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Prosas: O Brasil com S no Estúdio do Morro

Peço licença. Abro espaço aqui para contar um caso e te fazer um convite. Há quase 2 anos realizo junto à Mayra Fonseca um projeto de pesquisa e curadoria chamado O Brasil Com S.

Desses trabalhos autorais que resolvemos tirar da gaveta geralmente num momento de questionamento, sabe? Pois em 2012 minha vida virou do avesso. Sentei para um café com a May e, como brincamos, estamos até hoje a tomar. Com pessoas incríveis. Com histórias. Com afeto.

Nossa missão é estimular o auto conhecimento do Brasil de forma contemporânea. Em outras palavras, a gente quer muito que aquele papo do buteco com os amigos seja sobre, sim, o Brasil. E não só sobre o que falta no país, mas o que te inspira e encanta que não está só nas capas de revistas ou nos livros didáticos. Aquela história de vida da sua avó que você enche o peito de amor pra contar. Aquela comida que só mesmo na feirinha do lado da casa dos seus pais que você encontra os ingredientes e cheiros para cozinhar. Aquela engenhoca incrível que seu primo criava para fazer um brinquedo para correr contigo na rua brincar. Aquele Brasil que está em você, você nem percebe e ele se escreve com S mesmo.

Pois bem. É por aí que eu e Mayra caminhamos. E construímos no endereçowww.obrasilcoms.com.br um arquivo investigativo em imagens, entrevistas, músicas e palavras sobre temas como “Cafuné“, “Gambiarra“, “Cariri“, “Belém do Pará“. Um dos mais recentes lugares pesquisados foi o Morro do Querosene, aqui em São Paulo mesmo, na região do Butantã.

Pesquisando a história do Morro, descobrimos que ali está a história de São Paulo: de encontros. Foi alí que ameríndios e viajantes se encontraram, onde até hoje o Maranhão faz a criança brincar com o boi, a Olinda se faz inspiração para os muros das casas, a Bahia oferece o Caruru para a cozinheira potiguar, o berimbau toca o frevo para os pés se encontrarem. E foi no Morro também que o artista Roni Hirsch encontrou o espaço ideal para sua produção, na casa de um serralheiro e que, hoje, abre a casa-oficina para artistas, designers e criadores que querem fazer o encontro entre a arte e a sociedade: o Estúdio do Morro.

Num papo sobre O Brasil Com S, apresentamos ao Roni nossa Biblioteca Itinerante, composta de 50 títulos sobre cultura e arte brasileira e, comentamos que gostaríamos de deixá-los ali, para a comunidade do Morro. Para nossa surpresa, conseguimos não só um cantinho para abrigar nossos livros de agosto à outubro, mas também encontramos motivo para celebrar!

Dia 03 de agosto, este domingo, convidamos você para uma tarde deliciosa com diversas atividades que inspiram a leitura dos livros. Para conhecer as pessoas e artes do Estúdio. Para se encantar com o ritmo do Morro.

Escolha o trecho de um livro para ler e conversar. Leve uma criança (pode ser a que mora dentro de você) pra soltar pipa. Envie um desejo num lambe-lambe. Descubra o Parque da Fonte. Prove os temperos da comunidade do Morro. Bata o pé na laje, dance ao lado de um sorriso.

Lembre, você só precisa de Tarja Branca!

Prosas – O Brasil Com S no Estúdio do Morro

Quando: Domingo, 03 de agosto / das 13h às 22h
Onde: Estúdio do Morro. Rua Padre Justino, 593, Morro do Querosene - estudiodomorro.com.br
Realização: Estúdio do Morro e O Brasil Com S.

