Textos

Bonequeiras: uma outra sede, outra mulher.

Elas começam na infância, fazendo da terra uma outra sede, a de brincar. Constroem suas primeiras bonecas, não de pano, de barro. Molham as mãos na argila e moldam uma face. Dão graça ao rosto, ar à pequena, vida à menina. Enquanto as mães fazem panela, elas se inventam a criar. Estudam as feições como se fizessem caretas. Arriscam uma cara fechada quando observam que os meninos são chamados de Mestres e elas de Donas. Aventuram-se então, a serem Mestras. Mestras do barro. Bonequeiras.

Pesquisando o barro, me deparo com essas artesãs. São elas seguidoras de toda uma trajetória de mulheres da família. Da bisavó à avó; da mãe às tias. Do pote aos vasos; das moringas às bonecas. Até o filtro de barro é enfeitado como uma moça bonita. Embelezar é função tão essencial quanto manter a água fresca. E o que é bonito não é o outro, é a sua própria face. Quantas bonecas se assemelham às suas donas, suas filhas e amigas. Os olhos grandes e sedentos, a boca vermelha e apaixonada, a pele morena e queimada como barro. O nariz é largo e, mais importante, é seu. Grande parte dessas mulheres financiam os estudos dos filhos com o ofício e se libertam da única condição de donas do lar para donas também de si.

Recordei-me da minha própria infância. Brincar com bonecas de longos cabelos loiros na mansão de 3 andares cor de rosa era com as amigas. Na minha casinha de madeira, eu era o enchimento de espuma dentro de vestido vermelho e a cabeça de bola de gude. Adorava inventar as minhas histórias e foi então que comecei a rabiscar. Lembro-me de desenhar, certa vez, minha mãe. Minha professora de artes insistia em colocar na ponta do lápis as proporções que eu deveria seguir. Enquanto isso, minha mãe me pedia para reproduzir uma foto em que ela se parecia mais com uma musa do cinema americano do que a filha da minha avó nordestina. No meu papel, então, ficou assim: o rosto de minha mãe era mais largo, seus lábios finíssimos e seu cabelo bagunçado. Eu exagerava aquilo que achava belo.

Vira e mexe, a minha vida ainda se esbarra nessas mulheres em busca dos retoques e das proporções. Mas é, então, que me deparo com as bonequeiras e fico feliz. Que meninas ainda brinquem de ser como elas, de se pintarem à sua beleza, aos seus toques e traços. Que sejam outras mulheres, ao molde de seus próprios narizes.

Texto: Ana Luiza Gomes
Foto: Filtro de Barro de Irene Gomes da Silva, de Coqueiro Campo, MG.

 

 

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