#vovomeinspira

#VOVOMEINSPIRA por Paula Sacchetta

Era para eu e Paula compartilharmos o mesmo teto, quando eu buscava casa para morar no começo do ano, ela me ofereceu um puxadinho. Imagine as conversas que teríamos nas mesas de café. Mas a vida me apresentou algumas surpresas e compartilhamos, então, de uma paixão maior, a pela nossas avós. Conto sobre esse resgate importante que está sendo me lembrar do projeto #vovomeinspira e retomo ele com esse texto lindo da Paula, obrigada.

Ela era do tipo que estragava os netos e que fazia tudo tudo que a gente queria. Tenho tido uma saudade esses dias… Saudade de ver Planeta Terra domingo à noite na TV Cultura com ela e nem saber que a música era do Caetano.

Saudade de ir dormir na casa dela e no dia seguinte fazer tudo que eu queria, do café da manhã na padaria ao cinema no fim da tarde. Quando ela mudou pra minha casa, era pra cama dela que eu corria com medo quando os móveis começavam a ranger no meio da madrugada. Ainda acordava ela umas doze vezes incomodada “vó, você tá roncando muito, será que dá pra parar?” e nós duas espremidas na cama tamanho “de viúva”. No dia seguinte meu pai já sabia, era lá que ia me acordar na hora de ir pra aula. Toda noite ela vinha e me dava moeda, que era pra gastar em bala no dia seguinte, na cantina da escola.

Saudade do bolo de café com chocolate dela, que eu sigo a receita mas que nunca fica gostoso igual. E do patê de atum, que ela me ensinou a fazer pequena e que eu achava que era um grande prato e mega elaborado, e portanto, eu uma super cozinheira. Saudade das calças de prega dela, que tinham que estar sempre bem passadas, dos casaquinhos de lã, das mãos que estavam sempre geladas, até no alto verão, e do chá que sempre era o mais quente do mundo e que eu não entendia como ela não queimava a língua.

Saudade de quando ela me trazia língua de gato da Kopenhagen ou chocolate de chumbinho. Saudade da coleção de postais, de moedas e de arrumar os colares dela quando todos tinham virado um nó só. Saudade de ir almoçar na casa dela, que tinha cheiro de casa de vó e sempre música clássica no rádio.

Saudade até de escutar as histórias do Shakespeare, lidas, num cd que ela trouxe da Inglaterra e que eu achava um saco, mas que escutava igual só pra fazer companhia pra ela. Saudade dela na cabeceira da minha cama lendo “Um conto por dia” pra mim, de histórias com os personagens da Disney, e mais tarde me dando a Divina Comédia do Dante pra ler sozinha ou sua linda coleção do Machado de Assis, de páginas já amareladas pelo tempo. Saudade de folhear as páginas da Enciclopédia Britânica quando eu nem sabia ler, mas sabia exatamente o volume e a página pra encontrar as fotos das raças de cachorros: era sempre igual, fazíamos os mesmos comentários sobre cada foto, num ritual ensaiado. Saudade até dos papos malucos que a gente tinha quando ela já estava com o Alzheimer avançado, eu ficava aflita e meu pai dizia pra “entrar na viagem dela”.

Saudade de ir com ela ao shopping, comprar um all star rosa de cano alto ou o new ballance da moda que meus pais tinham dito que “só no aniversário”. Saudade de ir no clube, ficar no parquinho, tomar sorvete, ver as araras e passar o dia com o pé na areia, entre aqueles eucaliptos gigantes. Saudade de colocar aquele óculos de mil graus e lente grossa que me deixavam até tonta, de sair pela casa com os sapatos de salto alto dela ou com os tamancos de madeira Dr. Scholl, que faziam barulho no azulejo da cozinha.

Saudade do perfume dela de lavanda ou “água de colônia”, do cheiro de sabonete phebo que ficava no banheiro úmido depois do banho e do relóginho de couro de pulso, que sempre estourava a pulseira ou acabava a bateria e que a gente ia trocar no japonês relojoeiro da rua dos pinheiros.

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#VOVOMEINSPIRA por Michele Lerner

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” para vovomeinspira@gmail.com

Tive avós maravilhosas… mas quem não tem? Especialmente, uma delas é minha guia-mestre, desde sempre.

