Aberta residência para editores independentes

A Feira Plana é a principal feira de publicações independentes do Brasil e já está a caminho de sua quarta edição em 2016. Sua idealizadora e realizadora chama-se Bia Bittencourt.


Bia é designer, trabalhou na Folha de SP e na MTV, e hoje divide a curadoria da Feira com o artista Carlos Issa. Foi através da curadora, produtora e também editora de zines independentes, Bebel Abreu, que Bia entrou em contato com o MIS – SP (Museu de Imagem e Som de São Paulo) grande apoiador e local onde acontece a feira.

Recentemente, a Plana lançou uma Biblioteca, espaço de compartilhamentos de livros e zines independentes no Elevado, em São Paulo. Não bastasse essa novidade, vem outra ainda mais incrível:

Residência Plana, é uma residência que contemplará 3 projetos de publicação independente com a oportunidade de frequentar durante um mês as dependências da editora Cosac Naify e as gráficas Meli-Melo Press e/ou Ipsis para editar, produzir e imprimir seus projetos que estarão em janeiro de 2016 na Feira Plana. A partir de 15 de agosto, neste link, você poderá se inscrever.

Por aqui, Bia bateu um papo com o A Pattern para contar mais sobre a Residência:

De onde surgiu a sua vontade de fazer a Feira Plana?
Veio de uma mistura entre a minha própria produção de publicações com uma viagem que fiz pra Nova York, onde conheci a histórica Printed Matter e a feira de livros que eles fazem no MOMA. Quando voltei pra São Paulo, escrevi o projeto sobre uma Feira que reunisse artistas e editores independentes.

Como aconteceu a parceria com a Cosac, Meli Melo e Ipsis?
Estive na Bahia com a editora da Cosac, Florencia Ferrari, e ela me sugeriu algo que unisse a Plana e a Cosac. Fomos conversando, unindo mais pessoas na conversa, a designer Elaine Ramos, o artista Carlos Issa e aí surgiu a residência num almoço divertido. Convidei as gráficas Meli-Melo e a Ipsis para integrar o time, eles já são parceiros desde o ano passado.

Que tipo de projeto a residência está buscando encontrar no processo seletivo?
Projetos que me surpreendam, boas ideias, projetos de cair da cadeira.

A Feira Plana tem planos de acontecer com novas edições em outros estados do Brasil?
Por enquanto ainda não, já recebi alguns convites, mas nada muito concreto. A Feira Plana pesa toneladas, é uma estrutura grande, confesso que não tenho um tratorzão ainda pra descolar ela de um lugar pro outro e que seja perfeito.

—-

Para saber mais informações:feiraplana.org

 

Dicas de Exposições do Andarilha

Em minhas andanças pelo projeto Andarilha, passo em exposições de arte, fotografia, moda, arquitetura, design. Algumas delas eu indico a visita pela hashtag #PassoAqui. É só seguir a gente lá no instagram (@_andarilha_) e acompanhar nossos passos ;]

Por aqui, compartilho algumas das dicas:

Ocupação Elomar: no itaú cultural, uma casa sertaneja é montada para contar a história do compositor, músico e arquiteto Elomar Figueira Mello. Até 23 de agosto. Mais informações aqui: www.itaucultural.org.br/programe-se/agenda/evento/ocupacao-elomar/

Bailes do Brasil: na Solar Marquesa de Santos  [Rua Roberto Simonsen, 136 – Sé], os curadores Jum Nakao e Ricardo Feldman transformam 6 salas em um verdadeiro baile. Como baile bom é baile cheio, foram selecionadas 230 fotos que mostram a relação dos nossos trajes com a ginga brasileira. Imperdível! Até 25 de outubro. Para saber mais, leia lá no Andarilha: projetoandarilha.com/bailesdobrasil

A experiência da arte: no Sesc Santo André, vale a visita. A exposição é um lugar de experimentar e é isso mesmo que o visitante (seja ele a criançada ou os adultos brincantes) é convidado a interagir e sentir obras de importantes artistas contemporâneos, como Vik Muniz, Ernesto Neto e Wlademir Dias- Pino. Para saber mais: www.sescsp.org.br

—-

Quem quiser indicar exposições também, é só usar #PassoAqui ou tagear nosso Instagram!

 

 

 

 

Zica Bérgami

Ela é mais conhecida por seus prêmios como compositora, mas Zica Bérgami é dos traços mais belos da arte brasileira. Da série: artistas que gostaria de ter conhecido para o Projeto Andarilha.

