Fratura Exposta (Profissional)

Vai me dizer que você não escutou ainda de algum amigo quando reclamou das horas extras que fez no trabalho: “você têm que fazer o que ama!”. Quem largou o emprego chato e foi buscar trabalhar “com o que ama” é o novo modelo de felicidade completa!

Eu conheço alguns e comprovo, nunca os vi tão felizes (e enriquecendo). Já outros, com seus empregos enfadonhos, estão desesperados em busca de um encontro com esse tal amante chamado trabalho. Se enfiam em leituras, se aventuram em freelas malucos, começam a fazer cursos de tudo que é diferente, ou seja, se arriscam em vários blind dates. O restante até trabalha com o que gosta e, por isso mesmo, vive o sufoco da rotina aniquilando seus corações – e bolsos –, do hobby à profissão, do amante à esposa, da paixão ao peso de um compromisso eterno.

Já passei por vários destes estágios e não, definitivamente, não estou enriquecendo (ainda, rs). Já li alguns bons livros sobre, inclusive a bola da vez The School of Life, “Como encontrar o emprego da sua vida”. E digo, o autor, Roman Krznaric, me vendeu direitinho o príncipe no cavalo branco: a vocação em encontro com as necessidades do mundo. Terminei o livro com a sensação de ter lido algum clássico da Disney. Romance, aventuras, encontros, desencontros e uma pitada de mágica com destino! Esse amor profissional promete mais que qualquer aliança.

A melhor leitura com certeza foi um livro sobre arte contemporânea chamado “Are you working too much?”. Uma coletânea de textos críticos do e-flux (que você tem acesso de graça aqui) que eu li nas férias de 2011! Entre uma análise sobre a crise dos modelos tradicionais de emprego, estudos sobre a vida profissional de um artista contemporâneo e debates sobre o tal “trabalho imaterial”; pontuar as novas questões do comportamento e do mundo, na minha visão, sempre é bem mais incrível pela arte. Eu já indiquei a leitura aqui no blog de dois desses artigos, um do Boris Groys e outro do amado Diedrich Diederichsen.

Depois destas leituras, de fazer cursos – vários inúteis e alguns excelentes – depois de tentar, em vão, tornar este blog em algo rentável, depois de tentar me reiventar num cargo novo dentro do meu próprio emprego, não, eu não tenho a resposta. Eu sou a própria fratura exposta profissional. O que eu aprendi, como todos em busca de seu grande amor, é que a busca é bem interessante e válida. Ao invés de só reclamar que o trabalho te cansa, ele vira algo mais dinâmico, vivo, cheio de histórias e até divertido algumas vezes.

De todas essas tentativas, confesso que a mais importante tenha sido esta: quando começo um projeto novo, eu sempre parto de algum ponto muito pessoal. Seja a perda da minha avó para fazer o #vovomeinspira ou a minha inquietação sobre o meu próprio país para pesquisar #obrasilcoms. Eu canalizo todos os meus questionamentos e os transformo em projetos como um recurso para pensar a vida. E compartilhar tudo isso é das formas mais belas de se aprender.

Vai ver esse amante chamado emprego não esteja muito distante de um encantamento pela própria vida, por um dia a dia que merece ser muito mais que um trabalho pesado, por uma vida mais leve em que os amores se confundam, em que esse profissional e pessoal sejam eternos namorados.

*Para quem não conhece o “Fratura Exposta” do blog amado Don’t Touch, descubra! E confira alguns projetos interessantes sobre o tema no site da Contente.


5 Comentários | Categoria(s): leituras

Related Posts with Thumbnails

5 Comentários

  1. pedro pinho disse:

    coragem pra falar a verdade.
    te admiro por ir além do blábláblá!

  2. Marina disse:

    Olá, tudo bem? Li esse texto e queria te apresentar o blog que tenho com uma amiga. Somos de BH e lançamos o Agora Sim! ano passado, para contar histórias de pessoas que trocaram de profissão e, hoje, são felizes e realizadas. Dê uma olhada! Brigada e parabéns pelo texto.

  3. [...] O emprego dos sonhos é o novo príncipe encantado [...]