Não consigo me lembrar exatamente quando isso começou, se ela ainda era viva, ou não. A verdade é que neta temporã, tive poucos anos de covivência com esse ser tão elevado, que sinceramente, tudo o que lembro dela, pode realmente, não ter existido…. ou sim. Costumo dizer que criei uma utopia e essa mulher monstro que foi, me inspira TODOS os dias para eu ser mais parecida com ela, para eu tocar e mexer com esse mundo, o que me dá cada vez mais força a ser cada dia mais eu…

Minha avó era aquela mulher que não espera ser feito. Ia lá e fazia. Agregadora que só ela, sua casa vivia cheia, pois o mais importante da vida, é ter quem a gente ama por perto. Em minhas descobertas (pois não tinha a maturidade necessaria para saber por conta própria), vejo que sou um retrato, puro xerox do que ela foi…- tudo muito natural, inato a mim. E isso me enche de orgulho.

Minha vó chegou criança ainda aqui no Brasil. Vinda da Rússia – quando Odessa ainda era parte daquele pedação de terra- chegou aqui e seu nome de batismo mudou. Rosa. Nunca mais soube como era seu nome em Íidiche ou em Russo… cresceu em terras tupiniquins misturando tradições judaicas milenares, ao candomblé, espiritismo e muito carnaval. Para ela não existia o diferente. O negócio era agregar… Desse samba todo, criou-se o mito: não havia quem, na comunidade judaica dos anos 1940, 1950 no bairro do Bom Retiro, que não soubesse, ou que nunca havia escutado sobre a Dona Rosinha. Sempre ao lado do meu avô, queria mesmo era fazer a diferença. E assim o fez, tocando as pessoas com sua música, sua dança, sua alegria, até seu último dia. Eu tinha 9 anos, quando ela apareceu para mim em meus sonhos, dizendo: “Fique tranquila que eu estou bem. Agora eu estou feliz.”… E assim ela foi continuar a ajudar as pessoas, em outro plano.

Morro de felicidade quando me dizem que sou seu retrato e cada vez mais fico parecida com ela. Isso não eh pensado, nada ensaiado. Era pra ser mesmo… Como tudo em sua vida…

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#VOVOMEINSPIRA por Helena Machado

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” para vovomeinspira@gmail.com

Vovó me inspira a viver tudo o que eu quiser

Minha avó é a mais velha de muitos irmãos, de uma família marcada por acontecimentos que separaram todos eles muito cedo. Mais cedo ainda, ela entrou em um casamento sofrido, mas que nos daria um avó muito amado. Apesar de todas as amarras, buscou ser feliz como pôde. Quando eu nasci, ela já tinha quase 50 anos. Minha visão a seu respeito sempre foi de uma mulher forte, independente, que dirigia vários quilômetros em seu Fusquinha pra conhecer outros lugares. Em sua casa, tinha muito a nos oferecer, principalmente festa. Cresci vendo minha avó envelhecer e não perder sua essência, sua alegria. Hoje ela ainda colhe laranja no  quintal pra dar o que tem de melhor aos seus.

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#VOVOMEINSPIRA – Emy Kuramoto

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” para vovomeinspira@gmail.com

Meu avô me inspira a trabalhar com as mãos, a valorizar as pequenas coisas. Num mundo de tantas opções, ele me dá um norte, faz lembrar de onde vim e quem sou.

Meu avô é um peixe

Ele sempre foi pescador, não por profissão, mas por gosto. Saboreava aquele ritual, a espera, a iminência de um peixe grande e brilhante ser atraído por sua isca, a euforia da fisgada, a pequena luta para tirar o bicho da água, o ritmo que se estabelecia entre o girar do molinete e o puxar da vara… O tronco é forte, as pernas firmes, os pés chatos e os dedos robustos, características que, de alguma forma, fazem crer que nasceu mesmo para pescar. Adora contar vantagens, aumentar a dimensão dos seus feitos e as passagens gloriosas de sua vida: pescador nato! O costume de fantasiar eventos e acontecimentos, de desprezar a fidelidade aos fatos, por vezes irritava a família. É difícil separar devaneio e realidade na vida deste homem. Acessar fatos antigos, do modo que eles realmente aconteceram, torna-se, muitas vezes, tarefa intrincada e frustrada. No entanto, seus olhos refratários, que tanto distorciam, também embelezavam.