 

Comente | Categoria(s): arte, ilustração

Inês Schertel na Revista Bamboo

“Há um movimento recente de designers que estão voltando para o interior e criando uma produção que, em contraponto à frieza do ‘arrojado’ e do tecnológico, é quente e conectada com o mundo natural”, diz a colunista Adélia Borges para a revista Bamboo de julho. A importante curadora e jornalista especializada em design entrevista a gaúcha Inês Schertel, designer que deixou São Paulo após 24 anos de trabalhos e retornou ao campo para fazer peças de feltro artesanais. Leitura importante sobre o retorno aos interiores – lá na Bamboo.

 

Exposição Fuga ou Desculpa do Yorka

No dia 08 de agosto às 19h acontece em Curitiba a exposição do Leonardo Ceccatto, mais conhecido como Yorka. Conheci o Leo ano passado e fiquei feliz ao ver um menino tão novo, ainda não tinha nem prestado faculdade ainda, ocupando o ateliê do tio e as ruas da cidade. Vai longe, Yorka!

Na casa do lado (2137) do antigo Atelier SOMA (Atelier SOMA Rua Brigadeiro Franco, 2119, Curitiba). Clique para o evento no Facebook.

A moda que eu quero seguir

Recentemente uma conta no instagram me chamou a atenção. A fotógrafa cearense Rafa Eleuterio aceitou o desafio: 365 dias usando só marcas do ceará. Fiquei curiosa, já faz algum tempo venho seguindo algumas marcas de moda pelo Brasil, em especial pelo nordeste, que vendem através das redes sociais (ou em sites de venda online) e produzem em menor escala.

¡que venga!, coleção da marca Mood

A primeira marca que fisgou meu olho foi a Mood, de Fortaleza, de Isa de Paula Guarlberto e Rachel Schramm. As estampas tropicais, o clima de praia. Está tudo lá. Mas está também o cabelo solto, o corpo com mais curvas, a palha e os tons pasteis das casas locais. Está lá a história, a tradição, o cotidiano. Nas fotos de uma das criadoras da marca, Isa, encontro algumas imagens que caminham no sentido do litoral para o interior. Mandacarus viram cenários mais que contemporâneos. E a fotografia de moda busca se inspirar mais e mais em terrenos próximos!

Coleção do tcc de Isa de Paula, uma das criadoras da marca Mood

Afinal, o que o Ceará tem de muito especial para além do litoral? Me parece que o exercício é se voltar para o sertão e as marcas cearenses vão homenageá-lo, diz o jornal.

Expedita já nasceu assim, filha de Lampião e Maria Bonita. Um trabalho de Renata Priscilas e Isadora Diogenes, fruto de uma paixão por chitas e por uma avó sertaneja. A marca tem apenas 7 meses mas já chama a atenção por mergulhar de cabeça na beleza de um sertão verde e rico. Muito rico: “mandacaru também dá flores”, avisam elas.

Não é só o Ceará – você pode substituir o estado nessa leitura aqui por qualquer outro. Na moda brasileira, o oposto de litoral me parece ser urbano. A pergunta é: mas e o cerrado, as montanhas, as serras, as regiões pantaneiras, as chapadas, a caatinga e até as regiões ribeirinhas?

Coleções da jovem marca Expedita.

Os calçados também passeiam na direção dos interiores. Algumas marcas, como fridíssimavitalina, vão buscar nas cores e no couro inspirações para criar. O resultado é uma moda que me parece mais possível e feita em menor escala. Isadora explica:

“Muitas meninas ainda pedem peças da primeira coleção que estão esgotadas, pois estão acostumadas a um ritmo de produção fast fashion. Mas cada vez mais já conhecemos pessoas mais conscientes na hora de consumir.”

Que essa consciência venha para quem consome e também para quem produz. Que continuem surgindo mais marcas assim, inspiradas em seus interiores, nem sempre geográficos, mas mais próximos dessa menina do cabelo solto e descalça na sua terra, seja ela feita de areia, de água, de grama, de terrenos pedregosos e tantos outros por onde caminhar.

Que essa moda pegue. Essa eu quero seguir com passos andarilhos, sempre.

1 Comentário | Categoria(s): moda, pesquisas

Bonequeiras: uma outra sede, outra mulher.

Elas começam na infância, fazendo da terra uma outra sede, a de brincar. Constroem suas primeiras bonecas, não de pano, de barro. Molham as mãos na argila e moldam uma face. Dão graça ao rosto, ar à pequena, vida à menina. Enquanto as mães fazem panela, elas se inventam a criar. Estudam as feições como se fizessem caretas. Arriscam uma cara fechada quando observam que os meninos são chamados de Mestres e elas de Donas. Aventuram-se então, a serem Mestras. Mestras do barro. Bonequeiras.

