arte
#WEJUMP…por Ana Luiza Pereira

Quando minha mãe fez sua primeira viagem internacional, ela me levou a tiracolo. Veja bem, minha mãe é sempre boa companhia em viagens: ela adora ir a todos os museus e experimentar todo tipo de comida.
Para mostrar seu espírito aventureiro nas fotos, eu tive uma ideia. Fiz minha mãe pular em várias delas! Ela morria de rir e, click!, saia natural e feliz nas fotos sem pose ;] Foi pensando nisto que criei o #wejump, hashtag para colecionar pulos ao redor do mundo.
Os meus jumps serão focados em arte. Acontece que eu e Anita, nossa colaboradora de música, vamos registrar nossas visitas a exposições assim: dando pulos de alegria dentro dos museus! Já arriscamos alguns saltos mirabolantes na Pinacoteca, no CCBB, na Galeria Fortes Villaça…
E nosso plano é que você nos ajude a fazer este banco de exposições ao redor do Brasil – e do Mundo! Basta escrever #wejump na sua foto e postar o nome da exposição e local.
A ideia é ocupar o museu de outra forma, mais descontraída e leve. Afinal, é assim que eu me sinto ao entrar em um: em casa. E é essa a sensação que eu tenho ao ver arte: pulando de alegria!

A exposição desta semana é a do chinês Cai Gui-Qiang. “Da Vincis do povo” está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Na sua primeira individual no Brasil, Cai reune invenções desenvolvidas em parceria com agricultores e trabalhadores chineses com aviões e disco voadores do lado de fora do prédio, pipas flutando e muitos robôs feitos artesanalmente. A paixão do artista pelo trabalho manual o fez colecionar Leonardos Da Vincis ao redor de seu país e montar este trabalho na busca por uma valorização da individualidade do povo chinês através das suas invenções:
“Somente a criatividade individual pode trazer um real desenvolvimento social. Através destas invenções, nós podemos ver que as histórias de fracassos, sucessos e de coragem destes trabalhadores rurais são reais”.
Quanto a temática constante de olhar para o céu e sobrevoar a realidade chinesa do dia a dia de concreto ou terra dos agricultores, Cai explica: “A computação é uma forma de liberar as pessoas de sua circunstância gravitacional e um jeito de dar a elas uma liberdade maior de pensamento. O mundo virtual é desconhecido e o homem gosta de explorar o desconhecido”.

Para ler mais sobre a exposição: http://oglobo.globo.com/cultura/artista-plastico-chines-cai-guo-qiang-expoe-no-brasil-obras-feitas-com-camponeses-de-seu-pais-7349387
Para ler mais sobre o artista: http://www.caiguoqiang.com/pdf/interviews/Blowing_Up_His_Time-GermanoCelant.pdf

“Da Vincis do povo”
Até 23 de junho de 2013
No Centro Cultural Banco do Brasil
Marina Abramovic The Star



Um documentário bem incrível sobre a vida e obra de Marina Abramovic <3 Dica do Cláudio Silvano.
Piseagrama
Atlas Ambulante from piseagrama on Vimeo.
Varais from piseagrama on Vimeo.
Você conhece a publicação PISEAGRAMA? Sobre Espaços Públicos: existentes, urgentes, imaginários. PISEAGRAMA é uma das quatro revistas selecionadas pelo Edital Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura em 2010. De periodicidade bimestral e tiragem de 10.000 exemplares, é distribuída gratuitamente em mais de 30 cidades de todo o Brasil. Feita pelo Instituto Cidades Criativas editada por Fernanda Regaldo, Renata Marquez, Roberto Andrés e Wellington Cançado.