Na velhice, foi morar perto do mar numa casinha de madeira, onde tratou de instalar uma horta e colecionar orquídeas. Lá acolhia os netos nas férias e feriados. Costumava fazer varinhas de pesca de bambu para eles, todas curtinhas com anzóis pequenos e bóias bicolores na linha que era para as crianças verem os peixes fisgando a isca. Saía, então, com 4 netinhos enfileirados atrás dele, feito patinhos, cada um ombreando sua varinha, pisando nas pegadas largas que ele deixava na areia. Cinco personagens peculiares naquela praia de gente estilosa da capital, cheia de surfistas e suas namoradas platinadas estiradas na areia. O destino era um pequeno rio que desembocava no mar e ficava na extremidade da praia. Era a trupe do meu avô! Pescávamos carapicus aos montes, que passavam em cardume nas águas frias que desciam da serra. Os eventuais vizinhos de pescaria não obtinham o mesmo sucesso dos netinhos do meu avô, apenas assistiam a pescaria farta que vovô orquestrava. Mal sabia a concorrência que o anzol e a isca tinham que ser pequeninos para que o peixe pudesse abocanhar de uma só vez e não mordiscar pelas beiradas. Vovô também se utilizava do truque de jogar areia na água, feito chapisco, para atrair o cardume, algo que parecia uma pequena mágica aos olhos de uma criança. Às vezes vinham perguntar-lhe o segredo e, mesmo com seu português parco, ele, falastrão, dividia dicas e histórias. Em dias de pesca gorda, contávamos mais de 100 peixinhos! Voltávamos pra casa e limpávamos aquela caixa cheia de peixes. Minha função naquela pequena linha de produção doméstica que se instalava era retirar as escamas com uma faquinha. Meu primo eviscerava e minha vó preparava os peixes para comermos no almoço. Eu não sabia, claro, mas ali aprendia, sem tagarelices e lições de moral vazias, a valorizar naturalmente o trabalho e aquilo que comia, a ter apreço pelo ciclo que os alimentos cumprem até chegar à mesa.

Vovô é mesmo uma criatura das águas. Ingressou na marinha japonesa aos 20 anos e foi para a II Guerra a bordo do último porta-aviões japonês a ir a pique, designado para uma missão de sacrifício no Pacífico, naquela que seria a maior batalha naval da história contemporânea, cenário da atuação dos primeiros aviões kamikazes. Foi um dos poucos a poder contar essa história, passando horas aflitas nas águas filipinas, nadando e tentando sobreviver amarrado a um pedaço de madeira naquele mar salpicado pelas bombas dos aviões americanos, que insistiam em não lhe atingir. Os causos de guerra se entremeavam a uma história romântica que meu avô, claro, adorava enaltecer. Dizia ele que deixara uma namorada no Japão (que não era minha avó) e que ela lhe remeteu cartas durante o período em que esteve em batalha, dizendo que o esperava. Finda a guerra, teve que frustrar as expectativas da moça por um motivo que a ele fazia todo sentido: ela era fina, tinha estudos; ele não. Ele, em verdade, voltava da batalha para um Japão arrasado, sem ter onde cair morto. As paisagens internas e externas se misturavam. Voltou para sua cidade num trem tão abarrotado de gente, bagagens e desesperança que, conta, teve sorte ao conseguir um lugarzinho perto de uma janelinha aberta, onde conseguia respirar alguma coisa que não fosse o fedor daquele vagão e, imagino, as incertezas dolorosas de toda aquela gente. Talvez num coração preenchido por tantas mudanças não coubesse mesmo um amor que precedesse tudo aquilo.