Pesquisando o barro, me deparo com essas artesãs. São elas seguidoras de toda uma trajetória de mulheres da família. Da bisavó à avó; da mãe às tias. Do pote aos vasos; das moringas às bonecas. Até o filtro de barro é enfeitado como uma moça bonita. Embelezar é função tão essencial quanto manter a água fresca. E o que é bonito não é o outro, é a sua própria face. Quantas bonecas se assemelham às suas donas, suas filhas e amigas. Os olhos grandes e sedentos, a boca vermelha e apaixonada, a pele morena e queimada como barro. O nariz é largo e, mais importante, é seu. Grande parte dessas mulheres financiam os estudos dos filhos com o ofício e se libertam da única condição de donas do lar para donas também de si.

Recordei-me da minha própria infância. Brincar com bonecas de longos cabelos loiros na mansão de 3 andares cor de rosa era com as amigas. Na minha casinha de madeira, eu era o enchimento de espuma dentro de vestido vermelho e a cabeça de bola de gude. Adorava inventar as minhas histórias e foi então que comecei a rabiscar. Lembro-me de desenhar, certa vez, minha mãe. Minha professora de artes insistia em colocar na ponta do lápis as proporções que eu deveria seguir. Enquanto isso, minha mãe me pedia para reproduzir uma foto em que ela se parecia mais com uma musa do cinema americano do que a filha da minha avó nordestina. No meu papel, então, ficou assim: o rosto de minha mãe era mais largo, seus lábios finíssimos e seu cabelo bagunçado. Eu exagerava aquilo que achava belo.

Vira e mexe, a minha vida ainda se esbarra nessas mulheres em busca dos retoques e das proporções. Mas é, então, que me deparo com as bonequeiras e fico feliz. Que meninas ainda brinquem de ser como elas, de se pintarem à sua beleza, aos seus toques e traços. Que sejam outras mulheres, ao molde de seus próprios narizes.

Texto: Ana Luiza Gomes
Foto: Filtro de Barro de Irene Gomes da Silva, de Coqueiro Campo, MG.

 

 

Comente | Categoria(s): Textos

Em Andarilha

Há alguns anos, eu tomei uma nova direção profissional: trabalhar com pesquisa. Depois de vários cursos, fiz uma viagem a São Paulo em visita a algumas empresas do ramo. E decidi começar um projeto autoral de pesquisa. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Talvez, a mais importante delas, vale a pena compartilhar onde tudo começou: aqui.

Desde que criei o A Pattern, olhar para fora virou um exercício diário. O que acontecia em Berlim. O que acontecia no Japão. O que acontecia em Austin. Treinei um olhar bem atento. Fiz uma rede fiel de pessoas em sintonia com esse jeito de ver. Pessoas que viraram amigos e próximos.

Mas, vira e mexe, a vida vem e te sacode. Eu fui levada a fazer o exercício oposto. Foi preciso olhar para dentro, para o que acontecia aqui mesmo, em minha volta. Momento de olhar para a história de vida de minha família: das andanças da minha avó pelo Brasil até onde eu me encontro hoje, caminhando pelo país. Esse trabalho de voltar para o que é interno me ensinou a ver preciosidades esquecidas. Percebi, então, que me construí uma pesquisadora ao avesso.

Enquanto os grandes bureaus estão digerindo uma avalanche de informações em busca da nova tendência por aí; volto meu trabalho para a matéria prima de tudo, o nosso cotidiano e a nossa trajetória de vida e família, em busca do que sempre foi naturalmente inspirador mas estava no fundo da gaveta.

Fui convidada a fazer trabalhos de consultoria nessa direção. Pesquisar o que é a nossa identidade e investigar como pessoas criativas traduzem suas origens e seu cotidiano. Tudo isso me levou a aplicar esse exercício à identidade de projetos, empresas, organizações.

Uma marca que se volta para o autoconhecimento é, no mínimo, corajosa. Em tempos de crise, eu diria, é ser esperta. Fico feliz em me encontrar com profissionais que são atentos para o que um momento de reformulação interna pode construir de positivo para a própria empresa. Ufa, o olhar se volta, finalmente, para o cotidiano. E o melhor de tudo é poder fazer parte desse movimento.

Propor uma série de oficinas, imersões e exercícios feitos à várias mãos em busca de traduzir como aquela marca vê o mundo e a língua que ela fala. Mas não mais a partir do que as tendências lá foram apontam como caminho. Não mais a partir do que os consumidores dizem que querem. Mas sim, a partir dos próprios rumos tomados, dos próprios passos, de onde surgiu aquela primeira vontade de se criar um novo negócio.

