Série de Entrevistas para canal de Cultura&Arte Online [2014, Espaço Húmus]: curadoria e produção de conteúdo / content curator and producer

Mariana e seus óculos de gatinho

Sempre observei com cuidado a paixão entre pai e filha. Aquela admiração de fazer brilhar os olhos. Foi o que encontrei quando conheci a Mariana. Filha de cearense. Filha de artista. Filha de um homem inspirador. É com gosto que ela abre um dos livros da sua biblioteca e me mostra um dos títulos herdados do pai sobre a cultura africana.É para ele que Mariana cria seus diplomas. Não precisava de todos aqueles certificados – pensava ela sobre a não educação formal do pai; poderia inventar vários, se assim desejava Aldemir Martins (sim, o artista conhecido popularmente por suas famosas pinturas de gatinhos).

Seu pai era mestre, doutor, phd em sabedoria. De vida. Ao me falar do pai artista, ela ajusta seus óculos de gatinho e me relata que vivia a tomar café da manhã brasileiro, almoçar japonês e jantar mexicano. Do banquete ao pão na chapa. Das mais diferentes comidas às mais interessantes companhias. Vejo, como um filme, um entra e sai de pessoas de todo mundo, reunidas em sua casa, pela arte e para a arte.

E assim nasceu todo seu trabalho artístico. De um quadro se comprou uma casa. Da casa se fez uma galeria. Da galeria se fizeram muitos quadros. Dos quadros se fizeram artistas. Da arte se fez sustento. Do sustento se fez vida. Assim nasceu a Choque Cultural, da qual Mariana Martins é fundadora junto ao marido, Baixo Ribeiro. Não poderia ter outro nome. Do Cariri à São Paulo. De São Paulo ao mundo. Da rua à casa. Da parede branca à arte urbana. A Choque ocupa a cultura como lugar de todos. Convida a ver com outros olhos o grafite, o gráfico, a grafia. Colore o cubo branco. Enche a parede de diplomas. E se arrisca a reinventar o mercado de arte.

Posso conversar horas a fio com Mariana, sobre seus projetos educativos na nova habitação da Choque no centro de São Paulo, sobre sua coleção de óculos de gatinho, sobre sua vontade de mudar o mundo em torno da arte e agregar pessoas, sobre sua relação com a música e seu papel como mãe de artista. Encontro ali uma voz, feminina, muito forte. De quem vive do que e para quem ama. Apaixonada. Apaixonante. Acabo a encontrando num bar esses dias e ela me recebe com uma piada sobre minha mineirice. Abraça, observa, ri. Conto do seu vídeo e ela se confessa curiosa. Espie Mari, você fala coisas importantes. E eu fico muito feliz em poder captar sua voz, que ela ecoe.

Video: Amália Coccia