Na década seguinte, casado e com 3 filhos, lançou-se ao mar novamente, feito história que se renova. Desta vez zarparam para além do canal do Panamá, rumo ao Caribe, de mudança para a exótica República Dominicana, onde conseguira alguma terra para plantar, por meio de um acordo feito entre o Japão e a pequena ilha caribenha, governada à época pela ditadura corrupta e assassina de Rafael Trujillo. A terra prometida, no entanto, era tão árida e arenosa que o plantio ali era impraticável. A promessa de fartura foi logo ganhando contornos do que realmente era, uma propaganda enganosa, filhote bronco dos arranjos e tratados do pós-guerra. Vovô partiu então para uma nova mudança para terras mais férteis, encontradas na cidade de Jarabacoa. Ali mamãe e meus tios estudaram em escola católica, sem serem cristãos, nem dominarem minimamente o espanhol. Mamãe foi batizada com o melodioso nome de Maria Carolina, mesmo com dificuldades (até hoje) de pronunciar corretamente o “L” de seu nome postiço. Ela conta que lá viu negros pela primeira vez. Eram quase todos negros, uma paisagem humana de outro mundo. Mamãe admirava-se com a habilidade das mulheres carregando latas na cabeça, espantava-se com os pré-adolescentes andando nus, exibindo os primeiros pelos publianos, e com os furtos praticados de modo tão habitual, algo que nunca tinha visto antes. Muitos dominicanos também passaram a conhecer gente amarela ali naquele movimento imigratório confuso e torto. O Caribe, palavra de cartão postal, que traduz férias, sol e paraíso, foi, para mim, ganhando ares invernais à medida que ia conhecendo o caribe das minhas famílias (a parte paterna também veio de lá). Vovô foi tocado de lá com o assassinato de Trujillo e a decorrente convulsão que se instalou no país. Atearam fogo em sua casa. Os japoneses trazidos pelo ditador morto já não eram mais bem vindos. Os meus, minha gente, cumpririam seu périplo malogrado desembarcando aqui no Brasil nos não tão distantes anos 1960 para viver anos difíceis. As crianças tiveram que trabalhar na roça e a casa era de pau a pique, feito aquelas que a gente vê nos livros da escola quando aprendemos sobre o ciclo do Mal de Chagas.

Apesar das truculências que a vida lhe impôs repetidas vezes, meu avô é um sujeito carismático, de muitos gracejos e riso fácil, que exerce certo fascínio sobre as pessoas, que logo se enredam em suas conversas mirabolantes, nos inúmeros causos que tem armazenado. Também é um cara de muitas crendices. Ostenta sobre sua penteadeira, uma imagem de Nossa Senhora e um Buda juntinhos formando uma espécie de altarzinho com outros objetos “sagrados”. Quando aprendi o que era sincretismo religioso, recorria à imagem mental daquela penteadeira para não esquecer a palavra nova. Nos últimos anos, coletou na rua um pedaço de madeira, porque enxergou ali a imagem de Nossa Senhora e, claro, juntou aquele toco disforme a sua galeria religiosa. A casa dele sempre foi assim, um amontoado de coisas que faziam sentido pra ele, sem compromisso com tendências, estilos ou padrões de “boniteza”, coisas essas tão estrangeiras na vida daquele homem que ele certamente acharia graça de tudo isso. As casas onde vovô morou me pareciam museus de bizarrias. Na sala, ao lado da TV, havia, pousada num galho, uma coruja empalhada com olhos de bolinha de gude e marcas de um tiro de raspão na cabeça; na parede, pendia um desenho, feito por ele, de um tubarão viola que ele havia pescado, junto a anotações de peso e comprimento; no canto da sala, um tronco enorme que o mar trouxe num dia de ressaca repousava feito monolito (vovô alegava ver ali o formato de um peixe e achava aquilo simpático); na parede, exibia com garbo os pomposos diplomas do “Melhor abacaxi do estado de SP”, que conquistara nos anos 70, quando plantava a fruta, da variedade Hawai (acho que hoje trocaram o nome por Bauru), em Lorena. Já se dedicou a esculpir passarinhos de madeira, fez seu próprio mini-templo budista, construiu uma réplica em miniatura de sua casa para sua cadela de estimação, conservava com zelo as ferramentas e a bicicleta que vieram do Japão com ele de navio. Para ele, sujeito que passou por poucas e boas, por penúria e privações, tudo tem conserto e pode ser reaproveitado, até seus chinelos de borracha ganham alças novas quando as originais arrebentam, até um amontoado de pregos usados ele insiste em desentortar e guardar num pote de vidro para reutilizar um dia. Não se trata de nenhuma onda ecológica, de nenhum movimento para banir sacolas, gente assim conserva e guarda porque faz sentido, porque respeita (e não idolatra) os objetos. Gente assim dá valor às coisas, dá valor à vida e ao que se faz dela. É assim o universo do meu avô. Falar dele daria um dia inteiro de conversa. Ele parece não caber numa vida só. Ele é de onde eu vim. Ele me constitui e vive em mim.