Programação:
13h às 17h - Oficina de pipas para crianças com PipariaDenis Diosanto.
13 às 17h - Oficina de lambe lambes para todos com Roni HirschDerlon AlmeidaDyOlinda.
15h às 17h - Leituras e Conversas com Cecília Pelligrini, Julio Abe e convidados.
13h às 20h - Música brasileira por Fábio Abreu e Juliano Augusto (Birosca)Show de Dinho Nascimento e Convidados.
13h às 22h - Quitutes de Dona Ieda, Fabio Luis Schaberle, Piparia, Dona Marli. Bebes, Cerveja Artesanal Jupiter e Cachaça Yaguara.
13h às 22h - Intervenções artísticas de Paula CondiniPat LoboDerlon AlmeidaIvan Grilo e Roni Hirsch.
20h – Projeção do Filme Documentário Tarja Branca

TARJA BRANCA – trailer from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

Importante: O evento é gratuito. Para comes e bebes, aceitamos apenas dinheiro.
Confirme sua presença pelo email: contato@obrasilcoms.com.br

Legendas:
1. Foto de Ana Luiza Gomes e Mayra Fonseca por Pedro Fonseca.
2. Cantina Benta, projeto do RS.
3. Muro dos Morros do Querosene, por DyOlinda.
4. Biblioteca Itinerante O Brasil Com S, por Ana Luiza Gomes.
5. Convite por Roni Hirsch.

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BIBLIOTECA ITINERANTE O BRASIL COM S

“Biblioteca é mais que coleção de livros, senhor dicionário. É porta, é janela, é por onde a luz bate e não parte mais. Abre-se um livro e o nariz queima com a poeira do sertão, afoga com a ressaca do mar. Ressaca pode ser nos olhos, Capitu, mas pode também ser a da costura, do fio que toca no pano de Leonilson. Biblioteca é terra quase mística, terra de ninguém e todos. Haroldo de Campos e suas palavras de galáxia ombro a ombro com os malandros de Roberto DaMatta.

E biblioteca, senhor dicionário, não precisar ficar parada não. Ela pode andar e voar por aí. O Brasil com S costura pezinhos e asas nos livros de seu acervo de pesquisa e os leva para passear com o projeto Biblioteca Itinerante.

Ana Luiza Gomes e a Mayra Fonseca tiveram uma brilhante ideia: Se folhear os livros em suas pesquisas dava tanto prazer e conhecimento, porque não levar o acervo para lugares onde as pessoas também pudessem desfrutar deles?

E a primeira parada da Biblioteca Itinerante não podia ser mais brasileira. Roda cadeira pra lá, ao som da tesoura, chuva de cabelo no chão do salão Retrozaria. O dono, Charles, já é ele próprio um pesquisador desse Brasil imensidão. Conhece lugar que não está livro, podia ser ele um livros de lugares. Então, como é dele, como é do brasileiro, abriga. Nas prateleiras brancas de seu salão a Biblioteca Itinerante aporta.

Para consultar os livros, é só ligar e marcar uma visita. Sente-se, leia, corte o cabelo. Guardando os livros e fazendo com que eles sosseguem um pouco, 4 vasinhos de barro suculentas brasileiras, criações de Marina Coutinho em seu projeto DaHorta. Que gostoso, é Brasil em toda parte, é Brasil de toda a natureza.

São Paulo – e logo menos outros lugares – ganha uma biblioteca voadora, itinerante, migratória. Como pássaros os livros vão fazer ninho onde possam ser vistos, manuseados, lidos, queridos. Como todos os livros devem ser.”

Charles Motta, Ana Luiza Gomes, Mayra Fonseca e Marina Coutinho.

O Brasil Com S, meu projeto com Mayra Fonseca, busca estimular o autoconhecimento do Brasil. Por isso, um dos nossos objetivos é levar nossas pesquisas para além do nosso site, para ações como a que inauguramos hoje: nossa Biblioteca Itinerante. São cerca de 40 títulos que garimpamos em nossas pesquisas disponíveis para leitura em cafés, espaços culturais, galerias, espaços de trabalho compartilhados, etc. O primeiro local a nos receber é o salão de Charles Motta, na Al. Itu, 1079. Até junho você poderá ir lá e consultar os livros e aproveitar para ouvir os vinis deliciosos de música brasileira do Charles e puxá-lo para uma prosa sobre lugares que você desconhece no Brasil. Para saber mais, clica lá: obrasilcoms.com.br/biblioteca-itinerante

