leituras
Paixão é cocaína. Amor é Rivotril
Adorei esta dica de leitura da querida Julia Elias: por Alexandre Versignassi
Bate de uma hora para a outra. Você está mais feliz do que uma criança numa piscina de algodão-doce. As preocupações sumiram. O resto do mundo evaporou. E ela é tudo o que importa. Se está longe, dói. De verdade, como se você tivesse apanhado. Mas se ela chega perto vira o melhor analgésico do mundo. Parabéns: você está apaixonado. Caiu na armadilha mais sofisticada da natureza.
Sim, porque a paixão é um instinto. Um tão automático e irracional quanto o que faz as formigas viverem numa sociedade industrial comunista sem terem lido Marx ou um joão-de-barro construir uma casa sem ter feito faculdade de engenharia civil.
O processo que desencadeia esse instinto começa com descargas de dopamina – a mesma substância que a cocaína ativa no cérebro. Essas descargas, do ponto de vista científico, existem por um único motivo: fazer você produzir filhos. Claro que tudo isso acontece sem que você tenha a menor consciência. Ninguém pensa em crianças no momento em que se apaixona. Muito pelo contrário. Mas a real é que não somos diferentes de uma formiga ou de um joão-de-barro: fazemos o que os instintos mandam. E a razão última de todos os instintos que envolvem o amor é produzir filhos, passar os genes adiante, de preferência na companhia dos melhores genes disponíveis no mercado.
Pense numa balada. A coisa é basicamente um pregão da bolsa de genes. Todo mundo procura pelos melhores pacotes genéticos do lugar e negocia possibilidades de fusão – geralmente com os mais bonitos. Beleza. Por que a beleza, em última instância, é um indício visível de saúde. E seu cérebro move você em direção a esses pacotes aparentemente mais saudáveis, já que a possibilidade de eles gerarem filhos melhores é mais alta. Inteligência também conta. Se alguém te faz rir numa conversa de 30 segundos, esse alguém não é burro. E tem uma chance razoável de te dar filhos mais espertos do que você teria se se reproduzisse por brotamento. Ponto para o pacote genético do sujeito.
De novo: vamos atrás das “possibilidades de fusão” com outros pacotes genéticos pelo prazer que a fusão proporciona – seja na cama, seja indo viajar para a Europa com alguém especial. Mas o prazer só existe como recompensa pelo verdadeiro trabalho, que é produzir crianças. Os orgasmos são descargas de dopamina que recompensam você pela tarefa de tentar fundir seus genes com os de alguém. E os instintos que criam os orgasmos são cegos: não fazem a menor ideia se o dono do cérebro está usando camisinha. Ou se ele é homossexual. Ou se ele planejou não ter filhos por que acha criança um saco… Seus instintos não conversam com outras partes do seu cérebro, como a que determina sua sexualidade ou seus planos para o futuro.
Bom, a piscina de algodão doce que se abre quando você está só passeando com alguém especial também é dopamina, só que numa dose mais leve e contínua. Mas não existe descarga de dopamina grátis. Os efeitos colaterais de estar apaixonado são basicamente os mesmos da cocaína: insônia, agonia, taquicardia.
Quando Pixinguinha cantou que o coração dele “não sei por quê/bate feliz/quando te vê”, estava involuntariamente narrando os efeitos da dopamina sobre o batimento cardíaco. Bon Jovi também, quando canta que o heart dele beats like a drum em Born to be my Baby. Morrissey faz uma descrição mais dramática. E mostra bem o quanto um mero passeio de carro sob a euforia dopamínica pode ser eletrizante para o cérebro do apaixonado:
If a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
It´s such a heavenly way to die
(“Se um ônibus de dois andares/Bater na gente…/Morrer ao seu lado… Taí um jeito paradisíaco de morrer”)
Mas a paixão não é imortal, posto que é droga. E posto que é droga, causa dependência química – as dores físicas que os apaixonados sentem quando são rejeitados têm um paralelo nas crises de abstinência. “I need you, I need you, I neeeeeed you!!”, confirma John Lennon em Michelle*, do Rubber Soul.