[publicado no site da Emy, o TOFU BLOG]

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#VOVOMEINSPIRA – Juliana Veiga

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” para vovomeinspira@gmail.com


“Seu Veiga” foi um homenzarrão de aproximadamente um metro e meio. Que desejava ter em sua lápide a frase “Aqui jaz um pequeno grande homem”. E bem que merecia.

Seu Veiga foi meu avô. Nasceu de família muito simples e viveu todo tipo de perrengues, coisa comum no início do século passado. Filho mais velho de uma casa sem pai, a grana era curta, o estudo era pouco e, ainda por cima, a saúde era delicada. Mas meu avô aprendeu muito com suas fragilidades. E de tanto respeitá-las, tornou-se uma das pessoas mais fortes que conheci na vida.

Se a vida era difícil, o caráter irreparável trouxe a segurança de uma vida exemplar. Quando a doença chegava, cuidava de tudo com tanta disciplina que deu pra gente o privilégio do seu 98º aniversário. Por conta dos poucos anos de estudo, buscou nos livros e na vida os ensinamentos que escola nenhuma poderia dar.

Por essas e por outras coisas, meu avô me inspira a ser frágil para saber ser forte. A me ver pequena para aprender a crescer. A olhar para o que não tenho e ir buscar o que preciso. A chorar sem medo de sentir para deixar a dor passar. A morrer de saudades todos os dias e a despertar na alegria de ter tido o melhor avô do mundo.

 

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#VOVOMEINSPIRA – Anita Giansante

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto novo. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” paravovomeinspira@gmail.com

Eu cresci entre esperas pela volta da minha avó de suas viagens, querendo escutar suas histórias, ver fotos e é claro – como toda boa criança – ganhar uma lembracinha de presente. Ela ia para todos os cantos de Paris ao Egito ao Alaska a Venezuela, depois que ela se foi encontrei um cartão postal que ela mandou do Sri Lanka antes mesmo do meu nascimento, foi uma surpresa gostosa, ela nunca tinha me contado dessa viagem.

A convivência com essas histórias e imagens me marcou muito, ampliou a noção de mundo que eu tinha. Quando era pequena a família toda chegou a fazer viagens, mas com o tempo começei a buscar sozinha meus destinos, assim como ela na maioria das vezes juntava um grupo de amigas e seguia para algum canto desse mundo. A viagem que mais me marcou dela foi a do Egito, ela já tinha mais de 70 anos e lá foi ela, mais uma vez.

Foi ela que me deu minha primeira máquina fotográfica como presente de viagem, eu devia ter por volta dos 9 ou 10 anos. Saí fotografando tudo que via. Apesar do meu pavor de avião eu simplesmente amo o choque cultural de viagens, adoro resgistrar todas as paisagens que vejo e sempre explorar lugares novos. O mundo a cada destino parece cada vez maior assim como a vontade de explorar cada vez mais.

Minha avó me inspira a viajar e buscar sempre novas fronteiras, ela me mostrou que não importa quão longe você vá as coisas e pessoas que você conquistou pela vida sempre vão estar com você.

Infelizmente depois de grande nunca tivemos a oportunidade de fazer uma grande viagem juntas, mas herdei seus seus sapatos e costumo usar eles quando viajo, ao fazer isso é como se de certa forma eu continuasse a caminhada que ela começou.