Quem escreve esse belo texto-presente para nosso projeto é a escritora Cecília Garcia. Obrigado Ceci, por todo carinho. Obrigado a todos que abraçam e abrigam O Brasil Com S <3

 

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Minha nova terra: O Brasil Com S

Aos 14 anos eu realizei meu maior sonho: morar fora. Fui estudar em Madrid. Repeti aos 17, num intercâmnio para a Australia. Repeti aos 24 numa loucura para Berlim. Vim parar em São Paulo aos 26 para começar dinovo, mas acabei de volta a Belo Horizonte um ano depois.

Hoje, eu acho que eu só fui me encontrar no meu próprio país. Em Belo Horizonte eu decidi fazer o meu projeto dos sonhos: contar a história de vida da minha avó Josélia em um livro. Vovó nasceu em Angicos, um pequeno povoado no sertão do Rio Grande do Norte.

Ela seguiu o rumo das migrações brasileiras em busca do desenvolvimento do país. A trabalho, de Natal para Recife. Pelo Rio São Francisco, chegou em Belo Horizonte em busca de novas oportunidades. De lá para Brasília para ver as filhas estudarem. E, finalmente, Cuiabá para acompanhar uma delas.

Vovó me contava que o seu maior passatempo, quando menina, era pegar um facão e ir de carona pelo interior cortando a mata para desbravar novos caminhos até o mar. Esta imagem ficou na minha cabeça até hoje, como retrato de família: mulheres aventureiras em busca de descobrir um horizonte novo.

Andarilha, minha avó me ensinou a ser nômade. Mas aos 30 (deve ser culpa do tal retorno de saturno) eu decidi mudar o percurso. Não mais buscar lá fora o que eu procurava tanto aqui dentro. Foi aí que eu fui em busca de descobrir o Brasil. O Brasil dessa saudade.

Fui pedir ajuda a todos os santos. Fiz novena, reza brava, promessa. Entrei logo com o pé direito. E tomei um banho de sal grosso um dia antes. Andei com um trevo de quatro folhas na bolsa. Fui me benzer logo em seguida. Me muni de fios de contas em volta do pescoço. Nas mãos, levei o tercinho de vovó.

Perguntei como era esse Brasil ao vendedor ambulante da praia. Na praça, questionei o pipoqueiro. Na rua, troquei uma ideia com os camelôs. Na saida da escola, petisquei uma informação com o baleiro. E o feirante me vendeu picado um traço ou outro desse brasileiro.

Chamei alguns amigos para almoçar lá em casa. Sentado a mesa, fiquei ali esfarelando o pão enquanto esmiuçávamos seu perfil. Brinquei com os talheres tentando esculpir seu rosto. Dobrei o guardanapo e mordi o canudo. Ansiosa para tentar desenhar todas as suas facetas.

Decidi peregrinar por alguns bares. Escutei algumas sabedorias do pinguço na entrada do bar. O garçom veio me oferecer uma pinga e uma piada. Tirou com a minha cara. Mas eu tomei foi um café pingado com o dono do bar. Perdi as contas de quantos bares frequentei e troquei as pernas de volta para casa.

Desisti de encontrá-lo em um lugar específico. Comecei a observar nas minha andanças por onde ele poderia estar. Ele me pareceu poeta. Destes que declamam as vivências de cada dia. Um poema que se faz com o tempo, com a passagem dos dias, do vento, do ar.

Belo dia eu o encontrei! O danado morava logo ali, num puxadinho da casa ao lado. Mas não fixava morada. Parecia improvisar uma casa a cada canto que passava. Tomava sol na laje pela manhã. De tarde, deixava o cachorro passear no cercado. A noite fumava um cigarro na varanda e assistia à TV a gato.

Mais de perto, tentei ver seu rosto. Não era m um homem. Não era uma mulher. Era: vários. Não era jovem, nem adolescente, nem velhinho, nem bebê. Era jovem, adulto, idoso, criança. Era tudo isso, junto. Não era rico. Não era pobre. Aliás, ele não se classificava em classes e não se reduzia aos números.