Avalanches de referências externas nos levaram a uma espécie de pasteurização do novo. Agora nos resta olhar para o que nos parecia velho conhecido e ver, então, o que ainda parece fresco, quase intocado pelo esquecimento e para o que é, finalmente, inspirador: nossa própria história de vida e nosso cotidiano.

Nesse rumo, construo uma nova casa, ou talvez seja melhor chamar de estrada. Andarilha é meio. É onde eu entrevisto pessoas criativas em busca do que, em sua trajetória e em seu dia a dia, as inspirou a fazerem um filme, uma música, uma escultura, um livro. É onde eu busco estimular: o vasculhar de gavetas e o reencontrar de fotos de família. É onde eu percebo que essa referência para a criação de qualquer projeto, nunca é saturada, pois está sempre em construção. Em andarilha.

Comente | Categoria(s): Projeto Andarilha

“A arte da lembrança”: Luiz Braga

A imagem dela era minha visão do trabalho do fotógrafo Luiz Braga. Cores do Pará, pelos olhos de Luiz, na exposição “A arte da lembrança”, no Itaú Cultural, em São Paulo.

 

Comente | Categoria(s): arte

“Largou as Botas e Mergulhou no Céu”

Antes de embarcarem na viagem de alguns meses pelo nordeste filmando o documentário “Largou as Botas e Mergulhou no Céu”, Bruno Graziano, Paulo Silva Jr., Raoni Gruber e Cauê Gruber fizeram uma série de entrevistas em busca de compreender um pouco mais sobre a tal “identidade brasileira” – ou seria, “entidade brasileira”?

A websérie “Tão Longe, Tão Perto” conta com 10 episódios interessantes sobre a construção do pensamento do que é ser brasileiro para profissionais como cineastas, poetas, fotógrafos, historiadores e até uma cozinheira de mão cheia! Cinco entrevistas por aqui e muito mais lá no youtube do Espaço Húmus. E ainda tem muita estrada pela frente nos próximos meses, só seguir lá no facebook do “Largou as Botas e Mergulhou no Céu”.

Crescida naquelas fazendas onde as coisas brotam e já são colocadas no prato, Mara Salles abriu seu primeiro restaurante com sua mãe, servindo almoço em Perdizes. Depois, nascia o Tordesilhas, seu restaurante e projeto de intervenção e investigação da culinária brasileira. Trabalhar com nossa culinária só poderia ser uma investigação bastante afetiva, que exige pés com a pele bem firme para cruzar as enormes distâncias, para viajar as fronteiras não geográficas mas, também, as de sabor que enchem as panelas Brasil afora.

De início, o entrevistado o africanista e historiador Salloma Salomão já reitera não acreditar numa noção de identidade brasileira, pelo menos, não como é apresentada, criação fabulosa de uma elite intelectual muito próxima das rodas de poder que massacram e reprimem as comunidades.

Para se falar uma história de identidade, é preciso um resgate profundos nos maiores confins, porque a história foi escrita porque quem tem costume de ocultar. É uma história plenamente aceita, como se tudo fosse terminar no branco, num mundo eurocêntrico que orbita em torno de si mesmo e classifica tudo que está na borda como exótico. Salloma insiste na necessidade de cavucar nas raízes do intelectual negro, das comunidades negras e seus levantes artísticos.

Carlos Ebert é fotógrafo e diretor de cinema. Foi participante ativo do Cinema Marginal e diretor de fotografia do filme “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla. A câmera de Ebert é sobre o deslocamento de um bandido que é idiota mas também brilhante, e acaba também sendo sobre o deslocamento de um novo fazer cinematográfico, que olha determinado para o próprio umbigo.

O segundo vídeo da série Tão Longe, Tão Perto pega sem medo a mão do poeta inquieto. Marcelino fala sobre um Brasil dos improvisos e da ternura, dos gritos que não podem e nem querem ser contidos, e do legado de teimosia e de inconformismo de sua escrita. Porque sem poesia teimosa, a vida é uma rua comprida com todas as luzes queimadas, e um cão com sarna que nela vagueia.

A socióloga, cineasta e curadora Isa Grinspum Ferraz, que serpentou e aprendeu por aí com Darcy Ribeiro, é clara: por trás de toda essa mitologia mestiça do Brasil, existe uma dura e complexa realidade. Ela recosta na cadeira, cita poetas políticos que inserem o povo brasileiro como protagonista da história. Ela própria versou quando contou a história de seu tio, Marighella, no documentário homônimo de 2011.

Related Posts with Thumbnails