Paul McCartney, mesmo mais pragmático que o ex-companheiro de banda, mostra que até a expectativa de passar por essa crise de abstinência pode ser insuportável. E fazer com que você não enxergue a realidade crua quando ela não te favorece. Em For no One, do Revolver:
You don’t believe her when she said
Her love is dead
You think she needs you
Essa montanha-russa química é demais para qualquer organismo. Por isso mesmo a paixão só é infinita enquanto dura. E, segundo a maior parte das pesquisas científicas, dura só 3 anos – na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença. E o que a faz a coisa evaporar é, surpresa, um relacionamento saudável.
Quem destrói os hormônios da paixão são justamente outras substâncias que o corpo libera durante os orgasmos: a ocitocina (nas mulheres) e a vasopresina (nos homens). Essas são drogas mais leves. Ansiolíticos.
Transformam o oceano revolto que é uma paixão num mar de tranquilidade. Se a relação continuar bem, essas substâncias vão fortalecendo os laços entre o casal. E serão o gatilho para outro instinto: o de virar mãe e pai – as mulheres, por exemplo, têm esses mesmos hormônios ativados durante a amamentação. Assim elas relacionam a paz da ocitocina, do ansiolítico, à ideia de cuidar da criança. Paixão é cocaína. Amor é Rivotril.
E pode ser eterno, como mostram os albatrozes e alguns casais de humanos. Ou não. Sempre existe a possibilidade de que um dos dois pule fora para recomeçar esse jogo todo com outro pacote de genes. Afinal, paixão vicia. E nem todo mundo usa com moderação.
Como mostra, aliás, este solteiro de 69 anos aqui do microfone – sete filhos com quatro mulheres, mais Angelina Jolie, Carla Bruni e Uma Thurman no currículo. E ainda insatisfeito.
Sinestesia: Leveza
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Decidiu guardá-lo na gaveta. Andava agitado. Hora branco-transparente. Hora preto-luto. Quietava lá dentro, no escuro. No escuro não tinha cor. Não existia. Murchinho. Um dia, entre uma música e outra que tocava lá fora, escutou. Não era azul, nem amarelo, fingia de verde, mas lembrava mais a cor do mar. Ficava lá dentro, no escuro, imaginando: “qual a cor estava a tocar?”. De todos os sons, aquele o fazia inchar. E voltava a se agitar, se enchia de vontade. A menina, de fora, escutava a gaveta saculejar. Às vezes sentia que ia explodir! Aí, tirava-o da gaveta para passear. Do escuro a luz, ele, finalmente, era branco e cheio. Mas logo voltava a esmirrar, para dentro da gaveta, mais uma vez.
De tempos em tempos, ela o levava à luz. Até que um dia, nesses especiais, em que podia sair da gaveta, ela o surpreendeu. Foi levá-lo a um lugar mais distante. De fora do prédio, já escutava. Era aquele som, o de várias cores. Ele se enchia cada vez mais, para poder ficar mais perto daquela música. Não acreditava que, finalmente, poderia vê-la melhor.
Pois não é que a música não tinha uma cor definida? Era como ele sempre imaginou: nuances. Tantas cores a escutar que achou que não ia se aguentar. Ficou tão grande, tão iluminado, que não teve como. A menina não conseguiu guardá-lo na gaveta mais. Amarrou-o por uma corda ao seu punho, para não escapar. Até que um dia, tomada por aquela música toda, se deixou levar. Ele ficou enorme e a levou junto. Finalmente, voaram. E assim, ela a alcançou: a leveza.
Por Ana Luiza Pereira / Imagem: Sara Perovic.
Originalmente publicado no Confeitaria.