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#VOVOMEINSPIRA – Ana Luiza Gomes

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto novo. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” paravovomeinspira@gmail.com

Com 14 anos eu já não me aguentava de vontade de ir morar em outro lugar. Eu não tive festa de 15 anos, eu tive algo ainda melhor, fui passar 1 mês na Espanha estudando espanhol. Ok, estudar espanhol era o menor dos objetivos, rs. Foi a desculpa perfeita para ver de perto o quadro da minha vida – “As Meninas” de Velasquez. Aos 16, ganhei meu tão-sonhado-intercâmbio. E, graças ao plano real, um dólar virou um real e eu era uma pessoa mais feliz na então possível Austrália. Os seis melhores meses da minha vida (guardados com muitas saudades). Daí, demorou. Meus pés coçavam para ir ao lugar dos sonhos: Bauhaus, Weimar, Alemanha. Aos 24, lá fui eu. Dividir casa com os sete mais queridos alemães que já conheci. E depois, para Postdam. E de lá, para chegar ao coração: Berlim. No caminho, teve uma pedra e eu voltei para o Brasil. Fiquei aqui em Beagá um tempo até que decidi me aventurar em São Paulo. E voltei. 15 dias na Inglaterra. 10 dias em Frankfurt. Férias para mim é alugar apto em algum lugar no mundo e viver a rotina do local.

Vovó nasceu numa vila perto de Natal. Disse que o passatempo de jovem era adentrar pelo sertão com facão na mão e cortar caminho até o litoral. Casou-se e se mudou para a capital. Entre um perrengue e outro, foi parar em Recife para trabalhar e por lá fez família. Vieram tentar a chance em Belo Horizonte, numa longa viagem pelo Rio São Francisco. Não fincou raízes por muito tempo, lá se foi para Brasília. E, então, foi a vez de Cuiabá. Longas viagens até São Paulo para abastecer de mercadoria o seu armarinho. Vovó adorou visitar Curitiba, talvez, se não fosse o frio, teria se arriscado passar uns meses por lá.

Então, sabe como é né. Vovó me inspira a muitas coisas na vida: ser forte, ser persistente, trabalhar, ser humilde, ter fé, ter o coração bom, amar. Mas, fazendo essas contas ai em cima, não teve outra: vovó me inspira a mudar. Não importa para onde, importante é sair do lugar. Buscar, buscar, buscar.

 

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#VOVOMEINSPIRA – CAROL NOGUEIRA

Com tanta saudade da minha avó e em sua homenagem, decidi lançar esse projeto novo. Depoimentos de netos que se inspiram em seus avós para fazer o mundo diferente. A todos os que desejam mandar suas histórias, basta completar: “vovó/vovô me inspira a…” para vovomeinspira@gmail.com

Eu não poderia ter chamado outra pessoa melhor para começar essa história comigo, afinal, foi a minha prima Carol quem fez o projeto dos meus sonhos virar realidade: desenhamos e escrevemos juntas um livro sobre a história de vida da nossa amada vovó Josélia. E é a ela quem agradeço hoje, por contar um pouco pra gente sobre as suas vovós:

Minhas vovós me ensinaram a… TRABALHAR COM AS MÃOS

Elas não podiam ser mais diferentes. Uma, sertaneja. A outra, carioca – com raízes europeias.

Uma morava no prédio ao lado – pra onde eu fugia sempre que a empregada descuidava da porta. E mergulhava num mundo de rendas, porcelanas, bonecas antigas, cachinhos de cabelo,lacinhos de fita.

A outra morava longe, mas vinha sempre – e quando vinha, me enchia de costurinhas, viés, galões, cianinhas, botões. E também farofa, suspiros, carinhos. E me chamava: Caró-zinha. Deum jeito que só ela.

Em comum, além da coragem e da liderança doce com que conduziam suas famílias, elas tinham o zelo, o dom, o cuidado e o amor por tudo o que é manual.

Elas falavam com as mãos, cozinhando, costurando, pintando e enfeitando. Sem saber, me deram de presente um montão de ofícios que se tornaram meus companheiros da vida. Que eternizaram elas em mim.

A cada bolo que faço, refaço um pouco da minha vó Kilda. A cada projetinho de costura, realizo minha vó Josélia. Todo desenho, toda pintura que faço é uma invocação à minha vó Kilda.Cada vez que cozinho almoço, sou um pouco minha vó Josélia. Invento brinquedos com papel cortado encarnando minha vó Kilda. Invento moda todos os dias sendo minha vó Josélia.

Minhas avós me inspiram a realizar, a querer fazer, a reservar um tempo precioso só para mim e para minhas invencionices. Só pelo prazer de. Só para fazer.

Elas vivem pra sempre em mim nas coisas que me ensinaram.

 

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