Entrevista do jornalista Daniel Toledo com o editor da publicação Roberto Andrés:
Arquiteto e mestre em arquitetura pela UFMG, Roberto Andrés é editor da revista “Piseagrama”, ao lado de Fernanda Regaldo, Renata Marquez e Wellington Cançado. Viabilizada pelo programa Cultura e Pensamento, do Ministério da Cultura, a revista dedica-se às relações entre arte, arquitetura e política e será lançada hoje, em um piquenique realizado ao ar livre na rua Sapucaí.
Vocês descrevem a revista “Piseagrama” como uma plataforma de investigação das possibilidades de compartilhar, imaginar e produzir as cidades. Quais foram as principais motivações para a criação de uma revista dedicada a essas questões?
A motivação inicial foi certamente a situação do espaço público nas cidades contemporâneas brasileiras. Todos nós temos esse incômodo com a transformação dos espaços públicos em meras conexões entre lugares privados, com esse esgarçamento da ideia do que é compartilhar uma cidade. Acreditamos que o que é público deve ser usado, e não deixado de lado. Aliás, vem daí o nome da revista. A grama deve ser usada, assim como os parques. Essa obsessão sobre não poder pisar na grama, por exemplo, eu nunca vi em outro lugar. Construímos nossa noção de urbanidade a partir de várias influências, dentre as quais os shoppings norte-americanos e os parques europeus, mas parece que alguma coisa se perdeu no caminho e acabamos criando uma maneira muito curiosa de lidar com a natureza dentro da cidade.
A revista tem uma interdisciplinaridade muito grande, abordando a vida urbana a partir de diversas perspectivas. Como você define o escopo atual da revista?
Para começar, cada um de nós vem de formações e experiências diferentes, que perpassam campos como artes, arquitetura, geografia e ciência política. Nesse sentido, é muito natural que a revista tenha essa característica multidisciplinar. Por outro lado, há interesses muito claros e muito compartilhados entre nós. Um deles é pensar a arte a partir das questões do mundo, e não em sua relação com a história da arte. Queremos lidar com as questões do mundo, e a arte é um de alguns campos que elegemos para fazer isso. Compartilhamos, para além disso, uma perspectiva política bem clara, que conduz a revista e corresponde à ideia de estimular a ocupação do espaço público.
“Acesso” é o tema do primeiro número da revista. A partir de que perspectivas o tema é abordado?
Nossa ideia inicial era tratar de mobilidade urbana, ou seja, de acesso à cidade. Como deve acontecer em todas as edições, trouxemos várias perspectivas sobre o tema, expandindo a discussão para o acesso à moradia, à internet, à informação etc. Entre os textos selecionados para o primeiro número, há quatro artigos sobre artistas que exploram esse tipo de questão, dentre os quais uma fotógrafa basca que, subvertendo fatos urbanos, criou um ensaio a partir de um engarrafamento de 200 carros. Há ainda artigos mais políticos e relacionados à gestão urbana, que remetem a cidades como Bogotá, a qual passou recentemente por uma grande transformação. Nesse mesmo sentido, há um artigo inédito escrito pelo Lúcio Gregório, que foi secretário de Transportes da Luiza Erundina (em São Paulo) e propôs, na época, um sistema de transporte público que fosse pago indiretamente, como é o caso do lixo e da iluminação pública. Ao longo do artigo, ele tenta pensar na revolução que seria locomover-se “de graça”, apresentando, inclusive, exemplos de cidades onde isso acontece.
A revista vai ser lançada durante um piquenique urbano idealizado pelo Wellington Cançado, que também é editor. De que modo esse evento se relaciona com a proposta editorial da revista?
Em primeiro lugar, o piquenique acontece na rua (Sapucaí, em Santa Tereza, a partir das 12h), o que já tem tudo a ver com a nossa proposta. Ele é colocado como possibilidade de usufruir, ainda que por tempo restrito, de um espaço destinado aos carros. Esse espaço vai ser coberto por 250 metros de grama, permitindo que as pessoas se sentem, estendam suas toalhas e experimentem a sensação de pisar na grama, de estar ali, num espaço público. Além do lançamento da revista e da sua distribuição gratuita, haverá feirinha de arte, artesanato e design. Tudo ao ar livre.
Nos últimos tempos, temos vivido em Belo Horizonte uma série de polêmicas e debates relacionados à regulação e à ocupação do espaço público. Como você analisa esse momento?
Acho que a cidade passa por um momento muito simpático para o lançamento da revista, com eventos como o Carnaval de rua e a Praia da Estação. Por outro lado, toda essa movimentação tem um lado muito curioso: quando o governo local se torna mais conservador, mais pesado e fechado para o diálogo, alguns grupos acabam avançando na sua maneira de se organizar e se contrapor a esse governo. É ótimo que isso esteja acontecendo, mas seria importante que essas ações se expandissem, se consolidassem e deixassem de funcionar como reações – o que, aliás, já vem acontecendo em alguns casos. É muito bom ver o centro sendo reocupado por eventos como o Duelo de Mcs e espaços como o Nelson Bordello e a sede do Espanca!, entre outros. Espero que a “Piseagrama” surja como mais uma força nessa mesma direção.
De que maneiras você acredita que a revista pode contribuir para novas culturas urbanas?
Algo que a revista realmente pode fazer é expandir a imaginação das pessoas, pois as práticas de gestão e ocupação estão sempre ligadas àquilo que a gente conhece. O nosso tema são as cidades brasileiras e as questões que afetam essas cidades. Para tratar disso, é interessante investigar o que acontece aqui e também em outras cidades e países, investigar de que maneira algumas cidades estão tirando os carros das ruas, abrindo espaço para o transporte público e as bicicletas, por exemplo. Queremos oferecer sempre uma geografia diversa de colaboradores, para que a coisa não seja local e, ao mesmo tempo, não seja subserviente, como se só aquilo que vem de fora fosse válido. Esse número traz, por exemplo, o artigo de um arquiteto sueco que veio morar em Belo Horizonte durante três meses. Nesse artigo, ele reflete sobre a questão da mobilidade por aqui, a qual realmente aparece como um problema. Enquanto na cidade dele há um mapa que organiza todo o sistema de transporte, com trem, metrô e barco, aqui em Belo Horizonte não existe sequer um mapa com todas as linhas de ônibus.
Por fim, qual é a sua visão sobre o lugar da arquitetura e dos arquitetos em meio a essa discussão sobre a ocupação dos espaços da cidade?
Talvez seja um bom momento para que os arquitetos voltem-se menos para a construção e mais para o pensamento, para a invenção de novos modos de usar aquilo que já está construído. Evidência disso é um estudo realizado por um colega meu, o qual revelou que, para suprir a demanda de moradia, não é necessária a construção de mais nenhuma casa. Por meio desse estudo, concluiu-se que o número de imóveis vazios praticamente corresponde ao número de pessoas que não tem imóveis. Sendo assim, os estudantes de arquitetura, que geralmente ficam muito voltados à construção, poderiam se voltar mais a como usar, como subverter e reorganizar os espaços atuais. Em muitos casos, a construção acaba sendo uma possibilidade pouco transformadora e pouco propositiva quando comparada a outras possibilidades de atuação.
PAULO NAZARETH