Entrevista com Kenneth Goldsmith

Eu sou fã do UBUWEB e aposto que você também. Uma ótima entrevista sobre o seu criador, o poeta Kenneth Goldsmith:
“Se os seus livros são muito mais objetos para serem discutidos, e não lidos, seu campo de atuação tem implicações mais práticas e imediatas. Em 1996, o poeta americano Kenneth Goldsmith criou o cultuado site UbuWeb, um vasto banco de dados virtual em que estão disponíveis raras obras de artistas de vanguarda, entre filmes, músicas, imagens etc. Uma espécie de YouTube das artes em geral.
Valor: Em algumas entrevistas o senhor não elabora novas respostas — algumas vezes percebe-se um processo de “copiar e colar”. Este é apenas seu modo de trabalho (a noção de “remix”) ou uma espécie de crítica ao jornalismo e às perguntas repetitivas e não-criativas? Devo apenas “copiar e colar” suas respostas de entrevistas anteriores ou devo realmente entrevistá-lo?
Kenneth Goldsmith: Sou entrevistado tão frequentemente e me perguntam sempre as mesmas questões que eu não tenho nada de novo para dizer. Então apenas “corto e colo” respostas anteriores. Mas tudo é novo tanto para as pessoas que fazem as perguntas quanto para os leitores dessas respostas. A internet nos tornou conscientes do quão grande é o mundo, uma ideia diametralmente oposta ao conceito “McLuhaniano” de aldeia global [referência ao teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan (1911-1980)]. Não importa quantas vezes falemos as mesmas coisas, sempre parece haver alguém ouvindo aquilo pela primeira vez. Como resultado, nossas vozes singulares — aquela subjetividade sobre a qual toda a literatura é baseada —, na perspectiva global, são uma falácia. Como resposta, estamos procurando novos modos de escrita, que usam textos já existentes, que decidem usar as vozes de outros e tomar como próprias, repetindo o processo “ad infinitum” e refletindo a sala de espelhos digital que é a internet. Me parece uma maneira particularmente contemporânea de ser um escritor.
VALOR: “Originalidade” e “criatividade” são conceitos superestimados, ilusórios? Por que damos tanta importância a esses valores?
Goldsmith: Agora vou “cortar e colar”, já que me perguntaram sobre essas questões inúmeras vezes. Tendo trabalhado na publicidade por muitos anos como “diretor criativo”, posso te dizer que, a despeito do que especialistas da cultura dizem, criatividade — como ela tem sido definida pela nossa cultura e seu interminável desfile de livros, memórias e filmes repletos de fórmulas — é algo para ser evitado, não apenas como elemento da “classe criativa”, mas também como elemento da “classe artística”. Vivendo numa época em que a tecnologia está transformando as regras do jogo em todos os aspectos de nossas vidas, é momento de questionar e derrubar tais clichês, colocá-los no chão, em frente a nós, para então reconstruir essas brasas apagadas para que sejam algo novo, algo contemporâneo, algo — finalmente — relevante.
Valor: O senhor se considera um herdeiro de Andy Warhol [artista plástico] e John Cage [músico], mas no campo da poesia? Falando em referências: o senhor se sente conectado a John Baldessasri [artista] e Georges Perec [escritor], que trabalharam com conceitos de reapropriação e repetições? O que tem feito essas ideias novamente relevantes e contemporâneas?