Fui interrogá-lo sobre seus antepassados. Não era índio. Não era negro. Seu avô era italiano. Sua mãe portuguesa. Sua bisavó japonesa. Sua mãe, nordestina. Nasceu em Salvador e logo foi viver no Rio. Passou um tempo desbravando o interior e o litoral. Era mestiço.

Convidei ele para sentar para comermos algo. Seu prato, uma mistura. Começou pelo feijão: Feijoada. Feijão Tropeiro. Feijão Preto. Tutu de Feijão. Tutu à Baiana. Feijão Branco. Verde. De corda. Mulato. Carioca. E depos pedimos a sobremesa: Arroz Doce. De Leite. De Creme. À Maranhense.

Partimos para a festa, queria me chamar para ouvir um som dos amigos, curtir um samba, tocar um batuque. E foi logo me mostrando o seu gingado. Jogou capoeira. Dançou um passinho. Arriscou um maracatu. Fechou uma roda. Rebolou. Incorporou. Entrou em transe.

Nos divertimos, mas o dia seguinte seria mais de muita labuta. Era garimpeiro em busca de uma mina. Era pescador de água doce e salgada. Caminhoneiro, aprendeu desde pequeno, a amar as estradas. As mãos eram calejadas de histórias sábias, o coração era cheio de ouro.

Foi então que perguntei seu nome. E ele me disse: “meu nome se escreve com S. O Brasil Com S”. O Brasil que teima em não ser um. O Brasil do cotidiano e não somente da capa de revista.O que se faz nas histórias locais e não só nos livros.

Nasceu do encontro entre a paixão pela a arte da designer aqui e o encantamento pelo regionalismo da pesquisadora Mayra Fonseca. Somos garimpeiras em busca de nos descobrir. E nos encontramos aqui, nesta terra chamada O Brasil Com S.

Um projeto de pesquisa e curadoria que existe para estimular o auto conhecimento do Brasil de forma contemporânea. A cada quinzena pesquisamos ora um lugar do país, ora um elemento cultural. E identificamos o que se escreve com S na arte, na música, no cotidiano e no comportamento.

Buscamos valorizar o saber cotidiano, as histórias locais e a pluralidade da nossa identidade brasileira. O nosso maior desejo é que o Brasil seja, finalmente, o assunto para uma boa prosa. Vamos lá?

Fotos das obras:

1.”Mapa da Mina”, Alex Fleming
2.”Andarilho”, Cao Guimarães
3. “Margem”, Adriana Varejão
4.”Bandeira do Brasil”, Emmanuel Nassar
5.”Lembranceiras,  imaginário e realidade”, Iêda Marques
6.”Eu amo Camelô”, Coletivo Opavivará
7.”Esculturas involuntárias”, Rivane Neueschwander
8.”Gambiarras”, Cao Guimarães
9. “Sem título”, Felipe Morozini
10. ”Sem título”, Felipe Morozini
11.” Moradores da Favela do Moinho”, Inside Out SP
12. Moradores – A humanidade do Patrimônio Histórico
13. Nino Cais
14.”Estrela Brilhante”, Bárbara Wagner
15.”Ver-O-Peso”, Dirceu Maués
16.”Educação para adultos”, Jonathas de Andrade
17.O Brasil Com S – Foto de Bruno Nunes
18.O Brasil Com S – Foto de Bruno Nunes
19.”Eu desejo o seu desejo”, Rivane Neueschwander

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IVAN GRILO

Ivan Grilo nasceu em Itatiba, SP, Brasil, 1986:

Na série FRÁGIL, Ivan Grilo apresenta trabalhos de impressão de fotografias de acervo histórico sobre blocos de papel, mais especificamente na lateral dos blocos.

As mais de mil folhas de papel não estão fixadas entre si e, dessa forma, permanecem na iminência de uma desconstrução, a qual é reforçada pelo detalhe da delicada suspensão dos blocos por meio de um suporte metálico em ‘L’.

