos para alugar na região e adorei esse prédio, você sabe se existe algum para alugar?
- Olá! Entre, fique a vontade. Aqui eu moro em dois, que comprei e fiz um duplex. Do outro lado já tem donos também que moram lá. O que você busca? Tenho uma amiga que mora num vila e sabe de uma casa, deixa eu pegar o contato dela. Entrem, vejam o apto, sentem-se aqui.
- Poxa, que apto lindo o seu e não se escuta um barulho de carros na rua. Quantos quadros incríveis, quantas obras, são de amigos seus?
- Sim, dou aula de inglês para vários artistas. Você conhece a Cinthia Marcelle?
- Sim, eu trabalho num site que faz perfil de jovens artistas brasileiros, conheço bem o trabalho dela.
- Pois é, tem vários artistas como ela aqui.
- Acho que não encontrei meu apto ainda, mas já fiz um amigo, ehm? Vamos trocar figurinhas.
- Sim, me ache no facebook, vou ver com minha amiga sobre aptos para você!

Na saída, notei, nasciam rosas brancas na porta de entrada.

Era uma vez uma mulher que morava em Paris com o marido e dois filhos. Todo dia ela passava na frente de uma casa linda e se perguntava quem morava ali. Um belo dia, decidiu deixar um recado. “olá, passo aqui todo dia e gostaria de saber se alguém mora aqui. Gosto muito dessa casa e gostaria de alugar”. No mesmo dia recebeu uma ligação. Uma velhinha morava ali, estava com câncer e se arriscou a fazer uma proposta à mulher. “Cuide de mim que eu passo essa casa para o seu nome quando eu morrer”. Se mudou com os maridos e filhos e cuidou da velhinha dois anos. Herdou sua casa em Paris.

Das coisas que escuto na minha busca por uma casa.

- ei mãe, conseguiu descansar?
- filha, andei a tarde toda olhando apartamentos para você!
- nossa mãe, nesse calor?!
- menina, conheci uma senhorinha, tipo Dona Elda (melhor vizinha que ja tive na vida, doceira tocava piano todos os sabados e me levava pastel frito no meio da tarde de domingo). Ela tava alugando um apto enorme, disse que faz desconto pra gente!
- uau mãe! Mas deve ser caro entao ne? Enorme…
- tô de olho em um predinho, que não tinha porteiro, mas eu vi um pedreiro saindo e logo percebi que ele devia ta fazendo uma reforma ali, fiquei conversando com ele…me passou o nome da proprietaria! Vamos ligar amanha?

(filha de peixe, peixinho é)

3 Comentários | Categoria(s): leituras

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