Goldsmith: Tanto Warhol quanto Cage (e Duchamp) previram a maneira como poderíamos nos envolver com a linguagem na era digital. Cada um deles entendeu que toda informação — palavras, imagens, sons etc. — contém em si mesma uma bagagem (humana) intelectual e emocional em que não é necessário adicionar nada novo à ela. Ambos trabalharam por uma arte sem ego, uma arte em que o artista trabalha com diferentes informações preexistentes para criar um novo conteúdo. Mas o erro é achar que é necessário um único ego para criar tais paradigmas, portanto essa é a razão pela qual são considerados gigantes da arte do século XX. No século XX, muitos artistas que quiseram matar a arte frequentemente acabaram idolatrados em museus. Eu os vejo como figuras quase religiosas, com museus substituindo o papel de igrejas. Warhol e Cage ofereceram — e continuam oferecendo — liberdades intelectuais e filosóficas, que é o motivo pelo qual continuam relevantes. Não acho que podemos falar de Baldessari e de Perec na mesma frase. Ambos são gigantes ao seu modo, mas seus trabalhos me tocam de maneiras muito diferentes. Dos dois, diria que Perec e [o grupo literário francês] OuLiPo permanecem mais relevantes na era digital devido aos seus engajamentos com sistemas e números. Ideias “Oulipianas” se transferem elegantemente ao espaço digital. Por mais que eu adore Baldessari, não vejo muito futuro nele; mas, de novo, não vejo muito futuro para as artes plásticas — pinturas e esculturas únicas — num mundo onde o valor é concedido pela quantidade e disponibilidade em oposição a um objeto único. Infelizmente, hoje, o mundo da arte se parece com um mercado de antiguidades, vendendo objetos únicos para uma clientela minúscula que pode sustentar tais luxos. Está se tornando cada vez mais irrelevante. Em breve vamos até esquecer que essa arte já existiu.
Valor: Vivemos numa era de impulsos arquivísticos. Há uma grande quantidade de aplicativos para smartphones e aparelhos que permitem aos usuários terem controle sobre suas ações (quantidade de calorias ingeridas, horas de sono dormidas, contagem de passos dados etc.). Quais são os efeitos dessa tendência a longa prazo?
Goldsmith: Tanto Duchamp quanto Erik Satie preconizavam o desejo de viver sem memória, o que me soa como uma noção muito ligada ao século XX; talvez o desejo de viver sem memória seja uma maneira de responder às perguntas de Adorno sobre poesia após Auschwitz. É bem diferente hoje, quando nada é “não-relembrado” e tudo existe em websites e linhas do tempo eternamente. Existe um serviço aqui nos EUA em que você paga um preço elevado para ter coisas removidas da internet. Quando tais vastos bancos de dados de material intelectual existem, os melhores artistas são aqueles que conseguem fazer uma nova moldura, que conseguem retuitar e reblogar aquele material da forma mais atrativa possível. O trabalho do escritor agora é filtrar o conteúdo já existente — nossa memória coletiva —, em vez de criar algo novo. Fazendo isso, eles estão criando algo muito novo (a ideia de remix).
Valor: A cada dia nós temos mais e mais livros sendo escritos e lançados. Para algumas pessoas, escrever é um objetivo, uma maneira de dar sentido à vida. O que gera e mantém a necessidade humana de livros (além da indústria)?
Goldsmith: Minha geração fez grandes afirmações de que no futuro uma coisa iria substituir outra. Nós pensávamos que a internet iria tornar os livros obsoletos. Em retrospecto, vejo como éramos tolos. Hoje, uma mídia não substitui outra; ela complementa outra. Crianças hoje não pensam duas vezes sobre pintura a óleo e fazer vídeos no YouTube. Eles ouvem tanto MP3 quanto vinil. Elas entendem que diferentes mídias têm diferentes texturas e são úteis em variar situações de maneiras diferentes“.
Dica da Júlia Mesquita
Somos todos artistas

Em 2011, fiz um curso chamado “Introdução a Curadoria em Arte Contemporânea”. Visitando desde os mais famosos museus às menores galerias, encontrei com artistas e curadores revoltados com os Cortes aos Financiamentos Artisticos na Inglaterra, fruto da recente crise econômica mundial. Eu, que entendo muito pouco como tudo funcionam as distribuições de impostos por lá, achei interessante que a repercussão destes cortes levantou uma bola ainda maior: a do trabalho imaterial.
