Periódico Temático: Felicidade [2012, Greco Design]: concepção, design e texto | concept, editoral design and text
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Prêmios | Awards: D&AD Award, EUA; If Design Awards, Germany.

O imperativo da felicidade

Quem você deseja ser?

Talvez o nome de uma celebridade passe pela sua cabeça para dar esta resposta. Talvez não. Um conhecido da internet que teve uma boa idéia para um blog, a amiga que faz as próprias roupas cheias de estilo, o namorado que se dá super bem em certo trabalho. Talvez sejam estes os atuais modelos: próximos, reais e possíveis.

Passamos do evocativo para o vocacional. Da aspiração para a inspiração. Não almejamos mais ser a atriz principal que viverá o final feliz. Queremos esta felicidade a cada minuto. Não sonhamos em ser o cara famoso dos comerciais de televisão. Estamos mais ocupados em preencher nossas vidas de atividades energéticas, em trabalhar com prazer e em compartilhar momentos de alegria. E não estamos satisfeitos até termos paixão por tudo aquilo que fazemos.

Quantos amigos de vocês, ou mesmo quantos de vocês possuem os chamados projetos pessoais? Quantos sonham em transformar seus hobbies em fonte de renda? Quantos estão à procura do real talento? Quantos adoram ler blogs de inspiração pela manhã? Quantos se ocupam em compartilhar fotos de momentos alegres no Facebook? Quantos escrevem diariamente a palavra “adorei”, ou mesmo, “amei” no twitter?!

A felicidade virou um imperativo.

“Nos relatos comerciais e acadêmicos, a felicidade é conceituada, em regra, como uma condição relativamente duradoura e profunda de equilíbrio, contentamento e autorrealização – um estado psicológico positivo ao alcance de todos e venerável em si mesmo. Trata-se de uma ideia fixa tão dominadora a ponto de passar despercebida, com demasiada frequência, a especificidade histórica de nossa versão subjetivada da procura da felicidade, cujo alvo é o núcleo afetivo da experiência pessoal”, confirma o professor Jõao Freire Filho, no GT Comunicação e Sociabilidade.

A pergunta – que incomoda – é: por que o tema virou uma questão a ser discutida em tantos seminários, conferências, palestras? A medida em que se fala mais e mais sobre felicidade, fala-se, necessariamente, mais sobre infelicidade? Quanto mais se impõe a paixão, a inspiração, a vocação, mais e mais nos deparamos com as frustrações?

Em leitura ao blog de Carla Rodrigues, encontrei uma passagem do professor de história na Universidade Estadual da Flórida, Darrin McMahon (autor do livro Felicidade, Uma Historia) que esclarece melhor esta angustia na busca pela felicidade através da história.

“Nos séculos XVII e XVIII, um grande número de pessoas haviam sido apresentadas, pela primeira vez, à noção de que teriam o poder de obter, concretizar sua felicidade na terra a partir de suas próprias iniciativas. A felicidade deixou de estar ligada à Deus ou aos deuses, ao destino, à sorte ou ao empenho superior de alguns. Foi libertador saber que não era mais necessário sofrer as conseqüências dos pecados de nossos ancestrais no Jardim do Éden. E que não havia problema em sentir prazer, usufruir do corpo e do sexo, e era possível fazer dinheiro e empreender as circunstâncias da própria vida. Mas ainda que tudo isto tenha sido uma libertação, a idéia de que a felicidade passou a ser responsabilidade de cada um trouxe também uma obrigação. E se você não for feliz? Isso significa que você falhou? Esse é o paradoxo da crença na felicidade. De um lado, há uma liberdade, mas ela cria um novo tipo de ansiedade. Chamo isso de a infelicidade de não ser feliz. Sofremos muito com isso hoje em dia.”

Será que esta libertação constrói hoje nossa própria prisão?! O interessante em colocar a felicidade como foco dos estudos é pensar nesta como o bem estar para todos. Compartilhar esta crença como um direito de cada um em todas as diferentes sociedades do mundo e não como dever. Procurar meios sustentáveis de proporcionar a felicidade, e não impô-la.