Série de Entrevistas para canal de Cultura&Arte Online [2014, Espaço Húmus]: curadoria e produção de conteúdo / content curator and producer
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“Sentimo-nos cegos”

Conheci o trabalho do artista Ivan Grilo nas minhas primeiras pesquisas sobre cultura brasileira. Jamais imaginava que um ano depois estaria a caminho de Itatiba, visitando seu atelier. Ivan é leitor do meu antigo blog A Pattern: "fiquei feliz ao ver o trabalho entre as referências visuais que pesquiso diariamente”. Surpresa, tratei de acompanhar a sua carreira deslanchar.

Ivan é filho de Ivan – ele vai me pedir pra cortar essa parte. Mas eu peguei a mania dele. Enquanto ele redescobre acervos de museus, eu descubro suas histórias em uma parede cheia de fotos de família. Que ele guarda com cuidado, como o território que de poucos deve ser.

A estrada até Itatiba é importante. Sair de São Paulo é essencial para conhecer seu trabalho. Abrir a porta de seu atelier é saber que Ivan, o pai, frequentou aquela casa muito antes do filho alugá-la para visitar memórias. Senti como se entrasse em sua obra.

Por entre fotos e trabalhos, em frente a parede repleta de folhas de livros amareladas pelo tempo, frases soltas coladas. Ivan se arrisca a recortar frases de músicas e de leituras para montar os títulos de suas obras. Na mesa de cabeceira, Walter Hugo Mãe: “nunca termino de ler um livro”.

É da palavra que surge um desafio para desenvolver seus trabalhos mais recentes. A oralidade. Dessa vez, Ivan não foi atrás de um objeto físico, como os preciosos cavaletes de Lina Bo Bardi que utilizou na Bienal Internacional de Fotografia no MASP em 2013. Foi tatear uma lenda sobre o desaparecimento do Rei D. Sebastião.

Em suas pesquisas, soube de uma ilha, chamada Lençois, no Maranhão, em que as pessoas acreditam que o rei reapareceria em uma neblina por lá, em forma de um touro negro, em noite de lua cheia. Desafio aceito e duplicado. Ivan, que morre (ou morria) de medo de água, embarcou numa viagem de poucos dias ao local. Voltou cheio de histórias e uma exposição para se admirar: “Sentimo-nos cegos”.

Entre causos, almoçamos um peixe mesmo longe do mar. Vai ver a água salgada estava logo ali, navegando em nossas conversas. “O melhor peixe que já comi” conta Ivan a respeito de sua viagem de barco de volta à terra firme. Demorou alguns dias para voltar ao seu estado sólido. E prometeu: “Não se pode tirar nada da ilha. Então, um dia, eu vou retornar e devolver a ela uma biblioteca que existia sobre a lenda de D. Sebastião”. Tirou as medidas do lugar, calculou o material para a reforma e disse que vai ajudar na reconstrução.

De menino, Ivan queria ser pedreiro, desmanchava os brinquedos da irmã para entender como funcionava e nunca remontava da mesma forma. Desconstrução. Por que? “Porque preciso” – coça a barba. É hora de retornar.

Work with: Anita Giansante. Video: Amália Coccia.