Foi em um livro chamado Are you working too hard? (Você está trabalhando muito?) que descobri o tal trabalho dematerializado. Eu, que me pegava nas horas de “lazer” – entre um teatro e uma exposição – pensando numa solução para um projeto a ser entregue na segunda feira, compreendi perfeitamente o que era viver no pós fordismo industrial:
“O pós-fordismo anulou ou complicou a correlação entre o tempo marxista tradicional do trabalho e o grau de exploração do trabalhador. Como o trabalho é desmaterializado e a divisão do trabalho na produção industrial corroída, o capital não só ocupa as horas de trabalho durante o qual os produtos ou bens (e sua mais-valia) são produzidos, ele absorve todo o tempo do trabalhador, bem como sua existência, pensamentos e desejos criativos. Produtos ou mercadorias são produzidas não para ser consumido, para serem engolidos diretamente, mas como um conjunto de novos modos de comunicação, conhecimento, línguas, ou mesmo mundos”. [http://www.e-flux.com/journal/towards-the-space-of-the-general-on-labor-beyond-materiality-and-immateriality/]
Se o trabalho imaterial transformou a criatividade e a linguagem em ofertas econômicas, o valor das horas trabalhadas, ou mesmo o valor do trabalho, sofre uma revisão. Se antes, as horas ditavam o lucro e a sua capacidade produtiva mecânica o seu salário; hoje esta relação tempo e dinheiro possui outra equação.
Nem é preciso ser economista para comprender na prática esta matemática. Não foi por acaso que eu encontrei esta temática num livro sobre arte contemporânea. Os artistas e aqueles que trabalham com a cultura sabem muito bem o quanto difícil é lidar com a valorização de seu trabalho. A arte é, para o artista, uma extensão de suas vidas e o prolongamento de suas subjetividades e questionamentos a respeito do mundo. Se há algo a aprendermos com a arte hoje é que, neste sentido, somos todos “artistas” em nossos empregos: devemos fazer do nosso trabalho diário, nossa vida.
Se através de um estudo sobre a arte e o trabalho imaterial, podemos compreender melhor a sociedade hoje e até um novo modelo econômico, consigo entender melhor a revolta dos curadores gringos nos Cortes aos Financiamentos Artisticos em 2011. O quanto a valorização da arte e da cultura é necessária, não só lá, como aqui. E isto me fez entender melhor o real patrimônio de Paraty, muito além da sua história.
A cidade é palco da renomada FLIP (feira de literatura internacional), do Paraty em Foco ( festival internacional de fotografia), da Virada Digital e de um Carnaval com o curioso Bloco da Lama. Paraty é arte. Paraty é cultura. E esse valor é para todos – do tamanho do Brasil.
Foto: Margareth Atwood lê sua obra prima em Paraty, por Bruno Torturra
Texto publicado originalmente no O Brasil com S – semana Paraty
O tempo de cada um de nós (dois):

Às vezes você já se pegou pensando se aquela pessoa que vc namorou há anos tivesse te conhecido hoje, mais madura, com menos medos e mais vivência, teria sido diferente? Você já percebeu como o relacionamento com sua irmã ou seu pai mudou depois de alguns anos e novas experiencias de vida? Você já imaginou que se fosse em outro momento aquele ou outro relacionamento teria outro rumo? Ah..o tempo: “o tempo de cada um de nós dois poderia sincronizar”!
Parece que esse encontro é uma coreografia marcada por um ritmo correto. Dois pra cá, dois pra lá, uma hora um, outra hora o outro. E quem pega o embalo e consegue rebolar, ganha anos de muita valsa, alguns tangos e, vira e mexe, um forró colado.
Se é para dançar conforme a música, como manter o ritmo certo? É ai que me pego pensando nas amizades, estas relações que se constrõem assim, no ritmo da própria vida. Nem sempre dá para se encontrar, às vezes passam-se anos distantes, mas, diz ai, quando aquele velho bom amigo te chama pra dançar, parece que vocês sempre estiveram entre rodopios, repetindo os mesmos passinhos ensaiados na adolescência; por mais que a sua vida seja mais para o rock e a dele mais para o samba.