” [...] O trabalho de Ivan Grilo problematiza a construção das imagens a partir da fragilidade de sua condição. Tendo como referência registros encontrados em acervos históricos, sua transposição através da impressão coloca em evidência tanto a fragilidade dessas imagens quanto da memória que asseguraria sua permanência. Aqui há sempre a espera eminente de um possível apagamento, da desconstrução como esfacelamento.[...] ” Ivair Reinaldim

ESQUECER

Série resultante de uma pesquisa em torno dos binômios solidez/fragilidade e memória/apagamento, ESQUECER versa sobre o desfiar da lembrança, sobre a fragilidade dos acervos, sobre o esquecimento que nos acomete todo o tempo…

Esse esquecimento pode ser visto não só como perda, mas como preparação, como escrito pelo romancista português Valter Hugo Mãe: “Vejo o esquecimento como preparação no sentido de que vamos deixando as coisas aos poucos, permitindo que algumas coisas desapareçam, se tornem desimportantes para nós.”

Em ESQUECER há um apagamento de retratos de acervo a partir do acúmulo de placas de acrílico transparente em sua montagem. A delicadeza do acrílico, costumeiramente utilizada como invólucro, aqui, acumulada subversivamente, vela as imagens a partir de sua justaposição.

 

 

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A nostalgia do jovem brasileiro

Na semana passada recebi um artigo muito interessante de uma amiga chamado “Como viver sem ironia”. Nele, a autora Christy Wampole, professora assistente de Francês na Universidade de Princeton, revela o que a ironia dos jovens da geração Y esconde: a ausência de sentido e o excesso de opções. O recurso da defensiva é instrumento para falar sem emitir voz, desconectar-se de qualquer pensamento na busca por minimizar o risco político e social ao dar opinião. Para ela, o jovem hipster é a “citação ambulante” – a ironia personificada.

O comportamento que talvez mais o defina hoje seja sua constante manifestação da nostalgia de tempos que ele mesmo nunca viveu. Do culto ao bigode aos filtros do instagram, “nostalgia precisa de tempo, não se pode acelerar significativas lembranças”. Somos resultado das experiências que nos modelam ao longo de nossas vidas. Ou seja, a memória também faz parte da construção do nosso eu. Cada vez mais à disposição de recursos tecnológicos, os jovens os utilizam como extensão de suas próprias memórias e, desta forma, acabam fragmentando a construção daquilo que lhe é pessoal.

No livro “Como viver na Era Digital”, o autor Tom Chatfield discute exatamente esta preocupação a respeito da relação dos jovens, a memória e a tecnologia: “O que vivenciamos, fazemos e aprendemos se torna uma parte de nós. Internacionalizamos acontecimentos, pessoas e ideais; refletimos, mudamos de ideia e temos lembrança equivocadas, mantendo nosso passado como uma forma contínua de nosso presente. Não podemos terceirizar nossas verdadeiras memórias, da mesma forma que não podemos terceirizar nossos sentimentos e crenças. (…) Quando passamos a usar a internet em substituição à memória pessoal, evitando o processo interno de consolidação, corremos o risco de esvaziar nossa mente de riquezas”.

Quando pequena, viajava sempre duas vezes, uma me deslocando e tirando apenas 36 fotos e outra, após revelá-las em papel, revivendo cada parte da viagem, visitando novamente cada lembrança. Hoje, nem tivemos tempo de absorver a paisagem a nossa frente e nossos amigos já estão curtindo a nossa vista online. Esta nova relação com o tempo fragiliza o processo de internalização da memória e, consequentemente, interfere na construção da nossa própria narrativa, nossa história e nosso “self”.

Se o jovem norte americano, para a professora Christy Wampole, tem seu discurso cada vez mais esvaziado de sentido, por aqui, não é diferente. O vintage é o novo. Algumas vezes, na tentativa de resignificar os objetos que temos (ou o tanto de), outras vezes, na busca por dar sentido à vida resgatando tradições. Aqui, no “O brasil com s”, selecionamos projetos que estão em busca de descobrir e dar valor à nossa história, resignificar nossas lembranças e reaproveitar o que já aprendemos no passado para recriar um futuro mais sustentável. Assim, o vintagismo também se escreve com s.

