Revista É Farm [2015, com equipe de Branding Farm]: pesquisa e texto | researcher and text

QUE SEJA MEIO E NÃO FIM

Eu tenho essa mania de querer e não saber o que. Não foi sempre assim. Eu costumava saber exatamente o que era, como seria, com que idade, onde eu estaria e, principalmente, a pessoa que eu me tornaria com esse querer. Eu tinha certeza e a vida era uma sucessão de passos para chegar lá.

Eu arrumei as malas, eu mudei de país, eu falei outra língua, eu fui estudar na faculdade dos meus sonhos, eu morei sozinha, eu paguei as minhas contas, eu fui morar junto, eu conquistei aquele emprego. Mas eu também voltei pra cá, reaprendi a falar, mudei de faculdade, morei com meus pais por um tempo, terminei um namoro e decidi sair daquele trabalho. A vida me virou ao avesso e eu encontrei outros lados certos.

Costumava brincar que, meu exercício de memória quando na casa dos 80 anos, seria me lembrar de todos os nomes das ruas que já vivi. Um dia fiz o teste: já me esqueci de uns 3 dos meus 12 endereços. Mas me lembrei do céu estrelado que foi meu teto por um tempo no deserto; da noite que decorei a primeira árvore de natal na minha própria casa; da mudança que fiz de carona de uma cidade para outra; da foto que tiramos juntos ouvindo música quando você se mudou pra cá.

A partir desse dia eu decidi não me preocupar tanto com os nomes das ruas, os lugares de destinos certos, a direção de mão única. Se, no meio do percurso, o rumo se perdeu em outro e eu encontrei você. Se, no meio do caminho, eu tive de desviar o curso e acabei me achando. Que a vida seja meio e não fim.

Que seja. É.

fotos | photos: Raphael Lucena & Carolina Wehrs; Direção de Arte | art direction: Carlos Mach & Julia Hachmann Beleza | Beauty: Cida Nogueira