E me lembrei desta cena que ilustra o post, do filme “Perfume de mulher”, em que o Coronel – então cego – se guia pelo perfume da mulher para levá-la pelo salão no mais belo tango. Vai ver, quando tudo ficar nebuloso e escuro, é isso, uma essência assim, um perfume: aquela admiração que está sempre no ar – seja toda a historia construída com os amigos de infância até a paixão por aquele que que está construindo uma vida ao seu lado – o que guia o ritmo e faz o tango ser eterno, mesmo que dure uma música.
Sinestesia
Fui convidada a publicar uma série de textos que venho escrevendo desde 2010, chamada Sinestesia, no delicioso site para os gourmets das palavras, o Confeitaria. Hoje, selecionei alguns para postar por aqui, espero que gostem!
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Utopia
Acordou em meio a uma curva fechada. Estranhou. Não se lembrava das curvas. Até então tudo era reto e marrom. Abriu os olhos e viu a paisagem terrosa. Desembaçou a vista com a sua mão branca. Viu um horizonte vermelho. Pulsou seus olhos e encheu o coração. Hipnotizada. Vibrava sangue. Seu corpo se esqueceu das dores das curvas. Era como voltar a dormir, acordada. Por um momento fechou os olhos e pensou: “utopia”. Até que veio outra curva. O céu voltou a desmanchar o vermelho da terra. A vista acalmou e então pôde ver. Não estava só. Ele tinha uma mão no volante e a outra ao seu lado. O vermelho da paisagem foi parar na sua face. Foi então que passou seus dedos por entre os dele. Ele segurou sua mão e a beijou como se fosse seu rosto. Isso porque seu rosto estava muito ocupado. Em sorrir.
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Coragem
Avistou o salão muito cheio. Estava há 15 passos. Voavam mãos e taças. Balançavam corpos e cresciam bocas. Altas gargalhadas eram mudas. Só o vermelho gritava. Ela procurava aonde entrar. Escolheu seu lugar. Encostou seu vestido beringela sobre a parede de mesma cor. Enquanto isso, ele foi buscar uma bebida. O importante era sorrir calada e dar respostas prontas. Com ele, não precisava sorrir. Podia ficar ali, beringela. E sumir. Agora, dentro do salão, o vermelho aumentou: um berro de pensamentos frenéticos. A sua frente, na parede oposta, a cor amarela. Ficou investigando o porquê de tantas cores femininas. Procurou o cinza dos rapazes, o preto dos mais velhos. Vermelho, amarelo, beringela. Coçou os olhos. Viu. Os cabelos castanhos dançaram, balançaram e tropeçaram em frente a parede amarela. E ali pousaram seus olhos. Por um bom tempo. Ou até ele chegar. Com a bebida em uma das mãos para si e a outra vazia para ela. Ele ficou ali, entre o castanho e o amarelo, bloqueando os vermelhos com seu terno azul. Não queria mais piscar. Amarelo, Castanho e Azul. Desde então ficou decidido. Beringela, sempre.
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Enamorar
Do salão lotado, gritava-se o roxo. Ela foi em busca da saída, trombava-se com corpos enquanto tentava esconder o rosto. Transparente sua alma, aparente sua vergonha. E foi vermelha pela porta afora. Sentou-se à beira da escada. Do salão, só a lembrança do som. Esfregou os olhos. Não mais roxo. Só seu rosto; ainda sentia-o rosado. Esfregou as mãos geladas na bochecha para acalmar a cor. E logo já pode enxugar as lágrimas. Foi então que ele chegou. Do salão, saiu e sentou-se ao seu lado. Ignorou-o sem tirar as mãos do rosto, tentando apagar a vermelhidão. Ele trouxe algumas palavras e conseguiu roubar-lhe um sorriso. Foi ai que ela virou o rosto e o olhou de canto. Surpreendeu-se. Ele não trouxe o roxo do salão. Era azul, azul royal, desses que os príncipes prometem, mas se esquecem. Azul que não se mete a virar roxo. Sorriu. Não podia sorrir. Sentiu o rosto ferver vermelho. E foi aí que ele soltou a frase: “obrigado”. Ela olhou para seus olhos e denunciou o vermelho. Queimou o corpo todo até que sentiu um leve azul tocar seu lábio. “Obrigado por me lembrar”, completou a frase em pensamento. Aparente a alma, sem a vergonha.