Texto originalmente publicado no #obrasilcoms

“Luiz, respeita Januário”

No domingo fui ver “Gonzaga, de pai para filho”, filme do diretor Breno Silveira.

Antes de tudo, preciso confessar uma coisa: eu tenho uma queda por Pernambuco. É um pré-conceito mesmo. Se me apresentam um pernambucano, abro logo um sorriso largo. Dito isto, é claro que já me pré-dispus a amar esse filme com a mesma intensidade que minha mãe grita as letras de Gonzaguinha: “é a vida, é bonita e é bonita!”. Então, não vou me atrever a fazer qualquer crítica com voz de cinéfila assídua.

O que me chamou atenção em toda a narrativa foi o momento em que Gonzaga, o pai, perde a esposa (mãe de Gonzaguinha) e retorna a Exú, onde mora sua família, para se refazer do luto. Foi ali que Lula – como era carinhosamente chamado – abandona o “fado chato” e se veste de “rei do baião” para cantar sobre aquilo que lhe é realmente do coração: o nordeste e o sertão.

Muitas vezes me pego sem graça, pensando como tenho coragem de começar um projeto sobre o Brasil. Logo eu, que sempre tive um certo descaso pelo assunto. “Quando se faz o que se ama, dá retorno”, me lembrei de alguém me dizendo isso e tive vontade de ser um pouco Gonzaga. Procurar nas raízes por onde anda a minha verdadeira paixão. Talvez seja isso: a solução esteja debaixo do nosso nariz. Se olharmos mais para nossa história, nosso cotidiano e nossas tradições, vamos descobrir muito do que realmente amamos e aquilo que nos move de verdade.

Agora, toda vez que escuto “Luiz, respeita Januário”, me lembro de respeitar estas raízes, desde os causos da minha avó até a trajetória da minha vida até aqui. Recomendo o mesmo a todos, há um brasileiro em cada um de nós. Mesmo que, muitas vezes, você acredite que não.

Texto publicado originalmente no #obrasilcoms

1 Comentário | Categoria(s): #obrasilcoms, cinema

#OBRASILCOMS

Desde pequena eu olhava o mapa do mundo e sonhava em morar fora de Belo Horizonte. Com 12 anos, pedi aos meus pais um intercâmbio e aos 14 eu troquei a Disney pela Espanha. Depois, incontáveis presentes pela Austrália. E ai fiz a loucura de juntar uns reais do meu primeiro emprego para viver na Alemanha. Eu achava que bom mesmo era estar longe daqui.

Mas foi lá fora que eu me encontrei muito brasileira. Não, eu não comecei a gostar de roda de samba para me sentir mais nacionalista, não ouvi funk pra matar a saudade daqui e não vendi que “o Brasil é o melhor país do mundo” para fazer gringo sorrir. Não eram esse os chavões que eu reconhecia em mim.

Eu comecei a reconhecer outros comportamentos, esses do dia a dia, que a gente só repara de vez em quando. E foi pensando nisso que, entre conversas longas e deliciosos cafés, decidimos eu e a pesquisadora Mayra fazer um projeto para falar sobre esse Brasil, esse do cotidiano, o que se escreve com S mesmo.

“Brasilidade”, do artista carioca Ernesto Neto.

E foi ai que surgiu #obrasilcoms: uma biblioteca virtual que investiga e cataloga tudo isso sobre a diversidade da identidade brasileira. Artigos, imagens e iniciativas que lançam um novo olhar sobre os nossos “pre-conceitos” e nos fazem pensar sobre um Brasil… com S. O projeto acontece lá no facebook e você pode participar usando a hashtag #obrasilcoms para falar sobre a sua percepção a respeito do tema. Segue a gente lá e compartilhe o seu Brasil com S!

1 Comentário | Categoria(s): #obrasilcoms

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