Andarilha [2015]: editora da plataforma colaborativa de pesquisa, curadoria e conteúdo sobre arte e cultura brasileira | editor of collaborative plataform of research, curating and content about brazilian art and culture

EM ANDARILHA

Há alguns anos, eu tomei uma nova direção profissional: trabalhar com pesquisa. Depois de vários cursos, fiz uma viagem a São Paulo em visita a algumas empresas do ramo. E decidi começar um projeto autoral de pesquisa. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Talvez, a mais importante delas, vale a pena compartilhar onde tudo começou: aqui.

Desde que criei o A Pattern, olhar para fora virou um exercício diário. O que acontecia em Berlim. O que acontecia no Japão. O que acontecia em Austin. Treinei um olhar bem atento. Fiz uma rede fiel de pessoas em sintonia com esse jeito de ver. Pessoas que viraram amigos e próximos.

Mas, vira e mexe, a vida vem e te sacode. Eu fui levada a fazer o exercício oposto. Foi preciso olhar para dentro, para o que acontecia aqui mesmo, em minha volta. Momento de olhar para a história de vida de minha família: das andanças da minha avó pelo Brasil até onde eu me encontro hoje, caminhando pelo país. Esse trabalho de voltar para o que é interno me ensinou a ver preciosidades esquecidas. Percebi, então, que me construí uma pesquisadora ao avesso.

Enquanto os grandes bureaus estão digerindo uma avalanche de informações em busca da nova tendência por aí; volto meu trabalho para a matéria prima de tudo, o nosso cotidiano e a nossa trajetória de vida e família, em busca do que sempre foi naturalmente inspirador mas estava no fundo da gaveta.

Fui convidada a fazer trabalhos de consultoria nessa direção. Pesquisar o que é a nossa identidade e investigar como pessoas criativas traduzem suas origens e seu cotidiano. Tudo isso me levou a aplicar esse exercício à identidade de projetos, empresas, organizações.

Uma marca que se volta para o autoconhecimento é, no mínimo, corajosa. Em tempos de crise, eu diria, é ser esperta. Fico feliz em me encontrar com profissionais que são atentos para o que um momento de reformulação interna pode construir de positivo para a própria empresa. Ufa, o olhar se volta, finalmente, para o cotidiano. E o melhor de tudo é poder fazer parte desse movimento.

Propor uma série de oficinas, imersões e exercícios feitos à várias mãos em busca de traduzir como aquela marca vê o mundo e a língua que ela fala. Mas não mais a partir do que as tendências lá foram apontam como caminho. Não mais a partir do que os consumidores dizem que querem. Mas sim, a partir dos próprios rumos tomados, dos próprios passos, de onde surgiu aquela primeira vontade de se criar um novo negócio.

Avalanches de referências externas nos levaram a uma espécie de pasteurização do novo. Agora nos resta olhar para o que nos parecia velho conhecido e ver, então, o que ainda parece fresco, quase intocado pelo esquecimento e para o que é, finalmente, inspirador: nossa própria história de vida e nosso cotidiano.

Neste rumo, construo uma nova casa ou talvez seja melhor chamar de estrada. Andarilha é meio. É onde mapeamos pessoas criativas em busca do que, em sua trajetória e em sua cultura, as inspira a fazer um filme, uma música, uma escultura, um livro. É onde buscamos estimular: o vasculhar de gavetas e o reencontrar de fotos de família. É onde percebemos que essa referência para a criação nunca é saturada, pois está sempre em construção. Em andarilha.

Fotos e Video | Photos and videos: Viquitor Burgos