Fotos: Daniella Domingues, Ana Luiza Pereira e Elisa Mendes
Continue Curioso
Na última semana eu comentei a respeito da busca pelo “emprego dos sonhos”. Nesta, um projeto no mínimo curioso que retrata esse encontro amoroso entre o profissional e pessoal, o Continue Curioso:
“ser um fracassado profissional é muito mais terrível do que fracassar em um hobby”. esta verdadeira e dura afirmação feita pelo thiago, diz mais sobre ele do que poderia ser descrito. tudo que ele expressa desmembra o que é ordinário, sem meias palavras. esta visão única o levou a uma série de projetos públicos e privados incluindo a voodoohop e trabalhos expostos em galerias”.
“a vida de um fotógrafo foi dada aos outros. um fragmento de qualquer coisa vira cena somente quando ele é convidado a entrar e dar um significado. “o que ele vê que eu não vejo?” — talvez, a busca por sentir alguma coisa seja mais importante do que a busca por um registro perfeito. ver não tem nada a ver. a habilidade de absorver e expressar com sinceridade é o reflexo de algo feito com o corpo inteiro. esse mesmo amor da busca sincera, a mais difícil, quando não mente-se pra si, define a marilia. com um espírito independente, ela faz entender que o maior erro que alguém pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum”.
Fratura Exposta (Profissional)

Vai me dizer que você não escutou ainda de algum amigo quando reclamou das horas extras que fez no trabalho: “você têm que fazer o que ama!”. Quem largou o emprego chato e foi buscar trabalhar “com o que ama” é o novo modelo de felicidade completa!
Eu conheço alguns e comprovo, nunca os vi tão felizes (e enriquecendo). Já outros, com seus empregos enfadonhos, estão desesperados em busca de um encontro com esse tal amante chamado trabalho. Se enfiam em leituras, se aventuram em freelas malucos, começam a fazer cursos de tudo que é diferente, ou seja, se arriscam em vários blind dates. O restante até trabalha com o que gosta e, por isso mesmo, vive o sufoco da rotina aniquilando seus corações – e bolsos –, do hobby à profissão, do amante à esposa, da paixão ao peso de um compromisso eterno.
Já passei por vários destes estágios e não, definitivamente, não estou enriquecendo (ainda, rs). Já li alguns bons livros sobre, inclusive a bola da vez The School of Life, “Como encontrar o emprego da sua vida”. E digo, o autor, Roman Krznaric, me vendeu direitinho o príncipe no cavalo branco: a vocação em encontro com as necessidades do mundo. Terminei o livro com a sensação de ter lido algum clássico da Disney. Romance, aventuras, encontros, desencontros e uma pitada de mágica com destino! Esse amor profissional promete mais que qualquer aliança.
A melhor leitura com certeza foi um livro sobre arte contemporânea chamado “Are you working too much?”. Uma coletânea de textos críticos do e-flux (que você tem acesso de graça aqui) que eu li nas férias de 2011! Entre uma análise sobre a crise dos modelos tradicionais de emprego, estudos sobre a vida profissional de um artista contemporâneo e debates sobre o tal “trabalho imaterial”; pontuar as novas questões do comportamento e do mundo, na minha visão, sempre é bem mais incrível pela arte. Eu já indiquei a leitura aqui no blog de dois desses artigos, um do Boris Groys e outro do amado Diedrich Diederichsen.
Depois destas leituras, de fazer cursos – vários inúteis e alguns excelentes – depois de tentar, em vão, tornar este blog em algo rentável, depois de tentar me reiventar num cargo novo dentro do meu próprio emprego, não, eu não tenho a resposta. Eu sou a própria fratura exposta profissional. O que eu aprendi, como todos em busca de seu grande amor, é que a busca é bem interessante e válida. Ao invés de só reclamar que o trabalho te cansa, ele vira algo mais dinâmico, vivo, cheio de histórias e até divertido algumas vezes.