O artista mineiro Paulo Nazareth:
Quando nasci o Anjo torto
O mesmo que disse ao Carlos para ser gauche na vida
Agora com artigo definido por ter ganhado fama, após o poema
E de volta dos Estados Unidos da América
Disse-me: seja lifte in dê laife minino !
Vendo que eu não entendia repetiu em um bom francês: Etê vu gôche an la vie menino!
Continuei sem entender a língua estranha de um Anjo viajeiro .
Até que qu’ele disse em língua caseira : seja torto, ande pelos caminhos tortos , seja peralta , seja malandro , sobreviva na vida menino…
Faça arte se possível!
Fazer arte na vida seria coisa difícil, para alguém nascido em uma cidade mineira que não faz parte das tradicionais cidades barrocas e longe do Belo Horizonte de Guignard. O que resta para esse alguém é fazer arte à maneira interiorana, como construir brinquedos com restos de madeira,frutos secos e sementes ou por fogo nesses mesmos restos e ver o fogo desenhar sombras em uma parede ou muro mais próximo.
Arte também era o que faziam alguns senhores ao consertarem ou tentarem consertar um aparelho eletrodoméstico sem o manual de instruções ou a cartilha do Instituto Brasileiro de Ensino a Distancia. E também ao converterem um radinho de pilha à energia elétrica , mesmo que este corresse o risco de se tornar uma bomba caseira, somente para economizarem uns trocados.
Os artistas outras vezes eram os loucos que caminhavam na cidade realizando suas mais excêntrica ações- performances que deixavam desconsertados qualquer um que se julgasse “normal”. A policia designada para manter a ordem publica, evitando maiores trabalhos nunca se intrometia com os ditos artistas, para os quais existiam uma força especial que eram os psiquiatras de Barbacena.
Existiam também outros performances, como O homem com um enorme saco que o transformava em um ser lendário comedor de crianças. Outros,simplesmente por serem” feios”, povoavam o infantil e abominável mundo das bestas como por exemplo: O homem que capava meninos, retirando-lhes os testículos ou as vezes o pênis por inteiro. Outros artistas decidiam por ações um pouco mais sofisticadas, acreditavam no direito de ir e vir e saiam rumo as fronteiras das Américas , levavam a sério o lema da independência dos Estados Unidos : “A América para os americanos” . E como bons artistas americanos não respeitavam imposições de outros americanos e inventaram e continuam a inventar inúmeras maneiras de fazer valer os direitos de ir e vir. É neste contexto que sigo os conselhos de um anjo brasileiro, de asas quebradas,remendadas e encardidas que me diz que somos todos um bando de MACUNAÍMAS, num País das Maravilhas Para Poucos , fazendo guambiarras e outras coisas para manterem-se vivos. E em em todas essas ações bato o carimbo: ISTO É ARTE!
IVAN GRILO













Ivan Grilo nasceu em Itatiba, SP, Brasil, 1986:
Na série FRÁGIL, Ivan Grilo apresenta trabalhos de impressão de fotografias de acervo histórico sobre blocos de papel, mais especificamente na lateral dos blocos.
As mais de mil folhas de papel não estão fixadas entre si e, dessa forma, permanecem na iminência de uma desconstrução, a qual é reforçada pelo detalhe da delicada suspensão dos blocos por meio de um suporte metálico em ‘L’.
” [...] O trabalho de Ivan Grilo problematiza a construção das imagens a partir da fragilidade de sua condição. Tendo como referência registros encontrados em acervos históricos, sua transposição através da impressão coloca em evidência tanto a fragilidade dessas imagens quanto da memória que asseguraria sua permanência. Aqui há sempre a espera eminente de um possível apagamento, da desconstrução como esfacelamento.[...] ” Ivair Reinaldim
ESQUECER
Série resultante de uma pesquisa em torno dos binômios solidez/fragilidade e memória/apagamento, ESQUECER versa sobre o desfiar da lembrança, sobre a fragilidade dos acervos, sobre o esquecimento que nos acomete todo o tempo…
Esse esquecimento pode ser visto não só como perda, mas como preparação, como escrito pelo romancista português Valter Hugo Mãe: “Vejo o esquecimento como preparação no sentido de que vamos deixando as coisas aos poucos, permitindo que algumas coisas desapareçam, se tornem desimportantes para nós.”
Em ESQUECER há um apagamento de retratos de acervo a partir do acúmulo de placas de acrílico transparente em sua montagem. A delicadeza do acrílico, costumeiramente utilizada como invólucro, aqui, acumulada subversivamente, vela as imagens a partir de sua justaposição.
Jonathas de Andrade – Educação para Adultos


O ponto de partida deste projeto é uma série de 20 cartazes educacionais impressos na década de 70 e utilizados por minha mãe enquanto professora na rede pública de ensino nos anos 80 e 90.
Utilizando conceitos e procedimentos do método Paulo Freire de alfabetização, os cartazes foram base para uma série de encontros diários com um grupo de analfabetas, durante um mês. O percurso das conversas de cada dia se tornava pauta fotográfica para novos cartazes criados por mim que voltavam para as conversas, criando uma espécie de engrenagem artístico-educacional.
Ao fim deste processo, o trabalho se apresenta como um painel de 60 cartazes de ontem e de hoje, que mesclam vários tempos históricos – 64, 71, 80, 90, 2010. Esta coleção final se descola do processo que a gerou podendo ser lida segundo o repertório do espectador, seja como uma enciclopédia fotográfica, um arquivo de crônica nacional, ou ainda um plano educador revisado, contraditório e ampliado.


O método Paulo Freire de alfabetização aliava escolarização com formação de consciência. Uma primeira experiência foi aplicada com 5 trabalhadores analfabetos dos quais 3 aprenderam a ler e escrever em 30 horas. Paulo Freire foi convidado pelo governo de João Goulart a organizar a Campanha Nacional de Alfabetização, que objetivava alfabetizar 2 milhões de pessoas em 20mil círculos de cultura. O Golpe Militar de 64 interrompeu o projeto, reprimiu a mobilização, e Paulo Freire foi perseguido, preso e exilado. O regime militar substitui o plano pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização, que propunha a alfabetização funcional de jovens e adultos.
O Brasil está sob regime militar desde 64 e Paulo Freire está exilado. Em 71, cartazes para educação de adultos são vendidos nas bancas como material didático. Entre 70 e 90, minha mãe trabalha com eles como professora na rede pública. Em 2006, ela se aposenta, se desfaz dos cartazes, e eu os guardo comigo. Pesquiso um pouco e descubro que carregam uma estrutura parecida aos cartazes do método Paulo Freire – uma imagem e uma palavra que partem do universo vocabular do aluno. Vejo que o método era bastante aberto, que se tratava de dimensionar politicamente a existência do outro; que se propunha concreto somente na prática; que não era preciso ser pedagogo para aplicá-lo. Pensei então em retomar os cartazes como ponto de partida para conversas com analfabetos de hoje, e a partir do que viesse à tona, fazer novos cartazes com novas imagens e novas palavras que retornariam para as conversas completando uma espécie de engrenagem. Talvez o projeto pudesse ser uma experiência de método Paulo Freire que experimentasse achatar os vários tempos históricos envolvidos – 64, 71, 80, 90, 2006, 2010 – num só plano. Talvez se apresentasse como um plano educador revisado, contraditório e ampliado. Fui a associacoes de lavadeiras e costureiras e encontrei um grupo de 6 mulheres que não sabiam ler e escrever e passamos a nos encontrar todos os dias após o almoço, durante o mês de agosto.