De todas essas tentativas, confesso que a mais importante tenha sido esta: quando começo um projeto novo, eu sempre parto de algum ponto muito pessoal. Seja a perda da minha avó para fazer o #vovomeinspira ou a minha inquietação sobre o meu próprio país para pesquisar #obrasilcoms. Eu canalizo todos os meus questionamentos e os transformo em projetos como um recurso para pensar a vida. E compartilhar tudo isso é das formas mais belas de se aprender.
Vai ver esse amante chamado emprego não esteja muito distante de um encantamento pela própria vida, por um dia a dia que merece ser muito mais que um trabalho pesado, por uma vida mais leve em que os amores se confundam, em que esse profissional e pessoal sejam eternos namorados.
*Para quem não conhece o “Fratura Exposta” do blog amado Don’t Touch, descubra! E confira alguns projetos interessantes sobre o tema no site da Contente.
Wim Wenders Interview

“We lead our lives differently, indeed. And many of us have forgotten how we functioned without these digital devices, without smart phones, without instant communication, without permanent access to knowledge etc. We don’t remember certain things any more, like phone numbers, and we don’t know any more how to read maps, because navigation is instantly available. All these changes interest me enormously. Some of them, for instance, we had foreseen and predicted in Until the End of the World. And I don’t feel like cinema has become more disposable, on the contrary, it is more necessary. As all other social guidelines fail, like politics and religion, for instance, cinema is more than ever a mirror of our times, and is giving us answers, at least every now and then.” Wim Wenders, o cinema e uma boa entrevista.
Cartas a um Jovem Poeta
Eu ganhei emprestado um livro como um “abraço” de uma amiga e, no dia seguinte, minha mãe tirou da gaveta o seu livro favorito para me dar de presente: o mesmo, o próprio – Cartas a um Jovem Poeta. E foi ai que eu fiz 30:

“Não se deve enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranquila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-mos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segunda a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo.
Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O Amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do Amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite a trabalhar em si mesmos. A fusão com o outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles, são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Ai está o erro tão grave e frequente dos jovens – cuja natureza comporta o serem impacientes – atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre ele e derramam-se tais como são com seu desgoverno, sua desordem, sua confusão. Que acontecerá pois? Que poderá fazer a vida desse montão de material estragado a que eles chamam de comunhão e facilmente chamariam de felicidade? Que futuro os espera? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir.
[...]
Na medida, porém, em que começarmos a tentar, solitários, a vida, estas grandes coisas se hão de aproximar da nossa solidão. As exigências feitas à nossa evolução pela tarefa difícil do amor são sobre-humanas e, quando estreantes, não podemos estar à sua altura. Mas se perseverarmos, apesar de tudo, e aceitarmos esse amor como uma carga e uma tirocínio em vez de nos perdermos na fácil e leviana brincadeira que serve aos homens para se subtraírem ao problema mais grave de sua existência – então, talvez, um leve progresso e alguma facilidade venham a ser experimentados por aqueles que chegarem muito tempo depois de nós – e isto já será muito.
[...]
Esse progresso há de ser transformar radicalmente (muito contra a vontade dos homens a quem tomará a dianteira) a vida amorosa hoje tão cheia de erros numa relação de ser humano para ser humano, não de macho para fêmea. E esse amor mais humano (que se produzirá de maneira infinitamente atenciosa e discreta, num atar e desatar claro e correto) assemelha-se-á àquele que nós preparamos lutando fatigosamente, um amor que consiste na mútua proteção, limitação e saudação de duas solidões.
Ainda mais: não pense que o grande amor que fora imposto na sua adolescência se tenha perdido. Não terá sido então que amadureceram em si grandes e bons desejos e propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Creio que aquele amor persiste forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior que moldou sua vida“.
foto: Lygia Pape