… embora o papel de provocador naquele momento esteja devolvido para mim, sinto um desconforto em estimular uma sensibilização de uma condição de oprimido sem ter exatamente uma convicção de como encaminhar para uma organização libertária. É uma experiencia, e trago o método sem saber o quanto esta sensibilização politica pode ser alcançada, em que medidas ela é mesmo prática da liberdade. O projeto toma emprestado um fôlego utópico de outro tempo histórico, entretanto, em momentos como este, a utopia se revela desajustada, um corpo estranho em ação. Assim, me sinto desautorizado a estimular um despertar de insatisfações adormecidas diante de um mundo em que tudo é tão cruamente pautado em favorecidos e desfavorecidos; em uma história de manutenção de poder em que não tenho clareza o quanto sou massa ou protagonista. Opressão e liberdade riscam faísca ali não exatamente de luta, mas de retomada de poder no sabor sobre a própria vida, no reconhecimento de um corpo autorizado a se mover na contradição. Percepção crítica não pode ser imposta, e talvez a grande horizontalidade que aconteça é que tudo que vem à tona é o que já existe na experiencia de vida delas e minha, e que é potencializado pelo nosso encontro. Para experimentar uma troca de fato, é preciso lançar mão de um despudor nas provocações que vão na conversa ou para o quadro, um risco na escolha das palavras. Esta urgência também vai para a feitura das fotos, mas é uma negociação delicada; envolve convidar as pessoas a serem atores sociais de uma representação desfavoravel de si mesmas, que ora se aproxima do estigma de que fogem, ora envolve assumir o papel dos outros que evitam. É um corpo a corpo que me põe em confronto com minha própria imaturidade ética, a falta de clareza sobre até onde levar o exercício do despudor que desmonta o limite de minha zona de conforto sobre aquilo que cresci aprendendo a ler como invisível. A arte me permite experiências que seriam impossíveis enquanto somente pesquisador ou cientista social. Posso manejar tradições com mais fluidez; inventar metodologias; experimentar ficções em que posso ser ora pedagogo e pesquisador, ora fugitivo, extraditado, meliante. Parto de urgências e desconfortos cotidianos, de certa forma até pessoais, que ganham dimensão social através da experiência artística. Com isso me tomo como uma célula geracional e o percurso do trabalho detona uma serie de contradições que me colocam diretamente em contato com o tempo que me precede, fazendo da História, da Economia e dos Problemas Nacionais entidades mais palpáveis, menos abstratas. [via]


Stefan Doitschinoff





Stefan, viveu entre 2005 e 2008 na cidade de Lençois, na Bahia onde pesquisou sobre religião, folclore e cultura brasileira. [amo]
Confronto – Cinthia Marcelle

CONFRONTO from cinthia marcelle on Vimeo.
8 malabaristas ocupam simultaneamente uma faixa de pedestre provocando um ruído entre carros afoitos em cruzar o farol. Os acrobatas que aos poucos tomam a rua, entram e saem, dois a dois no circuito, até formarem uma barreira frente ao sinal verde. O poder do fogo e a habilidade dos acrobatas, desafiam a buzina estridente dos motoristas.
Quantos acrobatas estão em frente ao sinal nesse exato instante?
COMPANHIA RAPADURA






Companhia Rapadura é um coletivo de fotografia analógica formado por 15 jovens brasileiros, reunidos através do Flickr. A união do grupo se deu através da afinidade de seus integrantes com o ato de fotografar, que acontece de forma despretensiosa e livre, fugindo dos padrões tradicionais do meio profissional. O objetivo é criar um espaço onde fotógrafos brasileiros pouco conhecidos – e que usam o formato analógico como opção estética – possam compartilhar seus olhares por meio de suas imagens.
30 Bienal de Arte de São Paulo: curadoria
Um excelente texto sobre a Bienal, de Angélica Moraes.

Sobre borboletas e arte
Classificar é utopia dos enciclopedistas do século 18. Não funciona mais.
Há quem goste de colecionar borboletas e espetar lado a lado, em estreitas e burocráticas fileiras, o que antes era liberdade de voo e amplidão de espaço. Há quem veja graça em tornar estático algo que era vivo e animado pela surpresa da descoberta, do voo a revelar a cor e o movimento de um instante especial. Submetida à lógica hirta de colecionador de borboletas, uma exposição de arte pode resultar na contrafação do que Mário Pedrosa tão sabiamente definiu como arte, ou seja, “o espaço experimental da liberdade”.
Presa a grades classificatórias e conjuntos tão extensos de pequenas coisas que eliminam a graça do voo amplo e livre de uma ideia artística, subtraindo ao olho o golpe de vista iluminador de uma visualidade, a cara da 30ª Bienal de São Paulo resulta mais adequada a um museu de história natural do que a sua missão de espelho da contemporaneidade. Classificar, como nos ensinou este jovem século 21, é uma tarefa vã diante da complexidade do real. Classificar é utopia dos enciclopedistas do século 18. Não funciona mais.
O imenso pavilhão, de generosos espaços a convidar para a ousadia rara dos grandes formatos, impossíveis de serem abrigados na maior parte do circuito exibidor de galerias e museus, restou com muitas paredes em branco extremamente visíveis, desperdiçadas. Os estratégicos locais no entorno do vão central são os que mais sofrem desse problema de distribuição de obras, para não falar no absoluto desperdício do próprio vão central. Situar a excelente mas sutil e intimista obra de Franz Erhard Walther no térreo do vão central é algo assim como escrever uma ópera e esquecer que ela tem árias. Walther não é um tenor. Nunca pretendeu ser. Colocado no lugar de um tenor, sua arte resulta achatada pelo enorme volume de ar de três pavimentos sobre seu trabalho que, visualmente, é apenas uma caixa de tecidos e um tapete negro. Sim, são performances. Mas elas não acontecem em tempo integral, claro, o que estabelece uma ausência incômoda no próprio coração do espaço expositivo.
Um dos poucos pontos altos da 30ª Bienal é o conjunto de fotografias de August Sander e seu diálogo com as coloridas imagens de Hans Eijekelboom. Mas mesmo aí, na excelência da captura de personagens de leitura sociológica e psicológica, perpassa o fantasma do entomologista que os reuniu desta forma. Se a escolha fosse menos numerosa e as imagens em cópias maiores, teríamos proporção mais confortável ao olho do espectador. O olhar tão próximo é característico do livro, não de uma exposição de arte. Isso acaba gerando uma contaminação do foco do olhar pelas imagens do entorno, reduzindo a força do trabalho dos artistas homenageados, um deles absoluto clássico da fotografia de todos os tempos.
Felizmente os artistas brasileiros comparecem em grande número e garantem conjuntos consistentes em meio a um todo que não consegue sustentar coesão. Essa presença reflete a competência e protagonismo da arte produzida no país nas últimas décadas, claro. Mas também pode ser lida como algo reparador do grande erro que foi comemorar os 60 anos da Fundação Bienal, em setembro de 2011, com uma exposição (Em nome do Artista) em que os brasileiros estiveram alijados da festa que, por direito e mérito, era também e principalmente deles.
Entre os brasileiros, uma das presenças mais marcantes desta 30ª Bienal é Paulo Vivacqua, com instalações que resolvem de modo eficaz e enxuto a visualidade da sound art, estabelecendo um diálogo lúdico que perpassa a memória minuciosa da infância. Sim, em um deles os sons são classificados, mas Vivacqua os liberta em vôos solo ou os reúne em divertidas formas orquestradas. Atitude que faltou no conjunto desta edição da Bienal. Mas, como sempre, os artistas conseguem salvar pela competência de suas participações individuais os escorregões da curadoria. São bravuras assim que contribuem para a vitalidade e permanência desta mostra sexagenária.



